Bande à Part

bandeapartBande à Part (1964 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Frescor, leveza, outra daquelas pérolas deliciosas de Jean-Luc Godard das décadas de 60-70. Filmado com um ar de travessura, Godard brinca num triângulo amoroso, com semelhanças de Jules e Jim (como na corrida no museu), porém encontrando na despretensão o alicerce de seus personagens. Quase um laboratório de experimentos, formatos, invenções para Godard. Exemplo da cena em que um dos personagens pede um minuto de silêncio, e o diretor corta o som ambiente, ficando apenas nas expressões deles enquanto o mudo prevalece.

São dois ladrões e uma garota do curso de inglês, eles se apaixonam por ela, armam um golpe. Ela é inocente e aventureira, uma inconsequente ingênua. O roteiro forma essa turma de foras-da-lei, Godard prefere seguir brincando com takes, enquandramentos, mantendo o tom de liberdade, e o delicioso viço da juventude que filma com os impertérios da criatividade absoluta.

Uma Mulher Casada

umamulhercasadaUne Femme Mariée (1964 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Em outra de suas pérolas da década de 60, Jean-Luc Godard explora a proliferação do consumismo. Tendo como ponto de partida a vida uma mulher casada, Charlotte (Macha Méril). Da nova tv, ao consumo do prazer via infidelidade conjugal, Godard busca no trival formas de extrapolar essa ânsia capitalista que ganhou maiores proporções à época.

Mãos dadas em meio aos lençóis, diálogos rotineiros (tanto com o marido, quanto com o amante, ou o filho), por meio da narrativa fragmentanda, e a montagem que escapa de convenções de tempo (nenhuma cena depende da outra numa linha do tempo) o roteiro insere diálogos como o que o amante insinua que ela deveria deixar de raspar debaixo dos braços (como nos filmes italianos), e ela defende que prefere o cinema de Hollywood (pela beleza), e o amante rebate que são menos excitantes. É o poder da imagem, do marketing, como força do convencimento das massas.

Visto hoje pode conotar machismo, mas recolocado à época, expõe exatamente a posição da mulher na sociedade, a futilidade da dona de casa comum, e o quanto de vislumbre com o poder do consumo a sociedade se enraizava. Godard provoca tudo isso com pequenos fragmentos que representam momentos de relacionamentos pessoais, que provocam visualmente e questionam no sentido sociológico.

Adeus à Linguagem

adeusalinguagemAdieu au Langage / Goodbye to Language (2014 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Sempre inovando, ou até reinventando a inovação, o veterano Jean-Luc Godard resolveu abraçar o 3D. Após o filme coletivo 3x3D, Godard embarca agora em suas experimentações da nova tecnologia, aprimorando também o que não se pode chamar de estilo narrativo. O lado resmungão dos outros filmes dá espaço a metáforas, provocações, questionamentos sobre passado e futuro. Como se Godard fosse uma usina de ideias metralhando contra todos, sem respostas, um questionador.

Um cão no campo, o relacionamento de uma mulher casada e um homem solteiro, imagens distorcidas, granuladas, cores saturadas. E a câmera se movimenta, as vezes sem nexo, de maneira performática. Contempla a vegetação, os corpos nus, o som desconexo à imagem. Godard confunde a cuca do público, quebra limites para os que vem a seguir possam explorar essa nova ausência de limites. A África, assassinatos, o direito dos animais, não há um tema, não há uma ideia, Godard verbaliza sua mente efervescente, seu lado questionador, e encontra finalmente o que tanto vinha procurando em seus últimos trabalhos: uma nova forma de contar uma história, no que ele chamou de uma valsa.

Longe do Vietña

longedovietnaLoin du Vietnan (1967 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Como é a grande a oferta de critica e opiniões, nos dias atuais, que tentam ser contundentes, trazer à tona a verdade, o horror da guerra, o terror. Melodramas aproveitadores aos montes, deles pouca contundência e criatividade. Até que, às vezes, você acaba se deparando com um trabalho como esse, idealizado por Chris Marker, no meio da Guerra do Vietña, uniu outros diretores de cinema e constroem um filme protesto tão legítimo, complexo, político e decisivo.

