Posts com Tag ‘Jacqueline Bisset’

bemvindoanyWelcome to New York (2014 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Estou para encontrar um filme tão corrosivo quanto este. Começa com uma “pequena entrevista” de Gérard Depardieu dizendo que não gosta de políticos, estaria justificando o porquê de entrar nesse projeto. A partir daí ele interpreta Sr. Georges Devereaux, que é apenas um codinome para Dominique Strauss-Kahn. Desde a primeira cena o ex-diretor-geral do FMI é deflagrado como um asqueroso viciado em sexo. Reuniões em escritório, orgias em hotéis, num patamar fora de controle.

É a destruição completa da figura pública, Abel Ferrara não poupa Devereaux da exposição vexaminosa em cena alguma. No decorrer do filme vem o caso do ataque a uma empregada de hotel que destruiu a carreira de Strauss-Kahn, que era tido como próximo presidente da França. Ferrara foge dos jornais, da repercussão da mídia. Seu foco é o íntimo da rotina de Devereaux. Não se trata de um estudo de um personagem, mas sim de uma destruição ácid. Desde as discussões com a esposa (Jacqueline Bisset), até os detalhes dentro da prisão (revistado nu pelos policiais, por exemplo).

Òbvio que Ferrara está imaginando diálogos, inventando, mas a construção de um personagem tão asqueroso parece mais crível do que a de qualquer vilão da vida real, que se tenha noticia. Arrependimento não existe, há o que o dinheiro pode comprar, e sua incapacidade de controlar suas investidas. Um homem movido por seu instinto sexual, por mais que esse instinto possa jogá-lo ainda mais na lama. Depardieu e Ferrara juntos perdem qualquer pudor e entregam aquela visão escrota que temos dos políticos mais corruptos, nesse caso o contexto é sexual, mas qualquer outro figurão poderia se colocar num mesmo contexto moral, trocando o sexo por mais fortuna vinda de corrupção.

La Cérémonie (1995 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

A abastada família Lelièvre procura uma empregada doméstica para residir na casa da família, localizada um pouco distante do centro de uma pequena cidade interiorana francesa. Com boa experiência e referências, Sophie (Sandrine Bonnaire) é contratada e rapidamente conquista, não só Catherine Lelièvre (Jacqueline Bisset) como a todos com sua eficiência.

Por mais que ela seja uma mulher um tanto estranha, muito quieta e seca, guardando segredos e um repetitivo “não sei” entre os lábios. Todos da família demonstram certa preocupação com Sophie e com reserva tentam aproximar-se, seja oferecendo consultas médicas ou disponibilizando um carro caso ela necessite, porém nada disso parece alterar a pacata e quieta Sophie que passa seu tempo livre comendo chocolate ou sentada no chão de seu quarto assistindo programas infantis na tv.

Claude Chabrol sutilmente incorpora o tom de suspense psicológico à trama, explorando minuciosamente música e posicionamentos de câmera, ao seu modo, criar ares de thriller. Chabrol ainda permeia sua história com a diferença entre classes sociais, a jovem Melinda acusa seu pai (Jean-Pierre Cassel) de fascista a todo momento, mesmo que ele demonstre zelo por Sophie. Um certo sentimento de culpa dos mais ricos em deixar os outros à margem, não oferecendo o mesmo conforto que possuem, não deixa de ser um discurso socialista vindo de uma voz burguesa que apenas vocifera, mas muito se aproveita dos confortos que o dinheiro lhe oferece.

Finalmente Sophie cria algum vínculo social ficando amiga de Jeanne (Isabelle Huppert), uma funcionária do correio muito falante, atrevida e curiosa que adora ler correspondências e saber da vida dos outros. As duas escondem passados obscuros e a amizade aflora um lado mais leviano de cada uma delas, de duas mulheres aparentemente inofensivas a dupla torna-se nada menos que diabólica. E o final apoteótico entre Mozart e o total descontrole humano eleva o clima há alguns momentos exasperantes. Baseado-se livremente no livro A Judgment in Stone de Ruth Rendell.