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La Llorona (2019 – GUA)

Cada mais condizente incorporar o gênero do horror a temas políticos. Não há terror maior do que os abusos políticos que afetam tanto a população, mas parecem menos graves do que um bandido com uma arma na mão. Recentemente, o cinema tem explorado bem esse inesperado casamento.

O cineasta guatemalteco Jayro Bustamante se aproveita da lenda da Llorona para resgatar os genocídios de militares nos anos 80 em seu país. Milhares de indígenas foram mortos, ditos revoltosos, quando estavam mesmo na região onde se podia explorar petróleo “atrapalhando” o desenvolvimento.

Trinta anos depois, o personagem fictício do general (claramente inspirado no general ditador Efraín Ríos Montt, que governou o país entre 82-82, após um golpe de estado), está sob julgamento desse genocídio e começa a ser assombrado pelo choro de uma mulher. O encontro do realismo fantástico com o homem senil e sob forte pressão psicológica (na porte de sua casa o povo protesta) está no filme, mas as figuras centrais são as mulheres daquela casa: a filha, a mãe, as empregadas, e como elas lidam com a situação, as descobertas e tudo mais. O novo filme de Bustamente não chega a me encantar no todo, mas é de uma força importante, e lidamente filmado em todos os aspectos daquela casa em efervescência particular. A esposa que defende o marido, a filha que questiona, as empregada que abandonam. A linha tênue entre o drama político e o terror paranormal parece ser reescrita aqui.

ixcanulIxcanul (2015 – GUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A mais inesperada surpresa do último Festival de Berlim. Há no filme uma versão do cinema índio-mande-in-exportação, que joga contra o trabalho do diretor Jayro Bustamante. Porém, seria injusto resumi-lo dessa forma. O cinema denúncia travestido de arthouse funciona perfeitamente, começando pelos inúmeros planos fechados, aquela imagem enorme, que torna pessoas e objetos tão grandes. Bustamante se aproveita do artifício e explora a convivência de seus personagens com a vegetação, aos pés do vulcão Ixcanul. Os temas são os mais variados, e costumeiros do cinema latino, de abuso de pobres, ou mulheres, a obsessão da imigração como única salvação.

Utlizando não-atores da comunidade indígena retratada, Bustamante expõe costumes locais, a sabedoria popular, enquanto apresenta a deterioração da comunidade na relação (cada vez mais presente) com costumes “urbanos”. A trama usa todos esses conceitos, e as riqueza de cores e tradições, para buscar na tragédia sua incontestável crítica social. Se não apela ao melodrama, usa dos clichês para dar seu toque especial no que o cinema já cansou de retratar.