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  Dheepan (2015 – FRA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A chegada de refugiados à Europa vai se configurando como o grande tema do ano de 2015. Por isso, olhando com distanciamento, tem tudo a ver a escolha da Palma de Ouro para um filme com esta temática. Pouco após o festival de Cannes, a situação na Síria explodiu e ao fenômeno migratório tomou os vultos de calamidade pública da atualidade. O filme de Jacques Audiard pega carona em outra guerra civil, o foco é outro continente, mas os dramas são os mesmos. Caímos de paraquedas no Sri Lanka, exatamente no final do conflito armado, e o grupo derrotado tem pouca escolha se não tentar fugir dos campos de refugiados. No meio da multidão, Sivadhasan (Antonythasan Jesuthasan) faz acordo com Yalini (Kalieaswari Srinivasan) e uma garota órfã, Illayaal (Claudine Vinasithamby), os três juntos formam uma família fajuta para conseguir visto de entrada na Europa.
O filme de Audiard usa como pano de fundo o processo migratório, mas trata mesmo da adaptação dos imigrantes à Paris. O processo documental, as dificuldades com o idioma, a vida no subúrbio dominado por gangues. O cineasta prefere o foco entre a relação de sobrevivência de um ex-militar e o crime organizado, logo ali à sua frente. Além, é claro, da notória dificuldade de relacionamento entre aquela família de estranhos, em convivência. Era narrado como um drama corriqueiro, com toques poéticos tortos de imagens de um elefante na selva, até que os clichês do cinema de ação descambam, de tal forma, que até a presença forte daqueles protagonistas preponderantes é diluída para um desfecho insípido.

cannes2015E ontem se encerrou mais uma edição do badalado, amado/odiado Festival de Cannes. Não tem jeito, ele é o balizador do ano, a maior plataforma de lançamento dos filmes que devem figurar entre os mais falados do ano e presentes em outros festivais. Da tela do meu computador, ou do celular, estive acompanhando mais um ano de críticas, repercussões, tweets e podcasts. Críticos torcendo por alguns filmes, odiando outros, enquanto por aqui se espera, ansiosamente, a oportunidade de conferir grande parte da lista de filmes que complementou todas as mostras do festival.

Mas o festival inicia, verdadeiramente, algumas semanas antes, com a divulgação dos filmes selecionados. Cada festival tem suas características, mas todos querem estar em Cannes, afinal é a grande vitrine para venda de direitos de distribuição no mundo todo. É o parque de diversões do arthouse. Os primeiros sinais de surpresa vieram com a divulgação, nomes considerados certeiros na Competição Oficial foram parar em mostras paralelas, dando espaço para outros diretores que já figuravam em edições anteriores do festival, mas nunca com tal destaque. Assim, Miguel Gomes (ok, seu filme de 6h não coube no escopo da Competição), Desplechin, Kawase e Apichatpong Weerasethakul forma preteridos.

cannes20153Antes eram apenas especulações de nomes e títulos, agora, são especulações baseadas nas opiniões dos outros. Ainda assim, no resumo o festival traz expectativas positivas, ainda que alguns tenham decepcionado fortemente. Mesmo só tendo ganho o prêmio de direção, Hou Hsiao-Hsien sai como o queridinho da imensa maioria. Desde sua primeira exibição se torna o filme mais aguardado do ano. Outro que deixou muita gente vislumbrada foi Carol de Todd Haynes (Rooney Mara levou o prêmio de melhor atriz, empatado com Emanuelle Bercot por La Loi Du Marché) num melodrama requintado. Também grandes elogios para Saul Fia, do estreante húngaro Laszlo Nemes (Grande Prêmio). São os quase unanimes da Competição, com Mia Madre (possível último filme de Nanni Moretti) também desperando boas does de elogios.

cannes20152A segunda leva é de filmes curiosos, ou de diretores eficientes. Agora todos querem falar sobre Dheepan (vencedor da Palma de Ouro), o francês Jacques Audiard havia batido na trave com O Profeta, mas seu cinema é daqueles que preenche as salas de cinema alternativo sem que cause grande comoção. São boas histórias, narradas de forma eficiente, thriller ou drama, longe das construções sofisticadas de alguém como Hsiao-Hsien. Seu novo filme é sobre imigração ilegal de um rebelde de Sri Lanka. A recepção foi positiva, mas não vi uma lista sequer em que o filme estivesse no top 10 do festival.

 

Festival é assim mesmo, sua importância está na exibição, a premiação é a cereja do bolo. Afinal, o júri é formado por poucas pessoas, ligadas ao cinema, e portanto fica muito pessoal. Os irmãos Coen presidiram o júri, a escolha por Audiard me parece até coerente com o que se esperar dos Coen, por mais que não sejam estilos semelhantes. O humor negro dos Coen pode até ecoar na vitória de The Lobster (prêmio do júri), se bem que Lanthimos vai muito além do humor negro, e, pelo visto, teremos que aturá-los por mais um tempo. Mountains May Depart, de Jia Zhang-Ke também causou boas impressões, drama político acerca de algumas década de sua China.

