Posts com Tag ‘Jafar Panahi’

3 Faces

Publicado: outubro 31, 2018 em Cinema, Mostra SP
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Se Rokh / Three Faces (2018 – IRA)

Jafar Panahi não para, mesmo proibido pelo governo iraniano de filmar, e em prisão domiciliar, ele segue criando seus filmes e refletindo seu país e seu povo. E, dessa vez, um dos melhores filmes dessa sua safra mais recente, pós-proibição. Um vídeo de celular com o suposto suicídio de uma jovem que queria estudar para ser  atriz, mas foi probida pela familia. O próprio Jafar e a atriz Behnaz Jafari viajam até a aldeia para saber os fatos pela jovem, afinal o vídeo não é conclusiva se a tentativa de suicídio foi efetiva.

Desse mote, o cineasta iraniano propõe uma imersão a locais parecidos com o que filmava Abbas Kiarostami, a proximidade com o povo mais ingênuo e singelo, os tabus religiosos e convenções sociais, as crenças populares de como auxiliar no futuro sucesso dos filhos. De maneira pacata o filme reflete três gerações de atrizes, compar as liberdades entre o velho e o novo, enquanto se permite investigar mais sobre essa cultura popular, pela vida ao lado do desertoe por suas crenças no que é realmente fundamental. Um filme feminista sem discurso-panfletário e nem timidez, Panahi vai se especializando em se colocar em seus filmes e criar histórias que refletem os que menos voz ativa.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição

Táxi Teerã

Publicado: novembro 30, 2015 em Cinema
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taxiTaxi (2015 – IRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Um taxi pelas ruas de Teerã, no meio de uma corrida, outros passageiros também sobem no taxi, praticamente um ônibus num utilitário. No volante Jafar Panahi, não atores num falso documentário ajudar a criar a voz das ruas para o cineasta. E, dessa forma, o cineasta iraniano discute questões universais ou particulares a seu povo, enquanto traz a tona, novamente, os absurdos das leis que definem o que é um filme exibível, e que o mantém oficialmente longe das câmeras.

Panahi dá a sensação de um homem cansado, que envelheceu prematuramente por conta das proibições e imposições que sofre. É um coadjuvante dentro de seu filme, tenta interagir o mínimo possível com os personagens, mas não consegue. A ideia funciona bem com os primeiros passageiros, a discussão de pena de morte para ladrões causa discussão interessante com dois passageiros.

Depois entram em cena a sobrinha, um vendedor de dvd’s piratas, duas senhoras carregando um aquário com peixes dourados. São maneiras de Panahi de manter a mente sã, já é seu terceiro filme na proibição de filmar, os outros foram Isto Não é Um Filme e Cortinas Fechadas. Não deixa de ser um libelo de coragem e criatividade, ainda que nem tudo funcione na prática, Panahi não se cala frente sua luta pela liberdade.

cortinasfechadasClosed Curtain / Pardé (2013 – IRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Jafar Panahi continua no Irã, sob prisão domiciliar, e proibido de filmar. Ainda assim não lhe falta coragem para realizar filmes, e os enviar ao exterior de forma clandestina, contando com a ajuda de amigos, no caso Kambuzia Partovi que codirige e atua no filme.

Câmera fixa pela janela de uma casa de veraneio (com vista para o mar), de lá alguém chega de táxi e fecha as cortinas. É um filme todo de metáforas, que claramente se relacionam aos pensamentos, sentimentos, sensação de um Jafar Panahi emocionalmente cansado de seu afastamento do mundo. Lá dentro um escritor esconde um cão (animal considerado impuro pelo governo religioso do Irã). Por isso, as cortinas fechadas. Chegando dois irmãos buscando refugio, a polícia os persegue. A garota fica, ela tem tendências suicidas e o tempo todo confronta o enclausuramento do escritor.

Mais adianta surge o próprio Panahi, os personagens são seres fictícios, abstratas sensações de Panahi. As metáforas soam confusas, deveras obstusas, o grande Panahi parece cansado, mentalmente, como se o cárcer privado estivesse deixando-o esgotado. É triste de ver, doloroso. Os personagens vem e vão, as cortinas se abrem e fecham, o diretor segue tentando exprimir sua revolta ou comparar o Estado do Irã com os personagens, mas o que fica mesmo é essa voz que precisa falar, mesmo que esteja abafada, cansada, é uma voz que não se cala, mesmo proibida e vigiada.

This is Not a Film (2011 – IRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Condenado à prisão domiciliar, e 20 anos sem poder filmar, já que o governo iraniano enxerga questões críticas à soberania do país como afrontas, e por isso pune cidadão com este tipo de rigor absurdo. Jafar Panahi encontra uma brecha em sua sentença, trancado em seu apartamento, pede ajuda a um amigo (Mojtaba Mirtahmasb) e filma sua leitura (no melhor estilo Dogville) de um roteiro (que foi reprovado pela censura). Afinal ele não está proibido de atuar, certo?

Primeiro de tudo é a coragem e o vigor com que Panahi encara essa arriscada empreitada, essa inquietude de não aceitar calado e encontrar maneiras de expor ao mundo sua condição. Somos convidados a adentrar seu apartamento, suas constantes olhadas pela janela, as ligações telefônicas para sua advogada, e parte do seu dia-a-dia (como a vizinha que insiste em pedir-lhe para cuidar do cachorro, ou o garoto que vem buscar o lixo dos apartamentos).

