Posts com Tag ‘James Gray’

The Lost City of Z (2016 – EUA) 

O novo trabalho, de um dos queridinhos da cinefilia mundial, é o mais eloquente de seus filmes. Por mais que seja vendido como aventura para os públicos do multiplexes, é quase inclassificável pela conjunção de fatos históricos, grau de fascínio pelo novo, e diferente, mas também pelos arcas dramáticos que envolvem o protagonistas (Charlie Hunnan).

O explorador britânico sai numa expedição em busca de informações, novas descobertas, pela inexplorada região Amazônica (inexplorado pela Europa, já que os índios sempre estiveram por lá). Seu interesse real é outro, conquistar o prestígio e renome que até então não conseguira em sua profissão. A viagem pela selva se torna uma obsessão, principalmente em encontrar, e provar a existência, de uma cidade perdida, com sinais de uma civilização com avanços tecnológicos.

O filme de James Gray guarda semelhanças com sua filmografia, principalmente na manutenção do núcleo familiar ativo. Idas e vindas da América do Sul, e a cada retorno, um novo degrau dramático dentro do quadro familiar, seja com a esposa (Sienna Miller), ou com os filhos. A família segue importante no cinema de Gray, por outro lado, sua atenção aos detalhes é substituída pela grandiosidade das paisagens, das possibilidades que a floresta lhe permite. E seu filme se torna mais frio do que costumeiramente, talvez pela interpretação pouco inspirada de Hunnan, talvez pelas inúmeras possibilidades com que o estilo elegante de Fray podia retratar aquele espaço idíliaco.

O resultado final é de um filme saboroso de se admirar visualmente, porém incapaz de fazer o público penetrar em suas subtramas, em seus contextos mais íntimos. Sabemos que filmes na selva são difíceis, mas a opção de ter a ânsia do reconhecimento pelo homem comum, diminui a experiência que poderia ser hipinótica do explorador, e seu desconsolo com o mundo que vive.

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Nos últimos dias estava quebrando a cabeça, vasculhando nos filmes que entraram no circuito comercial, aqueles dez que seriam os meus preferidos do ano – doença de cinéfilo. E, simplesmente, não consigo fechar uma lista com dez merecedores-de-um-top-10. Talvez 5 ou 6, vá lá, mas o restante são apenas bons filmes, em que há outros 4 ou 5 que estão ali, no mesmo nível. Desse critério tão subjetivo (e maluco) que é classificar filmes. Conversando com meu amigo Superoito, realmente não parece haver sentido nessa lista, afinal, o circuito brasileiro vive atrasado. Se a oferta em quantidade tem crescido, ainda assim a quantidade de salas “alternativas” são tão restritas, que os filme permanecem nas prateleiras das distribuições, esperando melhor momento de estrear, muitas vezes perdendo seu “momento”.

Os cinéfilos que realmente acompanham a cena internacional de cinema, o que está sendo filmado, as novas tendências, novos limites que os cineastas quebram. Estes cinéfilos buscam os filmes por outras plataformas, de outras maneiras que não exclusivamente o circuito. Nesse ponto, os festivais tem ajudado muito, não só o Indie, Festival do Rio, e Mostra SP, como outros festivais menores, tem trazido grande parte da produção atualizada, cobrindo parte expressiva dessa produção. O resto chega através de outros formatos, viagens, Netflix, internet e etc. Estamos quase em 2015, hora de mudança.

Portanto, trabalhar numa lista de melhores, tendo o circuito comercial como critério, me parece abster-se do cinema que o próprio cinéfilo acompanha, discute, vive. Não, não vou esconder meus 10 preferidos, vou apenas deixá-los no final, apenas como referência, afinal eles serão meus votos para o Alfred da Liga dos Blogues Cinematográficos.

A lista mais importante é a que vem logo a seguir (comentada), são filmes que foram vistos em 2014, com produção de até 2 anos (que finalmente foram vistos, ou ficaram acessíveis). Eles formatam melhor o panorama do ano do cinema, os principais festivais, o que a imprensa especializada ou os grupos de cinéfilos discutiram, veneraram, xingaram, amaram. Há ausências, como toda lista, afinal, ela é subjetiva. Alguns filmes não foram vistos (a Godard a mais sentida, mais a versão em 3D precisa ser vista em tela grande), outros não agradaram tanto, mas ela indica caminhos, preferências, e, acima de tudo, é coerente com esse cinema atual.

O Top 10

doquevemantes

  1. Do que Vem Antes, de Lav Diaz
  2. A Imagem que Falta, de Rithy Panh
  3. A Princesa da França, de Matias Piñeiro
  4. Redemption, de Miguel Gomes
  5. Era Uma Vez em Nova York, de James Gray
  6. E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto
  7. O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takahata
  8. A Pele de Vênus, de Roman Polanski
  9. Acima das Nuvens, de Olivier Assayas
  10. Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan / Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Olhando para essa pequena amostragem percebo que é uma lista heterogênea, grande parte dela da seleção dos dois últimos festivais de Cannes. Quase todos diretores consagrados, que apontam para dois caminhos: filmes grandiosos em temas e pretensões; ou pequeninos na pretensão, porém grandes na arte de filmar. São dois lados de uma mesma moeda, cineastas que enxergam suas próprias carreiras e tentam escapar dos caminhos fáceis do piloto automático.

