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Happy End (2017 – AUS) 

O novo retrato de Michael Haneke da sociedade europeia, através de uma família disfuncional burguesa, não apresenta nenhum avanço em sua filmografia. O título (um sacarmo sintomático para quem conhece sua obra) carrega a ironia básica que sempre ousou pela ousadia com que provoca o estômago do público. Dessa vez, cai no cansaço de uma fórmula de personagens problemáticos e provocações mordazes.

No centro uma garota que precisa passar um tempo com o pai, encontra uma famila que só permanece pelas aparenças. Haneke tenta se adaptar às novas tecnologias, há presença forte das redes sociais, tela na vertical para imitar um celular, e outras artimanhas. Mas, o problema do filme está mesmo nessas relações ácidas e no sabor, pretensamente amargo, com que Haneke tenta enxergar toda a sociedade europeia capitalista. Beirando quase a ingenuidade, Haneke está anos luz além de toda sua filmografia.


Festival: Cannes

Mostra: Competição Principal

amour_emmanuellerivaAmour (2012 – AUT/FRA)

Michael Haneke mostra o rigor de sempre, talvez mais conservador que seu normal, ainda mais meticuloso no tom de sua direção precisa e carregada. Por mais que uma história de amor, de um casal de terceira idade, toda narrada em tom de despedida, não pareça fazer parte do universo do diretor, o estilo de Haneke está impregnado em cada frame.

O casal inerpretado por Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, principalmente ele, dá show. Ela sofre um derrame, ele resume sua vida a cuidar da esposa, preenche todos os espaços, sufoca até a filha do casal (Isabelle Huppert). O filme narra a beleza da dedicação ao outro, as poucas cenas resumem o dia-a-dia de pequenas tarefas, sempre com a ausência total de emoção que é tão cara a Haneke. Sai o sentimentalismo, entra a beleza dessa dedicação desgastante, que nos cativa mesmo pela frieza do cinema de Haneke, que se não parece inspirado, consegue dialogar melhor com um público bem maior que o seu habitual.

afraternidadeevermelhaTrois Couleurs: Rouge (1994 – FRA/POL/SUI) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O projeto da trilogia surgiu em virtude do bicentenário da Revolução Francesa. A ideia simples, três filmes representando as tr6es cores da bandeira francesa, e o que representam cada uma daquelas cores (liberdade, igualdade e fraternidade). Foram filmados simultaneamente, e lançados em sequencia, nos 3 Grandes Festivais. A trilogia é encerrada com muita sutileza, naquele que muitos consideram o melhor de todos (eu prefiro A Liberdade é Azul)

O vermelho está espalhado por todos os lugares, não há aonde não encontrá-lo. A trama carrega muito do acaso, mas, além disso, de como as pessoas interferem na vida das outras, até mesmo involuntariamente. Conhecer uma pessoa, ou se relacionar mais profundamente com outra, abre um oceano de possibilidades, de mudanças na vida. Como se os destinos fosse sendo traçados a cada escolha.

Uma modelo (Irène Jacob) atropela uma cadela na rua. Sem saber o que fazer descobre, na coleira, o endereço do dono. Lá conhece um ex-juiz (Jean-Louis Trintignant) que vive espionando as conversas telefônicas de seus vizinhos. Aquela situação repugnante, de um homem ultrajante, que perdeu a vontade de viver, ao invés de causar repulsa, estranhamente transforma-se em amizade.

A relação que se estabelece muda profundamente a vida de ambos. O ex-juiz guarda algo de misterioso, e os encontros, pouco a pouco, transformam o comportamento deles, a influência é fatal. No final um encaixe com os dois filmes anteriores, faz da seqüência final um brilhante desfecho para a trilogia, e principalmente uma bela homenagem aos ideais da Revolução Francesa.

derepentenumdomingoVivement Dimanche! (1983 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O último filme de François Truffaut foi em cinema de gênero. Um típico romance policial com, algumas mortes, um suspeito em evidência, e alguém com espírito investigativo. Além, é claro de uma dose de romantismo, porque se ninguém é de ferro, Truffaut muito menos. Leve e com sugestivos pitacos de seu singular estilo, como na tara por belas pernas femininas. O cineasta as filma de salto alto e meia-fina, e sabe, como ninguém, buscar a sensualidade desse caminhar feminino. Torna esse marchar muito mais que sedutor, a leveza da imagem reconforta como se nos acariciasse o rosto. Num exímio exercício de estilo, Truffaut consegue a prazerosa sensação num simples movimento de sua atriz (seja ela qual for), uma categoria infalível e a demonstração que filmá-las é uma arte para poucos.

Com roteiro baseado no livro de Charles Williams, a trama cheia de segredos lida com o drama de um agente imobiliário (Jean-Louis Trintignant) acusado de duplo assassinato: sua esposa e um amigo, cujas investigações comprovam que eram amantes. Sua secretária, Barbara Becker (Fanny Ardant), lhe oferece um esconderijo e inicia investigação do verdadeiro culpado. Entre passagens secretas e surpresas mil, Truffaut trabalha bem com clichês, enquanto se aproveita da fotografia em preto e branco para atenuar o clima de mistério. O resultado é uma diversão que não envelhece com o tempo, e a parceria do cineasta com a interpretação de Ardant (sua época á época) oferecem humor, sem perder a sensualidade e o suspense. Vê-la em cena é sempre um prazer, com seu raro talento, e beleza estonteante que parece não envelhecer

Z (1969 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

”Qualquer semelhança com fatos ou pessoas vivas ou mortas não é casual, é intencional”; com essa proclamação inicia-se a obra máxima do diretor franco-grego Costa-Gavras, famoso por seu cinema de teor predominantemente político e de fortes convicções ligadas principalmente à justiça, à liberdade e à denúncia. Baseado no livro de Vassilis Vassilikos, o diretor narra parte da história de Gregorios Lambrakis e seu assassinato que motivou um golpe militar alguns anos depois na Grécia, Costa-Gavras deflagra assim este importante incidente político da história de sua terra natal.

Costa-Gavras filma em tom levemente documental, recria fatos usando a narrativa no melhor estilo thriller político, sem preocupar-se em grudar seu público na tela com mirabolantes tramas. Une atuações simples e diretas a um humor seco e preciso. Seu foco é mais amplo, algo distante de um filme essencialmente comercial, a vontade de denunciar leva o diretor a apontar a negligência do corpo policial e todo o envolvimento de pessoas do alto escalão do governo no assassinato de um honesto deputado (Yves Montand) oposicionista, é assim um aglomerado de situações tão conhecidas pela sociedade brasileira.

A figura do Comunismo começa a borbulhar pelo país, o movimento está sintetizado na figura de um engajado deputado. Governantes e policiais dificultam a realização de um comício e durante o tumulto o deputado é atacado por alguns militantes. Acaba falecendo no hospital. Um Juiz (Jean-Louis Trintignant) assume as investigações do incidente, não permitindo que certas influências manipulem a veracidade dos fatos.

Costa-Gavras não aponta para a ineficiência dos órgãos púbicos, cai direto na rede de interesses que estavam por trás do incidente. Com o dedo na ferida termina seu filme explicando que a letra ”Z” está relacionada com algo do tipo ”Está vivo”, algo bem próximo do que um líder morto nessas condições deixa de legado. O desejo de se obter o silêncio de vozes incômodas pode resultar em trapalhadas irremediáveis.