Em alguns momentos Panahi parece engajado a essa exposição contra as arbitrariedades,em outras a imagem se coloca como mero passatempo, uma brincadeira de crianças presas num apartamento num fim de semana chuvoso. As questões são óbvias, e o absurdo de sau situação já sustentaria o filme seja lá qual fosse o seu conteúdo.

O Espelho

Publicado: janeiro 24, 2005 em Cinema
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oespelhoAyneh / The Mirror (1997 – IRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Uma garotinha (Ymina Mohammad-Khani), com o braço engessado, espera no portão da escola, que sua mãe venha buscá-la após o término das aulas. A mãe se atrasa, todas as crianças vão embora, e a filha, cansada de esperar sozinha, decide partir pela cidade atrás do caminho de casa. É de maneira dócil e pueril que a câmera acompanha a menina, e os pequenos personagens que são inseridos pela sua jornada. O diretor Jafar Panahi prende-se a minuciosidades, não tem pressa em fechar um ciclo, nem que precise voltar nele lentamente, e inúmeras vezes, para concluí-lo.

Um senhor que trava uma batalha incansável para atravessar a rua, uma senhora reclamando da família que não a trata bem, uma mulher lendo a mão de outras no ônibus. Alguns desses personagens vão e voltam até que seus esquetes sejam encerrados, aliás, na primeira fase a garota parece que será apenas argumento para que Panahi trate do cotidiano, abordando temas como o tratamento islâmico exclusivista com as mulheres (pegando entre outros exemplos a divisão existente dentro dos ônibus no Irã, onde homens e mulheres ficam em espaços separados). Outro aspecto recorrente é o transito caótico que parece insolucionável (tema que já abordou em outros filmes), o desrespeito com pedestres, idosos e crianças.

A veia crítica do roteiro de Panahi começa a ficar monótona, eis que o diretor tira uma sacada que faz o filme renascer, brilhar, florescer. Numa bela jogada ele impulsiona sua história e transforma sua atriz num espelho da própria personagem, tenta que o público acredite que passa a filmar a realidade e não mais um roteiro com texto escrito. Personagem e atriz se confundem, suas histórias fundem-se e o que parecia cansativo volta a todo o vapor.

Nessa fase o que se torna mais interessante é a aparente improvisação, o pseudo-amadorismo da equipe de filmagem que estaria despreparada para a situação da pequena atriz rebelada, que cansou de brincar de ser atriz. Ficamos entre o pasmo com a situação “documental” e o improviso de quem está ouvindo um diálogo no microfone enquanto a câmera filma a parede de um ônibus que teima em não sair da frente de suas lentes.

Grandes encontros, histórias divertidas, maratonas intermináveis, corridas malucas, novos amigos, dias inesquecíveis.  Acredito que os relatos dos posts resumiram bem o que foi essa Mostra. Por isso, sem mais delongas, vou fechar o balanço com os meus grandes destaques do festival entre os 15 filmes vistos.

O Filme

casavazia

Casa Vazia, de Kim Ki-Duk

Uma das metáforas mais lindas para o amor e uma forma de aceitar as consequencias para vivê-lo em sua plenitude. Porque amar pode ser até mais importante do que existir.

 

Os Melhores:

Oldboy, de Park Chan-wook

A Ferida, de Nicolas Klotz

Ouro Carmin, de Jafar Panahi

Contra a Parede, de Fatih Akin

Sede, de Tawfik Abu Wael

Ainda não conhecia a aconchegante Sala Uol, típico (e quase único) cinema de rua, com charme e simplicidade. Enquanto aguardam, os frequentadores colocam em dia a leitura. Nas colunas do hall há, sobrepostos, posters de filmes que há pouco saíram de cartaz. E na parede que dá acesso aos banheiros, uma reprodução do poster da 14ª Mostra. E, mais uma vez, a sessão contava com a ilustre presença de Bernardo Vorobow.

Hussein Emadeddin as HusseinOuro Carmim (Talaye Sorkh/Crimson Gold, 2003 – IRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A narração começa num assalto desastrado, numa joalheria de bairro chique em Teerã. O cineasta Jafar Panahi começa pela explosão da panela de pressão, para então iniciar o longo flashback que trará os personagens até a situação trágica. O roteiro é de Abbas Kiarostami, ele observa a situação iraniana pelos olhos de um entregador de pizza, que sofre com o transito caótico, bate carteiras durante o dia, frequenta apartamos luxuosos para realizar suas entregas.

O disparate entre classes sociais e a mão opressora do Estado para com a classe média baixa, de apartamos minúsculos em lugares inóspitos, forma o caldo desse filme. Hussein (Hossain Emadeddin) se sente discriminado, humilhado, quer ser bem tratado, passa a usar terno e gravata, ainda assim não consegue negar suas origens. A humilhação fica ainda maior, fato gerador que culminará na panela de pressão que se tornará a joalheria, ouro carmim torna-se cor de tragédia.

Mas além do contraste social o filme trata da indiferença, que exerce função de locomotiva psicológica na história. Um garoto de quinze é militar, ele não tem idade para estar lá, mas seu irmão morreu e ele herdou a carteira de identidade. É nítido em seu rosto sua pouca idade, mas é indiferente ao Estado que precisa manter seu exército para controlar as rédeas desse povo discriminado e reprimido.