Posts com Tag ‘Javier Bardem’

carnetremulaCarne Trémula (1997 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Nova cara, nova fase de Pedro Almodóvar. O primeiro de seus filmes que prima pela sensibilidade, uma grande guinada em sua carreira. O roteiro continua arquitetado milimetricamente, repleto de ramificações, mas a comédia dá lugar ao drama, ou melhor, ao melodrama. Interessante como Almodóvar inverte mocinhos e vilões, desmascara  personagens, e ainda assim trabalha, sutilmente, temas tabus, como inserção de ex-detentos à sociedade, ou a vida ativa de deficientes físicos. A grande gama de temas apenas enriquece o que realmente o cineasta quer tratar, o amor em algumas de suas facetas.

A Madri da década de setenta é oportunidade para Almodóvar recordar ao mundo a época em que a Espanha vivia sob rígida ditadura, direitos de liberdade cerceados, medo, tensão. Tudo começa com a prostituta que dá a luz dentro do um ônibus, mas a história se desenrola vinte anos a seguir. Com Victor (Liberto Rabal), o filho, que se apaixona por uma desconhecida (Francesca Neri), com quem transou num banheiro. Corre atrás de sua amada, ultrapassa limites. A confusão acaba com presença de policiais, um tiro acidental. O resultado é de um preso, um deficiente físico (Javier Bardem), e outro com casamento em crise (José Sancho). Esses são os homens da trama. Adicione ainda a esposa infeliz (Angelina Molina), e os anos de pena cumprida, e coloque todos os personagens num cemitério.

A trama não poderia ser mais rocambolesca, adaptação do livro de Ruth Rendell. Almodóvar trata da obsessão compulsiva, o preso apaixonado é liberado e volta a correr atrás de seu obsessivo sentimento. Os destinos de 5 personagens se entrecruzam entre o rocambolesco e a delicada sensibilidade. A belíssima cena em que dois corpos nus, deitados lado a lado, encaixam-se perfeitamente, demonstrando a perfeição do corpo humano, e um alto grau de envolvimento físico, funciona com efeito plástico fabuloso. Mas há outros momentos dramáticos, que pela delicadeza, e importância, podem se tornar até mais belos. Exemplo disso é a cena seguinte, quando Elena (Francesca Neri) sente o cheiro do suor que está impregnado em seu corpo, após a longa noite de amor. Do martírio à redenção, dos exageros ao melodrama piegas, Almodóvar entrega uma saborosa novela latina de emoções fortes.

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colateralCollateral (2004 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Tom Cruise, e seu visual prateado, bastante futurista, combina, perfeitamente, com o estilo despojado de Michael Mann. As cenas noturnas são um deslumbre, a fotografia leva o filme a um patamar além dos thrillers policiais, afinal este é um filme de Michael Mann e o estilo vai à frente do simples cinema de ação. Tudo é ousado, desde os enquadramentos, até tem a sensação constante de suntuoso, como se a noite fosse determinante nos comportamentos, principalmente do assassino profissional (Cruise) com a missão de eliminar cinco alvos, naquela fatídica noite.

A trama é simples, o assassino profissional não pode perder tempo, por isso reserva a noite toda de um taxista (Jamie Foxx). A complicação vem no primeiro assassinato, cuja vítima cai pela janela, bem em cima do táxi, e o que era um acordo vantajoso entre os dois torna-se um seqüestro. Vincente é de uma frieza calculista, seu assassino é compenetrado e observador, quase um psiquiatra no banco de trás.

Os planos fechados buscam as consistentes interpretações, os diálogos tramados dentro do táxi fogem do trivial, como se cada um tentasse desvendar o rival. A edição eficiente tem muito do segredo de sucesso em Colateral, mas é a fotografia o grande diferencial arrebatador. O taxista de Jamie Foxx é clichê dos pés à cabeça, não por culpa do ator, do que lhe foi oferecido, ele faz maravilhas. Traz sensações na medida certa, sejam elas insegurança, medo, pavor, fúria, timidez. Ao final, nos resta a discussão entre Vincent e Max, quando Max percebe estar mentindo a si mesmo assim, como muitos de nós fazemos, acreditando que estamos nos preparando para realizar sonhos quando apenas nos ludibriamos com a possibilidade de realizá-los.

maradentroMar Adentro (2004 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O aspecto que mais chama a atenção, na decisão de Ramón Sampedro (Javier Bardem), é a convicção. Em nenhum instante paira a dúvida sobre seu maior anseio. É compreensível, foram vinte e oito anos presos, numa cama, necessitando de auxílio de amigos e familiares para as mais simples atividades. Sentimento de estorvo. Ramón faz questão de deixar claro que não está julgando outros deficientes, mas ele não tem mais vontade de viver. Morrer com dignidade é seu lema, e o filme mostra a luta na justiça, para que sua morte seja feito dentro da lei, sem que alguém possa ser responsabilizado. Eutanásia, assunto delicado.

Para caminharmos pela vida do poeta, é inserida na história a advogada Julia (Belén Rueda), e por meio de suas perguntas, mergulhamos no passado e na melancólica vida de Ramón. Dificilmente a câmera de Alejandro Amenábar é estática, quando fora do quarto de Ramón. Essa sensação de movimento destoa, ainda mais, da impossibilidade de liberdade do personagem. A música pontua cada passagem melodramática, quase sufocando a voz dos personagens, seu exagero é eficaz e cansativo. Javier Bardem é intenso do início ao fim, sempre na medida certa, faz de sua atuação, a nobre razão de existir do filme. Pouco se tira quando ele não está em cena. Mas nesse pouco, há coisas de grande valor, como a surpreendente atuação de Mabel Rivera (como cunhada de Ramón). É dela a cena de maior emoção, sem pieguice, quando a pacata senhora estoura sobre o padre.

Os enlaces amorosos soam burlescos, dando um tom emotivo, e ainda mais desnecessário quando as discussões deveriam concentrar-se na eutanásia, e na situação familiar com todas essas circunstâncias. Fico imaginando a cabeça de alguém em situação parecida, quantas emoções e reflexões um filme como esse podem trazer, vibrações negativas ou alguma lição que traga ainda mais desejo de viver? No mais encerro com o pai constatando uma cruel realidade; pior do que ver um filho morrer é um filho que deseja morrer.