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Professione: Reporter (1975 – ITA/FRA) 

A recém-encerrada Mostra com filmes de Michelangelo Antonioni (exibida nos CCBB’s e Cinesesc) foi uma grande oportunidade de (re) descobrir um dos maiores cineastas italianos. E para não passar em branco pelo blog, escrevo aqui um pouco sobre Profissão: repórter, que quase, foi quase, superou Depois Daquele Beijo (Blow-up) como favorito em sua filmografia.

Em muitos dos seus principais filmes, Michelangelo Antonioni propunha a experiência cinematográfica por completo, através de uma imersão mais profunda do que propriamente no roteiro. Tempos mortos, imagens reflexivas, como se fossem um respiro entre o virar de uma página e outra, numa espécie de literatura cinematográfica. Aqui um jornalista (Jack Nicholson) na África, troca de identidade com a de um outro viajante. Gosta da brincadeira, mergulha totalmente nessa nova identidade.

Não importa o que veio antes na vida do jornalista, e nem mesmo o que virá depois. Somos apenas testemunhas desse caminho que Locke percorre agora, uma espécie de traficante de armas, vagando pelo deserto ou voltando a sua casa na Europa. E, desse caminho, Antonioni esbanja a arte da linguagem do cinema como forma de narrativa entre som e imagem. Planos abertos, cortes, enquadramentos inesperados, som e imagem em tempos diferentes até se fundiram no mesmo momento, e o genial e engenhoso plano-sequencia final, todos elementos que costuram esse fiapo de trama, que alguns podem achar chata, outros contundente, mas que, no fundo, se coloca apenas como artifício para Antonioni modernizar essa entidade que chamamos cinema.

Something’s Gotta Give (2003 – EUA) 

Algumas vezes deixamos passar alguns filmes que aparentemente possam oferecer mais do mesmo, vez ou outra você se depara com um desses hiatos e percebe que são realmente mais do mesmo, mas há neles um algo mais, um charme, que merece respeito. A comédia romântica de Nancy Meyers, com Jack Nicholson e Diane Keaton é um desses exemplares típicos do gênero, mas carregados do charme desse amor na terceira idade, e de personagens com personalidade forte que enriquecem o humor até ingênio, porém sempre capaz de obter os resultados esperados.

O charme é notável pela liberdade com os amores enfrentam as idades. Keanu Reeves faz o médico que serve de contraponto para o triângulo amoroso, altamente interessado intelectualmente nessa escritora que se sente atraída pelo homem que leva a vida do oposto do que ela acredita. Os personagens influenciam uns aos outros, e nesse jogo de bobagens e balelas românticas que Meyers nos faz embarcar pelos trilhos de sua história.

Terms of Endearment (1983 – EUA)

A salada melodramática promovida por James L. Brooks e protagonizada por Shirley MacLaine e Debra Winger é de enlouquecer qualquer um. Essa relação mãe e filha existe (podem acreditar, eu já vi) , uma coisa que as consome, mas que não as permite se afastar. Invasiva, indiscreta, dependente, praticamente uma falta de respeito.

O roteiro ainda tumultua essa relação desgastante com um bando de personagens como o marido infiel (Jeff Daniels) e o vizinho ex-astronauta e beberrão (Jack Nicholson). Veja, os homens são sempre seres desprezíveis, porém elas altamente dependentes deles. Enfim, toda uma história dramática ao extremo envolta por um carinho açucarado e um conjunto de cenas apelativamente dramáticas.

É fórmula certa para um público médio que está louco para se emocionar, para de alguma modo se encontrar num personagem e notar que a vida infeliz não é exclusividade sua. Tanta ternura junta que não se assuste, o dvd deveria trazer como efeitos colaterais o alto risco de causar náuseas.

As Good As it Gets (1997 – EUA) 

Tem um quê de comédia romântica que define o gênero em sua década. A cada nova revisão, nova paixão, pela forma, como o diretor James L. Brooks, conduz a transformação de um personagem tão solitário, egocêntrico e ranzinza, incapaz de ser gentil ou fazer um elogio, num homem apaixonado, claro que a sua maneira. Esse é Melvin (Jack Nicholson), o escritor de sucesso, e uma personalidade das mais problemáticas. Cheio de manias, como travar e destravar cinco vezes a porta, ou almoçar, todo dia, na mesma cadeira, do mesmo restaurante, e ser atendido pela mesma garçonete, Carol (Helen Hunt). Exemplos de alguns excentricidades, de alguém, com conforto financeiro, e a arrogância como arma de defesa, contra o convício social. Quando alguma situação foge de sua rotina, impera nele o descontrole, como a de um garoto mimado.

O contraponto a todo o alívio cômico do personagem central é mesmo a garçonete. Explosiva, carente que alguém que lhe dê alguma atenção es especial, e repleta de problemas pessoais. Desse caos que, naturalmente, ela é capaz de descongelar o coração espinhoso do escritor rabugento, até por ter a coragem de falar não e impor limites às extravagâncias sociais del. É Helen Hunt quem dá as deixas para Jack Nicholson ser engraçado, cativante, irritante ou, até mesmo doce. E também que permite a Greg Kinnear (o vizinho gay) a surgir como essa revelação inesquecível. O público ri do rude, mas é cativado pelas possibilidades de transformações, pela quebra de limites pessoais, e pelo esforço de transgredir essas barreiras psicológicas, em prol de uma mudança, que possa resultar no dar e receber amor. Sensível e divertido, é James L. Brooks na dose certa.