Alains Resnais, Jean-Luc Godard, Agnès Varda, Claude Lelouch, William Klein e Joris Ivens, filmando a Guerra, os protestos, os vietcongs. Comunista por excelência, esse misto de documentário e cenas gravadas com poderosos diálogos é uma pequena pérola anárquica, um ode à paz e a liberdade. Conta em detalhes as tramas políticas da sucessão da França pelos EUA na Indochina e Vietnã, a guerrilha do dia-a-dia dos colonos frente o poderio bélico dos americanos.

É um raio-x impressionante, um resumo de conflito descabido, cujas opiniões são expressadas de maneira poética, anárquica, verborrágica, e dentro da mais clarividência da situação político-cultura da época. Um planeta em plena ebulição que resultaria nas revoluções estudantis do ano seguinte.

Cannes 2014: Destaques e Favoritos

festivaldecannes_2-650x400Em poucas horas começará a cerimônia de premiação da 67a edição do Festival de Cannes. Diferentemente dos últimos anos, este ano, este blog, não postou a repercussão diária das exibições, é muito trabalhoso e não deu tempo. Isso não quer dizer que o festival não tenha sido acompanhado, bem de pertinho. Agora que a imprensa já foi apresentada aos 18 filmes em competição e as mostras paralelas já conhecem seus premiados, podemos ter algumas expectivas, além dos favoritos que são apontados em diversas listas na internet.

Não parece ter sido uma edição de filmes que nos deixam ansiosos para conferir, mas há destaques bem interessantes entre monstros do cinema, ou novidades desconhecidas. Para quem gosta de quadro de cotações, vale uma olhada nesse link aqui, com críticos de muitos países, ou da revista francesa Le Film Français.

As frustrações começaram pelo filme de abertura, Grace de Monaco (Olivier Dahan) não agradou ninguém. The Search (Michel Hazanavicius) foi o mais vaiado com seu drama sobre a Chechenia, impressão de que o diretor de O Artista é realizador de um filme só. Captives (Atom Egoyan) foi outro que ninguém entendeu o que estava fazendo na competição (e eu não entendo porque ele sempre está lá), o filme é sobre sequestro infantil e pedofilia.

saint-laurent-cannes-2014No bloco dos que dividiram as opiniões estão: Saint Laurent (Bertrand Bonello) cinebiografia do estilista francês, com foco na relação com drogas e sexualidade. Jimmy Hall (Ken Loach) foi outro que passou quase batido, sobre um irlandês reabrindo um salão de dança, no meio de uma crise financeira-política, Loach e sua eterna visão socialista. A sensação é que erraram no argentino, Jauja (Lisando Alonso) acabou não premiado na Un Certain Regards, mas foi um dos filmes mais celebrados do festival, porém, na competição estava Relatos Salvajes (Damian Szifron), que até agradou, com suas 6 tramas cheia de atores argentinos conhecidos e humor negro.

Maps to the StarsAinda dividindo opiniões, mas já com alguns elogios que podem levar os filmes a serem lembrados na premiação ficaram: Foxcatcher (Bennet Miller), história real de um milionário e dois medalhistas olímpicos, e um assassinato. Os elogios as inesperadas grandes atuações de Channing Tatum e Steve Carrel foram entusiasmados (desde já um dos postulantes ao Oscar). Maps to the Star (David Cronenberg) ninguém aposta que a sátira sobre Hollywood será premiada, mas o filme agradou muita gente. The Homesman (Tommy Lee Jones) é outro western do diretor, dessa vez com foco em três mulheres cruzando o velho-oeste. O último dia de competição trouxe Clouds of Sils Maria (Olivier Assayas) e as reverências, inesperadas, a atuação de Kristen Stewart (crítico Guy Lodge acha que se ela ganhar a internet vai travar), e o filme também agradou, mas o último filme exibido é sempre carta fora do baralho.

