As Falsas Confidências

Les Fausses Confidences (2016 – FRA) 

O jogo proposto pelo diretor Luc Bondy é tão bobo que diverte, exatamente, por ser clara tão inverossímil. Dentro de um casarão, blefes e artimanhas para um secretário particular (Louis Garrel), interesseiro, conquistar o coração da patroa (Isabelle Huppert) que está prestes a aceitar um casamento arranjado a fim de evitar brigas de posse na justiça.

Empregados envolvidos, ou apaixonados por esses personagens, completam o tabuleiro de xadrez, cuja narrativa varia entre o filme de época atualizado. Importantes ressaltar o forte encontro entre cinema e teatro do proejto, as filmagens ocorreram durante o dia (fotografia tão solar e iluminada), porque à noite os mesmos interpretavam os mesmos personagens na peça de teatro. O sabor maior está em permitir que tais blefes e artimanhas se desenrolem à sua frente, entre o divertido e o ingênuo, com pitadas de frívolo e falsas confidências espalhadas por todos os cantos.

O Que Está Por Vir

oquestaporvirL’Avenir / Things to Come (2016 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A cada filme a diretora Mia Hansen-Love refina ainda mais sua forma sutil e fluida que contar histórias, aliás tais histórias que parecem tão rotineiras, e pouca cinematográficas, mas que sob sua visão tornam-se atraentes e revigorantes. O amor adolescente em Adeus, Primeiro Amor, ou o drama familiar de O Pai das Minhas Filhas, são ótimos exemplos.

Hansen-Love tem, desta vez, Isabelle Huppert como a professora de Filosofia que tem o princípio de desmoronamento de sua vida numa crise familiar. A instabilidade da casa em que vivia com seu maridos e dois filhos, traz a esta professora a possibilidade de renovação, podemos até chamar de recomeço, é o “o que está por vir” do título, sem fugir dos dramas, mas sempre se entregar a eles.

Elle

Primeiro post de uma série de filmes vistos no Festival de San Sebastián que foi encerrado ontem.

elleElle (2016 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Com tela escura, a cena inicial dá indícios de violência contra uma mulher. O que Paul Verhoeven e Isabelle Huppert fazem a seguir é construir essa personagem, com riqueza de detalhes e nuances que a tornam única e fascinante. Além, de um jogo do público, testando os limites da inquietude e da libertação feminina dos estereótipos que tão bem conhecemos.

Por isso, com o forte movimento de clamor feminino dos tempos atuais, o filme de Verhoeven não poderia chegar em melhor hora. Michelle (Huppert) e Anna (Anne Consigny) são sócias de uma empresa que desenvolve videogames, duas mulheres entre os 50 e 60 anos, com vida sexual e social ativa e trabalhando neste ramo já é a primeira quebra de qualquer paradigma. Enquanto descobrimos mais de Michelle ao testemunharmos seus relacionamentos com o filho, a mãe, o ex-marido, os vizinhos e etc, surge um passado familiar nebuloso que  lhe afasta de delatar à polícia o estupro.

Por meio de uma trilha sonora precisa e de uma sofisticação narrativa absurda, a dupla Verhoeven-Huppert constrói relações, fragilidades e fortalezas dessa mulher ainda mais inquietante que a própria trama de saber qual a identidade do violentador. O ato de violência se torna, apenas, mais um ponto crucial da vida de Michelle. Ela é mais o todo que a cerca, e suas respostas a cada um, do que uma frágil e indefesa presa fácil de um violento perseguidor anônimo. Michelle representa a mulher moderna, talvez menos sentimental do que seja possível, ou talvez mais calejada do que qualquer uma para enfrentar seus tramas e criar a autodefesa necessária para não se abater, e essas armas escondem as fragilidades, mas principalmente intimidam a maioria. Sexo, a influência católica, o mundo da tecnologia, uma nova concepção de liberdade e familia moderna, Elle é um estudo intrigante do que seria um encontro de Caché e Claude Chabrol.

Mais Forte que Bombas

maisfortequebombasLouder than Bombs (2015 – NOR/FRA/DIN) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A carreira do norueguês (nascido na Dinamarca) Joachim Trier surge meteórica pelos festivais europeus, seu primeiro filme já correra por Rotterdã e Karlovy Vary. Mas foi mesmo o grande destaque de Oslo, 31 de Agosto (Un Certain Regard) já o credenciaram para que seu próximo trabalho chegasse a competição principal de Cannes. E por mais que a produção seja europeia, os atores são americanos, dando-lhe uma visibilidade comercial bem maior.

A narrativa tenta embaralhar as informações, começa com Jonah (Jesse Eisenberg) no hospital segurando seu filho recém-nascido (esses primeiros instantes lembram o cinema atual de Terrence Malick), o encontro inesperado com a ex-namorada (Rachel Brosnahan, de House of Cards), o corredor claustrofóbico do encontro no hospital. Depois o pai (Gabriel Byrne) tendo que lidar com os detalhes da exposição em homenagem a sua esposa (Isabelle Huppert), fotógrafa renomada recém-falecida. Por fim, o outro filho do casal, o adolescente (Devin Druid) que guarda a agressividade da incompreensão misturada com a tristeza calada pela morte da mãe.