Os italianos pareciam vir com tudo, Sorrentino era o grande favorito (antes do festival começar), e nem ele, e nem Garrone conquistaram a maioria. Joachim Trier, Stephane Brizé e Dennis Villeneuve, e até Kore-eda agradaram. O restante ficou entre o medíocre (Michel Franco levou roteiro, muitos detestaram) e as vaias (a maioria não entendeu a presença do filme de Gus Van Sant).

 

cannes20154Das mostras paralelas, As 1001 Noites, de Miguel Gomes, encantou, os romenos Porumboiu e Munteau, além de Apichatpong e Desplechin foram só elogios. Deixando assim essa sensação estranha de um festival que tenta forçar uma renovação, deixando de lado alguns de seus pesos pesados, para apostar em jovens (que talvez não sejam as apostas corretas). Cannes pode se dar ao luxo de colocar nomes tão importantes na Un Certain Regard ou na Quinzena dos Realizadores, mas, pelas repercussões, não foram os jovens cineastas que demonstraram a renovação.

A vitória francesa, e até a escolha na abertura de um filme francês que nada agradou, demonstram uma tentativa de olhar para dentro da própria indústria francesa. Percebe-se um destaque menor ao cinema americano nessa edição (por mais que houve exibição de animação nova da Pixar, e o novo Mad Max tenha figurado entre os melhores do festival), ainda assim é perceptível esse movimento de tentar renovar. E a cerimonia de entrega dos prêmios então, várias apresentaç~eos musicais, um clipe de homenagem, um flerte forte para o formato de festa que o Oscar promove (não deu certo). Cinema não é um esporte, nem uma ciência exata, viva a pluralidade, e as opiniões distintas. E se o júri não escolheu o melhor filme, que pena, porque daqui alguns anos, o que vai se lembrar é da Palma de Ouro para Jaques Audiard.

ferrugemeossoDe Rouille et D’os (2012 – FRA/BEL)

O encontro da delicadeza com o viril. Chega a ser exagerado essa questão dos opostos que se atraem, a linda garota refinada (Marion Cotilard) e o brutamontes de vida sofrida (Matthias Schoenaerts). Relações humanas são assim, simplesmente acontecem (falando de amor, como amizade), a deles se constroi pela carência e por uma forma de atenção meio desajeitadas. Personagens marginalizadas pela condição social e física, e uma dificuldades em tratar com o dia a dia. Jacques Audiard exagera na dramaticidade, e na explosão, seus personagens não agridem ao público, mas falta a eles uma sensibilidade capaz de nos tocar mais fundo.

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Sur Mes Lèvres (2001 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O amor entre marginalizados pela sociedade, um relacionamento ambíguo permeado por interesses mútuos e boa dose de tensão sexual. Carla (Emmanuelle Devos) é deficiente auditiva, doa-se completamente ao emprego de secretária numa construtora. Nunca é reconhecida, e ainda obrigada a suportar gozações de seus colegas de trabalho. Sente-se renegada, solitária, anseia maneiras de se libertar sexualmente, enquanto isso cuida do bebê de uma amiga ou empresta-lhe o apartamento para que a mesma divirta-se em suas aventuras extraconjugais.

O ex-presidiário Paul (Vincent Cassel) cumpre condicional, mas ainda não se livrou completamente de seu passado de crimes. Contratado por Carla, como estagiário, surge um envolvimento entre os dois renegados. A relação de cumplicidade culmina na troca de favores para interesses individuais, os dois emprestam suas habilidades em favorecimento do outro.

O premiado roteiro dá evidentes sinais rocambolescos à trama, o clima de suspense perdura com certo atilamento em sua meia hora final, mesmo com os discutíveis meios que o roteiro utiliza-se para costurar a história. O diretor Jacques Audiard constrói com muito esmero o mundo particular de deficientes, trabalha diversos elementos no som para criar nítidas diferenças quando Carla retira seu aparelho auditivo. O som perde detalhes, fica mais bruto, com rupturas, dá a clara sensação de que estamos com deficiência. Audiard vai além, traz a cumplicidade entre os personagens ao seu thriller, com sabores de critica social agridoce.

Os dois personagens são construídos e interpretados com excepcional trabalho de seus atores. Emmanuelle Devos exprime insegurança, dúvida, alimenta sua ambição, trabalha com os elementos usuais de pessoas renegadas pela sociedade. Carla procura reconhecimento em todos os aspectos, finge um namoro, luta para promover sua ascensão profissional, liberta-se cada vez mais enquanto a amizade com Paul perpetua-se. Vincent Cassel é um criminoso incorrigível, incapaz de acreditar na benevolência. Um homem tosco, bruto, envolvido até o pescoço com seu passado. Cassel oferece um sotaque infalível, além de compor com Devos uma magistral parceria.