Posts com Tag ‘Javier Bardem’

Todos Lo Saben (2018 – ESP)

Do glamour em ser o filme de abertura do Festival de Cannes ao esquecimento, inclusive no próprio festival, afinal, o iraniano Asghar Farhadi tão premiado e passou 2018 com seu filme nada lembrado. Agora que começou a ser lançado em alguns países, e é fácil notar esse ostracismo.

O estilo de diálogos e dramas familiares de Farhadi está lá,como sempre, mas falta sangue latino para esse enredo, e principalmente aos personagens. Na trama, um casamento marcando reencontros, uma tragédia “exasperante”, segredos do passado, e plot twists, que ajudariam a envolver o publico. Sem doses de melodrama, mas com personagens e diálogos apáticos, o filme trafega por surpresas telegrafadas e só se equilibra mesmo pelo dilema moral do personagem de Javier Bardem. O resto é tudo no piloto-automático, muito aquém da vividez que Farhadi já mostrou quando tratava de questões bem mais próximas a culturas que ele conhece bem.

Anúncios

Mother! (2017 – EUA) 

Entre vaias e aplausos que foi recebido o novo thriller psicológico dirigido por Darren Aronofsky durante a competição do Festival de Veneza. Mais ousado e pretensioso do que nunca (lembrem-se que ele dirigiu Noé e Fonte da Vida), o cineasta nova-iorquino provoca o público na estética, e principalmente na forma de síntese com que aglutina todas as mazelas do mundo.

Os posters e trailers já ofereciam a estranha sensação visual, algo entre o religioso brega e o dark misterioso, além da artificialidade gritante. E o filme não nega as aparências, repleto de planos-sequencias circulares e insanos, e a atmosfera da presença de um mal sobrenatural naquele lar, o casal começa a receber visitantes (sem convidá-los) e a hospitalidade do marido (Javier Bardem) assusta a passiva esposa (Jennifer Lawrence). Entre o medo e a insegurança e o ar acolhedor do poeta em bloqueio criativo, que o filme constrói arcos dramáticos que sempre colocam-na como a figura frágil e perturbada frente uma normalidade que não existe.

Mais adiante na história, desses arcos dramáticos surgem sequencias ainda mais insanas em que Aronofsky tenta refletir sua visão sobre nossa sociedade tão violenta e desumana. Nada de metáforas, é tudo explícito e visual, exagerado e acelerado. A cada novo horror, o filme faz referências a dramas pessoais ou universais como: crime, guerra, religião, maternidade, dor. Interpretações over, conceitos didáticos, Aronofsky não consegue dar cabo de nem metade de todos os conceitos que pretendia, e sua pretensão realmente incomoda muita gente. Por outro lado, sua ousadia em colocar tudo isso num filme de estúdio, com os grandes astros de Hollywood, vem de encontro com as pretensões que sempre estiverem fortemente claras em sua filmografia.

tothewonderTo the Wonder (2012– EUA) 

Se o filme anterior de Terrence Malick recebeu muitas críticas, principalmente de seus fãs mais fervorosos, é de esperar a estranheza que virá com esse novo passo, dentro do caminho que Malick está trilhando em sua carreira. A proposta narrativa diferente veio para ficar, o cineasta busca o sensorial, ao invés do puro e simples “contar uma história”. Indo além nessa linha, seu filme é todo compostos de diálogos raros, substituidos por reflexões dos personagens que funcionam como instrumento duplo: pontuar o público e expressar os sentimentos, como se pudêssemos ler pensamentos.

A história narra um amor (Ben Affleck e Olga Kyrylenko) que surgiu na França. O namoro à distancia, as dificuldades da vida à dois, separação, paixão (no romance com Rachel McAdams). Por meio de fragmentos, Malick propõe o jogo da intimidade. Filma mãos, corpos, cabelos contra o vento, momentos vagos entre quartos e janelas. Há outra forma de amor abordada, como o padre (Javier Bardem) em dúvidas em sua fé. Malick se converteu a estudar o amor, mas busca formas de trancá-lo numa garrafa e gravar em imagens. Nessa linha tênue entre o lírico e o abstrato, seus riscos de erro são grandes, e dessa vez fatais.

Skyfall (2012 – ING/EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Cinquenta anos de James Bond. Incrível como a franquia está mais rejuvenescida do que nunca. Desde que Daniel Craig assumiu o personagem, com seu estilo mais rústico e ofensivo, frente ao charme de Pierce Brosnan, os filmes do agente secreto britânico restauraram o patamar de representativa frente ao público. Dessa vez é Sam Mendes quem assume a direção, e ele não traz apenas sequencias de ação competentes e alucinantes. É claro, sem esquecer dos famosos absurdos da verossimilhança. Entra em cena temas como ressurreição, nacionalismo e o eterno “cumprir o dever”.