Trier desenvolve essa família em plena ebulição, outro dia alguém falou em dramas-de-pessoas-brancas. Claro que estava criando um tema pejorativo, querendo falar de dramas de vidas burguesas. E o filme segue realmente esse tom, são vidas que nunca sofreram de dificuldades financeiras. O filho que encontra refúgio no videogame para não se comunicar com o pai, o novo adulto ainda inseguro das escolhas que fez para-a-vida-toda, e todo o peso da desestabilidade que pode ser causada, tanto pela morte, quanto por um casamento frustrado.

Lentamente, o personagem adolescente se torna o verdadeiro centro das atenções, a primeira paixão juvenil, os textos autobiográficos que resumem tão bem aquela personalidade reclusa, e as interferências de pai e irmão que nem sempre são ouvidas. Trier busca aprofundar tudo e todos, e algumas coisas acabam funcionando melhor do que outras, nesse mar de irregularidade, há pontos interessantes, e uma proposta de cinema que tende a solidificar.

Valley of Love

VALLEYOFLOVEThe Valley of Love (2015 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O novo trabalho do diretor Guillaume Nicloux reune a dupla Isabelle Huppert e Gerald Depardieu, após trinta anos da filmagem de Loulou. Eles são pais separados, que vem aos EUA lamentar a morte do filho, e executar seu último desejo no Vale da Morte (California). Entre o calor desesperador e as cicatrizes do passado, os dois mergulham na lamentação da perda enquanto Nicloux insere pequenos elementos fantásticos nessa trama. É um filme de dor contida, de vidas reunidas para um pequeno momento. E também de misturar os problemas atuais da vida na terceira idade, e esse peso da culpa pela não proximidade da família de uma vida toda.

Dois Lados do Amor

doisladosdoamorThe Disappearance of Eleanor Rigby: Them (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A ideia, e realização inicial, partem da música dos Beatles (Eleanor Rigby), e do anseio de tratar diferentes pontos de vista de uma mesma história. O diretor lançou a versão “Him” e “Her”, que juntas passam das 3h de duração. Mas lá vieram os Weinstein fazendo Ned Benson remontar, unir as duas versões num único filme “Them”, de apenas 2h, aglutinando as duas versões. Dessa forma, surge um filme convencional, sobre uma crise conjugal, após uma tragédia, que abala marido (James McAvoy) e esposa (Jessica Chastain) em distinta intensidade.

Fica a curiosidade do quanto Benson pôde explorar, de cada um deles, nos filme isolados – e parece impossível não ter essa sensação. Triste, emotivo, simples (como a vida é), Benson trata das feridas do casal, enquanto explora a relação individual deles com a sociedade (ela com a família, ele com o trabalho e com o pai) e o próprio desgaste que causa o afastamento, o desconsolo, as atitudes desequilibradas. O diretor prega a máxima de que o caminho da reconstrução parte do alicerce, do tripé família x amor x trabalho. O tripé desbalanceado causa desestrutura, a busca por recomeços, necessidade de novas perspectivas. Na versão que chega ao cinema temos, exclusivamente, um filme sobre depressão, e a reconstrução a partir dela, com todo o peso do amor envolvido (que pode afastar ou reaproximar).

 

O Portal do Paraíso

oportaldoparaisoHeaven’s Gate (1980 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Da obra-prima ao fracasso. Na inernet facilmente encontra-se textos que pontuam a importância histórica do grandioso filme de Cimino, a disputa com o estúdio, o fracasso de bilheteria, o orçamento estourado, o ego inflado por aquele jovem promissor que ganhara 5 Oscar’s e pretendia realizar, nada menos, que a obra-prima definitiva do cinema americano. E não venham me dizer que esta não era a intenção, porque o filme dá todos os sinais da eloquência com que Michael Cimino conduz seu filme. Da frustração irrestrita com que o filme foi recebido à aclamação da crítica como verdadeira obra-prima, quando do relançamento da versão do diretor, o filme se tornou maldito e amado.

O tema não era nada palatável, e o clima da época (pós Guerra do Vietña) indica que não era o tema que o público estava ávido em descobrir. Afinal, tratar de um momento histórico americano em que o presidente do país aceita que um grupo faça uma lista, e execute, 125 pessoas (na maioria imigrantes que atrapalhavam seus negócios), está longe de entreter. Do discurso inflamado do orador da turma (John Hurt), à caçada que se torna o condado de Johson, Cimino cria dezenas de planos fabulosos em reconstituição de época, cenários, e a violência sanguinária. O balett da câmera acompanhando os bailes, as cenas com centenas de figurantes, a porção western (há quem considere que o filme matou com o gênero), a trilha sonora precisa entre a emoção e o bucólico. É tudo lindo de se ver.

Porém, de tão grandioso, a almejada obra-prima de Cimino se apresenta como um polvo gigante, desengonçado, que se movimenta em slow motion. O triângulo amoroso (Kris Kristofferson, Isabelle Huppert e Christoher Walken) é instável, falta fluidez. O personagem de Jeff Bridges parece meio perdido na história. O roteiro não consegue dar conta de tamanha grandiosidade, de estruturar seus personagens, o massacre e o triângulo amoroso acabam como as tábuas de sustentação enquanto Cimino apresenta sua desenvoltura em criar cenas lindas. Cavalos, carruagens, os trajes coloquiais, o western como toques de épico, a perseguição à imigração. Talvez fossem necessárias 5 horas de duração para que Cimino conseguisse desenvolver tudo que pretendia, a versão de 219 minutos ainda manté o filme confuso, ainda que belíssimo.