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Um Jogo Brutal

Publicado: maio 7, 2021 em Cinema
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A Brutal Game (1983 – FRA)

Segundo longa da carreira de Brisseau chama atenção por ser tão limpido e simples na forma de narrar a história, mas de uma potente dualidade entre violência e afeto. De um lado a garota adolescente que sofre de paralisia nas pernas e é tao amarga com tudo e todos até descobrir a paixão, seu corpo, enfim amadurecer. Do outro lado, e principalmente está o pai, um biólogo renomado que desde a primeira cena descobrimos ser um serial killer. Longe de um thriller típico, o filme mostra essa relação conturbada, o pai que impõe limites à filha com métodos duros, enquanto nos perguntamos porque ele comete crimes com criança num misterioso jogo que o filme faz de tudo em escapar do suspense.

agarotadelugarnenhumLa Fille de Nulle Part (2012 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Uma jovem (Virgnie Legeay) apanhando na escadaria de um apartamento. Acaba socorrida por Michel (Jean-Claude Brisseau) que a acolhe em sua casa. Durante 30-40 minutos instigantes, a garota misteriosa e o escritor solitário tramam diálogos que, lentamente, desnudam um pouco de cada um deles. Enquanto a garota tenta preservar sua vida pessoal, seus detalhes, criando um ar misterioso e indepentedente, o apartamento já diz muito sobre aquele senhor. Livros e filmes espalhados por prateleiras, o silêncio de quem mora sozinho há décadas.

Essa presença jovial (quase um dom divino), oferece, não só a esperada quebra da rotina, como também uma dinâmica particular a Michel. Há nele um tensão, não sexual, algo mais afetuoso, como se a desconhecida pudesse, facilmente, preencher uma lacuna que ele camuflara até então. Brisseau deixa de lado o erotismo, trata diretamente de religião e de crenças espirituais, busca o encontro (e embate) de gerações via interesse intelectual.

Em dado momento, reencarnação surge como o grande tema. O amor que cruza séculos, as almas que se reencontram, obviamente que Brisseau trata de forma fria, verborrágica, jamais emocional. Na segunda metade o filme perde sua força, talvez pela obsessão de Michel, talvez pelas discussões filosóficas entre os dois que perderam o tom misterioso e flertam com o estilo de Rohmer, até o final caspicioso, meio insonso. A presença sobrenatural e o amor afetuoso, Brisseau muda o leme de seu navio, parte em busca de um lado espiritual, fala com a alma.

Choses Secrètes (2002 – FRA) 

Há detalhes muito interessantes no filme de Jean-Claude Brisseau, a começar pela mudança de foco que a trama toma depois de transcorrido seu primeiro terço. Aparentemente, teríamos um filme sobre duas mulheres testando seus desejos sexuais, buscando extrapolar limites sempre na ânsia pelo algo mais, pelo proibido, pelo estímulo máximo de sua libido. Brisseau faz desta fase uma breve introdução para algo que seria mais próximo a um clichê, porém nas mãos do cineasta francês, foge desse possível estigma.

Voltamos aos pontos interessantes, há o flerte com Shakespeare (e o seu Contos Proibidos do Marquês de Sade). Há também uma inegável proximidade com a pintura, aqueles quadros que remetem a corpos nus em evasivas câmaras de palácios, a beleza ofegante da mulher e do sexo, a falta de pudores. E para completar, a presença constante de música clássica empregada com muita elegância e requinte, Bach e principalmente Vivaldi.

Com esse conjunto, Brisseau desenvolve seus personagens, numa trama sobre o poder, e o autocontrole para exercer este poder. O sexo sempre está presente, como figura central na personificação do poder. Há aqueles que sabem usá-lo a seu favor, e aqueles manipuláveis. As duas jovens, Sandrine (Sabrina Seyvecou) e Nathalie (Coralie Revel), tramam descobrir a vítima ideal, o amante endinheirado que irá debruçar-se aos pés dessas mulheres. cheias de encantos, irresistíveis, insaciáveis. Encontram o executivo Delacroix (Roger Mirmont), e encontram também um rival, alguém que pode estar a altura de seus desejos e suas tentações, Christophe (Fabrice Deville). Dois homens, duas maneiras de encararem a vida e o sexo, dois comportamentos perante as mulheres.

Já na fase final, a personagem de Nathalie encontra-se perdida na trama, perdeu função, ela mais aborrece, quando surge, do que qualquer outra coisa. Brisseau que tão bem amarrou seu filme, e criou uma atmosfera envolvente e marcante, não conseguiu uma saída melhor para ela. Por outro lado, a maneira como Delacroix é subjugado funciona de maneira desconcertante, Roger Mirmont está espetacular demonstrando toda a desconstrução de um respeitável homem de família vivendo finalmente momentos de felicidade longe daquele engessado estilo de vida. Num telefonema para Sandrine, a câmera congelada em seu rost,o segurando o telefone, e a voz de Delacroix falando sobre seus sentimentos, sobre a situação. Da voz do ator surge o tom de desolação, sobriedade, sensatez, tristeza, se Sabrina Seyvecou não consegue nos emocionar ouvindo, Mirmont faz muito mais que isso só de ouvi-lo.