Porém, acima de tudo isso, há uma interessante discussão entre novo x velho, experiência x moderno. E o manto protetor dessa rivalidades oferecem a Sam Mendes possibilidades de explorar trama e personagens além do comum, As Bond Girls ficam meio de lado, frente a tantos socos e pontapés. O vilão de Javier Bardem engole todos quando está em cena, sua presença é marcante, quase visceral. E a discussão sucitada, entre novidade e o consagrado, vai parar nos personagens, e numa oxigenação que deverá refletir nos novos filmes.

 

Before Night Falls (2000 – EUA)

Biografia do poeta cubano Reynaldo Arenas (Javier Bardem) perseguido cruelmente pelo regime de Fidel Castro. Não podia ser diferente, o filme de Julian Schnabel é duro, Arenas lutou arduamente para não ser preso, para fugir de Cuba, para publicar suas obras, para viver sua opção sexual e só encontrou violência, preconceito, negação, repreensão, tanto no âmbito familiar como no regime do governo militar. Muita câmera na mão, grande preocupação num retrato mais documental, a vida de Arenas corta as décadas mais ativas do comunismo cubano, garotos na praia roubam suas coisas e ele ainda é acusado de tentativa de abuso sexual. Um país onde quem não está dentro da cartilha deve ser retirado de circulação e Arenas, definitivamente, não seguia nenhuma das cartilhas ditadas por Fidel. Nessa Cuba empolvorosa dos anos 50, 60, 70, a trajetória de Arenas é retrato marcante da vida cubana e das possibilidades limitadas dos intelectuais de se expressarem livremente, acima de tudo, e mesmo com sua estrutura clássica, é um filme sobre a luta pela liberdade de expressão.

Biutiful (2010 – MEX/ESP)
 
Alejandro González Iñarritú (Babel / Amores Brutos) finalmente lança seu longa-metragem sem roteiro de Guillermo Arriaga, e sem a gasta fórmula de três histórias que se entrecruzam, tendo como elo um acidente. Mas a mudança não foi tão radical assim, Uxbal (Javier Bardem) carrega todo mundo em suas costas e parece ele ser o acidente a conectar outros dramas. Cada fotograma dessa história é carregado de dor, de sofrimento, não há nada que não seja cinza, turvo, tumultuado (nem os momentos das crianças, nem as loucuras da esposa, muito menos a relação com o irmão, e pior ainda a vida dos imigrantes chineses).

Sem dúvidas, não há beleza nessa história, é o fim da linha de um homem que não poderia se despedir do mundo, e seu corpo definha, e suas relações pessoais seguem no mesmo ritmo, como se o corpo fosse reflexo do estilo de vida que ele se propôs a viver numa Barcelona imunda visualmente, triste, depressiva. A questão da pirataria é secundária, ainda assim relevante e de longe o grande destaque da história, tratada de forma crua e dura, pode nos tirar o folego pela veracidade. Por outro lado o drama cansa de tão pesado, não seriam tragédias e mais tragédias, e sim esse fim anunciado que vai chegando pacatamente e Iñarritú não nos permite nenhum fio de esperança.

desaltoaltoTacones Lejanos (1991 – ESP) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Após quinze anos distantes, mãe (Marisa Paredes) e filha (Victoria Abril) reencontram-se em Madri. Rebecca escondeu do marido que é filha de sua ex-amante (uma filha que se casa com o ex-amante da mãe, isso não pode acabar bem), e agora há tensão para o reencontro de Becky e Manuel. Um mês após o encontro, ele é encontrado morto num chalé. O casamento estava em crise, mantinha uma amante, e voltara a viver seu caso com sua atual sogra. Suspeitas para o crime não faltam.

O comportamento da filha demonstra a necessidade secreta de competir com a mãe, de ser igual a ela, mais precisamente, de ser melhor que ela, de ter o que a mãe tem. Acrescente a isso os ingredientes de um filme de Pedro Almodóvar, e, portanto,  travestis, o vermelho berrante, viciados e traficantes, bizarrices, o mundo das artes (cinema, teatro e música). Enquanto prosseguem as investigações, a relação mãe e filha é intensa, os sentimentos afloram, verdades chegam à tona.

Diria que é um Almodóvar pouco inspirado, se a trama rocambolesca funcionava eficazmente em Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, aqui o artifício incomoda, só faz a trama patinar. A figura dupla do juiz Dominguez é dura de engolir, talvez pela interpretação no pior estilo canastrão, talvez pelo absurdo de sua existência. O que mais segura o filme é o estilo próprio de Almodóvar, e a figura fatal, doce e nebulosa de Victoria Abril. Seu cabelo Chanel, seu ar sexy sob o salto alto, e seu estilo decidido, criam uma personagem enigmática, frágil e saborosamente intrigante.