Alguns destes filmes tem o aspecto moral como excelência, o perturbado conto de Ceylan ganhou a Palma de Ouro. O dos Irmãos Dardenne traz um melodrama nunca antes visto na carreira dos belgas. São filmes antagônicos na forma, ligados por essa questão da vida em sociedade, dos princípios. James Gray continua com poucos e fiéis fãs. Ele até flerta com o melodrama, mas seu estilo sofisticado deixa tudo tão chamuscado e charmoso que esse melodrama fica chique entre tão belos planos.

Há o lado teatral forte, é o segundo trabalho seguido de Polanski que remete ao teatro filmado, dois de seus melhores filmes em anos. O argentino Matias Piñeiro surge como uma descoberta, tardia deste blog, com uma construção irrepreensível, uma espécie de poesia teatral filmada. Assayas mergulha em seus filmes anteriores, e em Bergman, trilha novo caminho via metalinguagem.

De Portugal duas pérolas, o documentário autobiográfico de Joaquim Pinto e as biografias escondidas por Miguel Gomes num curta sobre doces fluxos de memórias. O cinema português segue produzindo pouco, mas muito bem. O japonês Isao Takahata promete ter entregue seu último trabalho, e o resultado é um primor ao refletir as tradições culturais orientais com leveza e sofisticação.

No topo da lista Pahn e Diaz, os dois revivendo cicatrizes dolorosas de seus países. Seja pelos bonecos do Cambodja, ou pelas florestas filipinas, os horrores das ditaduras sem que a violência precise ser exposta. Seus filmes são registros hipnóticos de um cinema rigoroso, que usa da simplicidade para aproximar-se de seus próprios personagens, e do virtuosismo de seus diretores para cativar os que enxergam novos rumos para o cinema. A conjunção exata entre fazer arte e contar histórias.

No Letterboxd deixo a lista mais completa com meus 25 filmes favoritos do ano.

O Top 10 do Circuito Comercial

  1. A Imagem de Falta, de Rithy Pahn
  2. Era uma Vez em Nova York, de James Gray
  3. Cães Errantes, de Tsai Ming-Liang
  4. Bem-Vindo a Nova York, de Abel Ferrara
  5. Mais um Ano, de Mike Leigh
  6. Amar, Beber e Cantar, de Alain Resnais
  7. Boyhood – Da Infância à Juventude, de Richard Linklater
  8. Vic + Flo Viram um Urso, de Denis Côté
  9. O Abutre, de Dan Gilroy
  10. O Ciúme, de Phillipe Garrel

aimigranteThe Immigrant (2013 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

A crítica está maravilhada. Na web, mundo à fora, os elogios são intermináveis. Depois de ter concorrido em Cannes 2013, o filme acabou guardado, ficou de fora da corrida do Oscar (Gray não é da turma que é indicada ao prêmio, mas está sempre presente em Cannes), e está sendo lançado agora, em muitos países. Em breve nos cinemas brasileiros.

A fuga é um tema recorrente no cinema de James Gray, normalmente a abordagem está focada no que/onde se tenta fugir. Os conflitos estão na origem, pouco importa o destino. Em seu quinto filme, Gray muda um pouco a ordem das coisas, Ewa (Marion Cotillard) foge das guerras do início do século passado na Europa. Busca nos EUA um local seguro, onde possa prosperar, como seus tios que lá estão. O filme todo ocorre no destino, no novo mundo, no local que carregava esperança até sua chegada.

Nada acontece como nos sonhos, Ewa acaba nas garras de um cafetão, Bruno (Joaquin Phoenix), a quem ela desenvolve uma estranha afeição, enquanto ele uma paixão inesperada. Pela elegância da condução de Gray mergulhamos pela Nova York underground, dos cabarés e da prostituição, com requinte, mesmo que para todos os bolsos. Gray não está denuncinado o tratamento pouco hispitaleiro dos americanos, não, longe disso. Seu filme é sobre o local da fuga, é sobre a esperança corrompida, a determinação de prosperar, de recuperar a irmã, do amor posto ao segundo, talvez, terceiro plano.

O mágico Emil (Jeremy Renner) é outro sinal de esperança, outra promessa envolta a interesses amorosos. Nasce um triângulo amoroso de amores que não se perpetuam. São imperfeitos, irregulares, tomados pela equação coração x razão. A querida imigrante polonesa passa apuros, abusos, Gray é sempre comedido em seus dramas, por mais pesados que possam ser. A passividade é bela, a maturidade soberana, e a beleza da discussão final é algo além do exemplar.

