Posts com Tag ‘Jamie Foxx’

Baby Driver (2017 – EUA) 

Nos fones de ouvido, que não tira em nenhum momento, música pop para disfarçar o zunido intermitente (resultado de um acidente quando ainda era criança). Baby (Ansel Elgort) é o ás ao volante, com feições de anjinho, que espera para acelerar com seu arrojo e habilidade, após mais um assalto da quadrilha liderada por Doc (Kevin Spacey). Sua figura de bom moço, que cuida do pai adotivo debilitado, e se apaixona pela garçonete da lanchonete de beira de estrada, não parece se encaixar com a de tímido, e fechado, motorista de fuga de assaltos espetaculares.

A trama irá cuidar de explicar esses detalhes, enquanto o romance e as sequencias de ação alucinantes, sempre acompanhadas de música pop antiga, deixam alucinados grande parte do público. Ação, comédia e romance, não é de hoje que o britânico Edgar Wright vem se destacando por um estilo próprio de cinema, mas sempre acabava preso a um público restrito, praticamente um nicho dentro da cinefilia geek. Seu humor,a edição acelerada, e um quê de super-herói nerd, que encontrou em Scott Pilgrim Contra o Mundo, praticamente, a tradução do êxtase, entre super-poderes, muito videogame e romance – e aquele filme realmente é uma delícia.

O que temos dessa vez é um Edgar Wright para um público mais amplo, filmando nos EUA. E não decepciona, e talvez até entregue o seu melhor filme. O impressionante é como ele não traiu suas origens, e conseguiu implementar outras características que deixaram seu filme: mais pop, mais frenético, porque não mais família? E também mais caricato, é verdade, mas, acima de tudo, mais visível (já é o seu maior sucesso de bilheteria). Consegue ser o Velozes e Furiosos que alguns (eu) gostariam de ver, mas nunca encontraram essa leveza pop, essa descontração moderna. Wright nos entrega planos-sequencias de triar o fôlego, enquanto a trilha sonora vital, e vibrante, mistura essa energia com um swing que dificilmente não te deixe o sabor de querer revê-lo em breve.

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miamiviceMiami Vice (2006 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Confesso que na época do lançamento, por total falta de desconhecimento da carreira de Michael Mann, boicotei categoricamente o filme. Era a fase de um tsunami de seriados dos anos 80 voltando ao cinema, uma adaptação mais caça-níquel que a outra. Mas o caso era diferente, aliás, bem diferente. Só os passos finais da maratona, com os filmes de Mann, para contextualizar melhor o filme, a filmografia, e os novos rumos tomados.

Mann entrou o novo século inspirando nova fase, com Ali (biografia do boxeador Muhammed Ali) o cineasta dava sinais de preferir retratar mais o biografado, e menos sua história. A narrativa é fragmentada, como se fossem pequenos conjuntos de cenas, cada uma de uma época, não necessariamente preocupadas em contextualizar o público de tudo. Se fazia, muito mais, de trazer o público para sentir Ali. Em Colateral, ele retoma o filme policial, a noite prateadas, o ritmo suntuoso, cadenciado. Muito charme.

O seriado oitentista era obra sua, não é a primeira vez que Mann revisita sua carreira (o próprio refilmou seu telefilme L.A. Takedown, se tornando o sensacional Fogo Contra Fogo), e unificando características de seus dois filmes anteriores, Mann reinventa as possibilidades do gênero. Há os policiais (Colin Farrel e Jamie Foxx), os traficantes (Luis Tosar), as armas e perseguições, o plot que daria um típico episódio do seriado, e a mulher sensual (Gong Li) que um dos protagonistas irá se apaixonar (Farrel). Mesmo com todas essas características, o filme em nada se parece com um thriller policial. A suave desconexão, os enquadramentos oblíquos, diálogos suprimidos pelo entrosamento.

É um filme hipnótico, a noite volta a ser protagonista, e as imagens noturnas panorâmicas que jamais se viu em tamanha beleza. A lancha, os olhares, eles flutuam pelos fotogramas, causando essa hipnose de charme. O roteiro já não é tão importante, o detalhismo de Michael Mann descobre outras formas de explorar suas obsessões. Os corpos não são filmados com a fluidez e leveza de Kar-Wai, mas com uma brutalidade genuína, em planos nem tão fechados, ainda assim invasores.  Mann olha para seus trabalhos passados e quer fazer melhor, é um perfeccionista, mas, acima de tudo, um cineasta que segue desbravando trilhas inexploradas, dando a seus filmes charme próprio.

espetacular-homem-aranha2The Amazing Spider-Man 2 (2014 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Sam Raimi foi errar a mão no terceiro filme, e foi o bastante para o estúdio decidir recomeçar a franquia do zero. Marc Webb só precisou de dois filmes para estragar tudo, essa rapidez deve ser uma façanha. Exagero é a tônica desse segundo capítulo, a começar peloa duração e a quantidade de vilões com super-poderes, não há espaço o bastante para os três e ainda contar a história da vida particular de Peter Parker (Andrew Garfield).