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Neste sábado foram apresentados os últimos filmes em competição e também os premiados na mostra Un Certain Regard. Agora é só aguardar amanha a premição e conhecer quem será o vencedor da Palma de Ouro (acompanharei no twitter, provavelmente). O favoritismo é todo para o franco-tunisiano Abdellatif Kechiche (que ganhou o premio FIPRESCI hoje). O Juri Ecumenico premiou The Past, do iraniano Asghar Farhadi.

Premiados Un Certain Regard:

Filme: L’Image Manquante, de Rithy Panh

Premio do Juri: Omar, de Hany Anu-Assad

Direção: Alain Guiraudie, por L’inconnu du Lac

Interpretação: elenco de La Jaula de Oro, de Diego Queimada-Díez

Future Award: Fruitvale Station, de Ryan Coogler

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THE IMMIGRANT

????????????Não foi aquela ovação, mas o filme de James Gray agradou boa parte dos jornalistas. Marion Cotillard interpreta uma imigrante chegando aos EUA na década de 20, fugindo da Europa da Primeira Guerra Mundial e encontra um Joaquin Phoenix que “agencia” prostitutas, mas acaba se apaixonando por ela. 

Críticas: Little White Lies –Twitch Film – UOL Cinema

Termômetro: quero ver

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ONLY LOVERS LEFT ALIVE

onlyloversleftJim Jarmusch está de volta, dessa vez contando a historia de vampiros, ex-amantes, que não se encontravam a mais de sessenta anos. E revivem histórias, antigos vampiros célebres, uma nostalgia vampiresca. Tilda Swinton e Tom Hiddleston são os vampiros entre a melancolia e humor, critica gostou com moderação.

Críticas: The Guardian –UOL Cinema – Cine-Vue

Termômetro: de olho

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LA VENUS A LA FOURRURE

venus-in-furRoman Polanski traz novamente o teatro ao cinema, e dessa vez não precisou mais do que dois atores, um diretor de teatro realizando testes para a protagonista de sua nova peça. São eles Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric, e um roteiro sobre insinuações sexuais e o poder da dominação.

Críticas: UOL Cinema –The Guardian – Otros Cines

Termômetro: de olho

We Own the Night (2007 – EUA)

James Gray tem algo diferente no trato da imagem, ou melhor, na forma como ele a explora, é algo vouyer dentro de um estilo próprio, talvez nos traga a sensação de estarmos manejando a câmera, ao invés de apenas observando. Essa sensação vem desde a primeira cena quando o gerente da boate El Caribe, Bobby Green (Joaquin Phoenix) encontra sua sexy namorada Amada (Eva Mendes) masturbando-se num sofá e ele assume carinhosamente a situação até ser obrigado a parar com a diversão (ossos do ofício). O roteiro, bem amarrado, não guarda surpresas, reviravoltas, há nele o peso familiar, o comportamento revoltado do “ovelha-negra”, mas há a ligação fraterna.

Bobby mantém distancia do irmão (Mark Wahlberg) e pai (Robert Duvall) policiais, enquanto vive da noite nova-iorquina e da proximidade com o trafico de drogas capitaneado por gangsteres russos até que seus familiares correm risco e ele é obrigado a optar por um dos dois lados. A seqüência avassaladora de perseguição de carros na chuva (em emoção e sentimentos) é apenas outro grande momento onde Gray demonstra todo o peso de sua mão condutora, mas sua força onipresente é mais forte nos pequenos momentos, na angustia de Bobby e Amada, na cena com a escuta no isqueiro, na solidão que o até então “dono da noite” divide num hotel às escondidas. De forma clássica, por mais que peque em alguns excessos como o sermão dos policiais na igreja (moral e religião elevadas), Gray resgata o gênero policial esquivando-se de tortuosas cenas de ação para privilegiar a justiça do homem, a lealdade de suas convicções, como nos velhos westerns.

Caminho Sem Volta

Publicado: maio 6, 2011 em Uncategorized
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The Yards (2000 – EUA)

Uma festa de recepção a Leo (Mark Wahlberg), amigos e familiares aguardam seu retorno após algum tempo de reclusão. James Gray não está interessado num drama abordando a recuperação de um caráter corrompido, as histórias ou fatos daquele passado pouco importam (aliás, relevante no passado só a relação com a prima e com seu melhor amigo, que agora vivem um romance). O cineasta está ali para discutir os limites da amizade, até que ponto prejudicar-se, ou corromper uma relação por interesses próprios. Os dois amigos caem numa enrascada, tudo por culpa do caminho fácil, lealdade e pressão são fatores antagônicos. E Gray viaja por essa estrada, sempre com seu estilo sólido de filmar, de tratar a imagem, sua linguagem simples e sofisticada, em prol de uma história com nuances exageradamente dramáticas e o mundo da corrupção com presença maciça.