O homem-aranha vive o dilema da promessa, feita ao pai da moça que ama, de que iria se afastar dela, Gwen (Emma Stone). Enquanto isso reencontra o velho amigo Harry Osborn (Dane DeHaan), e ainda enfrenta Electro (Jamie Foxx) e Rino (Paul Giamatti). O peso da culpa versus o amor flamejante é a parte mais promissora da história, por mais que as visões do “sogro” sejam bem didáticas. Parker ganha dinheiro com fotos do Homem-Aranha, mas isso só ganha menção, enquanto a crise do relacionamento se intensifica, alguns vilões surgem para animar Nova York e a vida do aracnídeo protetor da cidade. Essa grandiosidade (chega a lembrar o Batman de Nolan) não combina com esse jeito moleque e atrapalhado de Parker, o humor também não chega aos pés do Homem de Ferro, e o filme fica perdido nessa adolescência tardia.

djangolivreDjango Unchained (2012 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A tentativa de Quentin Tarantino em resgatar o western spaghetti, prova que mesmo o gênero feito mal e porcamente, não é para qualquer um. O insucesso é todo de Tarantino, sua presença maior do que seus próprios filmes, ganha aqui contornos de exagero, de quem passa a linha. Primeiro porque a presença de Bastardos Inglórios é tão forte, que Django é praticamente  o mesmo filme, tamanha a quantidade de recortes, cópia de cenas e personagens. O cumulo da preguiça, Tarantino refilma mudando atores e figurinos.

Depois porque é muito possível imaginar um filme sem Django (Jamie Foxx), tão apagada é a figura daquele que deveria ser o personagem central. O filme poderia muito bem ser encerrado no embate entre Christopher Waltz e Leonardo DiCaprio, do que dar voo solo ao Django que passou duas horas como coadjuvante. As forças de Tarantino parecem fraquezas, diálogos tolos, inventividade trocado pelo repetitivo, aquela fonte ambulante de inspiração vivendo de reciclar seu próprio cinema. Alemanha Nazista, EUA escravagista, poderia levar sua saga de vingaça atéo Butão, fazer o mesmo filme é enganar o público, Tarantino faz muito melhor.

colateralCollateral (2004 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Tom Cruise, e seu visual prateado, bastante futurista, combina, perfeitamente, com o estilo despojado de Michael Mann. As cenas noturnas são um deslumbre, a fotografia leva o filme a um patamar além dos thrillers policiais, afinal este é um filme de Michael Mann e o estilo vai à frente do simples cinema de ação. Tudo é ousado, desde os enquadramentos, até tem a sensação constante de suntuoso, como se a noite fosse determinante nos comportamentos, principalmente do assassino profissional (Cruise) com a missão de eliminar cinco alvos, naquela fatídica noite.

A trama é simples, o assassino profissional não pode perder tempo, por isso reserva a noite toda de um taxista (Jamie Foxx). A complicação vem no primeiro assassinato, cuja vítima cai pela janela, bem em cima do táxi, e o que era um acordo vantajoso entre os dois torna-se um seqüestro. Vincente é de uma frieza calculista, seu assassino é compenetrado e observador, quase um psiquiatra no banco de trás.

Os planos fechados buscam as consistentes interpretações, os diálogos tramados dentro do táxi fogem do trivial, como se cada um tentasse desvendar o rival. A edição eficiente tem muito do segredo de sucesso em Colateral, mas é a fotografia o grande diferencial arrebatador. O taxista de Jamie Foxx é clichê dos pés à cabeça, não por culpa do ator, do que lhe foi oferecido, ele faz maravilhas. Traz sensações na medida certa, sejam elas insegurança, medo, pavor, fúria, timidez. Ao final, nos resta a discussão entre Vincent e Max, quando Max percebe estar mentindo a si mesmo assim, como muitos de nós fazemos, acreditando que estamos nos preparando para realizar sonhos quando apenas nos ludibriamos com a possibilidade de realizá-los.

rayRay (2004 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A câmera foca o piano, enquanto os dedos negros agitam a platéia num ritmo contagiante. De repente, a câmera se afasta, o plano se abre, percebemos que víamos aquele piano pelo reflexo dos óculos escuros. É com essa criatividade estupenda que o diretor Taylor Hackford abre a biografia de um dos reis da música. O próprio Ray Charles participou do processo de criação do filme, mas faleceu antes da finalização, e não pôde saborear a homenagem em vida.

Intercalando as ações entre a era adulta, e a fase sofrida quando criança, o filme remonta os principais momentos da vida deste batalhador, que soube superar a deficiência visual (proveniente de um glaucoma aos seis anos) e chegar ao estrelato. Aparentemente, a cinebiografia não poupou os assuntos mais escabrosos da vida de Ray (Jamie Foxx), entre a morte acidental do irmão caçula, a infidelidade conjugal e o vício de drogas, outros momentos pouco brilhantes da vida do cantor são partes presentes na obra.

A figura da mãe forte em sua vida, com ela o garoto aprendeu lições importantes que o homem adulto soube absorver astutamente. Se algumas frases feitas podem parecer clichê, a vibrante atuação de Sharon Warren dá dimensão da garra presente nessa mulher. Nem sempre Ray foi o gênio que todos conhecemos, durante muito tempo foi apontado como imitador e demorou muitíssimo para dar conta de sua influência e assim utilizá-la contra o racismo.

Se há problemas no filme, o crucial talvez seja a abordagem adotada por Taylor Hackford. Todos os fatos são demonstrados pela visão de Ray, a câmera quase se torna os olhos do cantor, por onde o público pode acompanhar o desenrolar de sua vida. Desse modo fica impossível, em algumas passagens, saber da veracidade concreta dos fatos, restando o julgamento do próprio Ray como verdade irrefutável.

Jamie Foxx é a própria personificação de Ray. O ator está explosivamente cheio de vida, copia trejeitos, busca uma caracterização séria de um cego, Foxx é a alma e o corpo do filme. Poderia ele ousar um pouco no mais no personagem, talvez, preferiu não correr o risco de descaracterizar o mito, seguiu a cartilha e fez um dos trabalhos mais elogiados dos últimos anos. Diferentemente do início magistral, Hackford exagera na duração e minimiza demais alguns pontos, o filme termina arrastado e esteticamente enquadrado no selo Hollywood.