Still-The-WaterAgora chegamos no pelotão da frente. Logo após a exibição, o japonês Still the Water (Naomi Kawase) parecia que ia passar em branco, mas vem crescendo no boca-a-boca, a história trata de dois irmãos numa pequena ilha no Japão. Há quem ame o cinema de Kawase, ela disse que este é seu melhor trabalho, mas muita gente questiona porque tanto ibope para seus filmes. Mommy (Xavier Dolan) é outro sempre questionado, aos 25 anos e com 5 filmes, Dolan é uma aposta dos festivais, muito prestigio (eu só vi o primeiro filme dele é gostaria de ficar bem longe). Se em seu primeiro trabalho ele queria matar sua mãe, este novo filme é uma espécie de vingança. A cinebiografia Mr. Turner (Mike Leigh) sobre o pintor e mulheres complexas a sua volta vem com força para uma possível premiação a Timothy Spall.

Nesse mesmo pelotão ainda estão: o italiano Le Meraviglie (Alice Rohrwacher), a segunda mulher em competição ganhou elogios crescentes com sua história de uma familia cuidando de uma fazenda de mel. A diretora, novamente, foca na adolescencia feminina. Timbutktu (Abderrahmane Sissako) foi exibido logo no começo, nunca foi considerado favorito, mas sempre elogiado por seu drama contudente sobre todas as mazelas religiosas que vive o norte da África, corre por fora em muitos prêmios.

Cannes2014DeuxjoursunenuitFavoritos, chegamos a eles. Pelo que tenho apurado são 4. Porém, um deles com chances nulas de tão reduzidas. Deux Jours, Une Nuit (Jean-Pierre e Luc Dardenne), os irmãos belgas já ganharam a Palma duas vezes. Nunca alguém ganhou uma terceira. A regularidade deles é impressionante, desde A Promessa que eles lançam um filme a cada 3 anos, e sempre estão entre os premiados. Não deve ser diferente, Marion Cotilard é a principal favorita (mas há muitas competidoras) ao premio de atriz. O filme é um fábula moral, um final de semana e uma mulher tentando mendigar seu emprego aos colegas de trabalho.

winter-sleep-cannes-2014-3Winter Sleep (Nuri Bilge Ceylan), o turco é um daqueles que está cada vez mais próximo da Palma, ontem ganhou melhor filme pela Fipresci (ano passado quebrou-se a maldição, mas normalmente quem ganha o Fipresci não leva a Palma). Desde que saiu o lineup eu já considerava ele, e o russo, como os favoritos, e os dois realmente encabeçam a lista. São 3 horas na Capadócia, ao estilo de Ceylan, poucos diálogos, tom poético, cavernas, pequenas tramas com um ator aposentado (Haluk Bilginer, outro com chances) no centro delas.

adieuAdieu au Langage (Jean-Luc Godard), seus filmes estão sempre em Cannes, em mostras paralelas, sua presença na competição significava alguma coisa. Desde os anos 80 que seu cinema chegou a um ponto de agradar a um seleto público (bota seleto nisso), cada vez mais resmungão e de narrativa fragmentada. Dessa vez ele vez com um 3D, e a crítica saiu estarrecida. A sensação que dá é que ele acertou no tom do que vem fazendo há anos, e se aproveitando da nova tecnologia. Seria uma decisão corajosa dar a Palma a Godard, ele nunca ganhou, é um ícone do cinema de autor e uma quebra com todo o cinema tradicional. Mesmo não gostando de seus filmes mais recentes (exceção ao belo Elogio ao Amor), gostaria de ver Godard ganhando para dar essa quebrada com o formalismo protocolar.

Leviathan 1Mas, se eu tivesse que colocar meu rico dinheirinho em alguma bolsa de aposta, ele iria para o russo Leviathan (Andrey Zvyagintsev). Muita gente torce o nariz, eu, particularmente, gosto de seus filmes. Começou com O Retorno (Leão de Ouro em Veneza), depois The Banishment passou batido, e o último, Elena foi premiado na Un Certain Regard (há quem reclame que devia ter passado na competição, naquele ano). Sua exibição de gala na quinta-feira é sinal de prestígio dentro da competição. E, se não é unanimidade, a proporção de admiradores é muito superior, não foram poucos os que pediram a Palma após sua primeira exibição. Poderia ganhar ator, roteiro, direção, mas a aposta é mesmo para ser a Palma de Ouro. Veremos. O filme é ambicioso, com um título desses não era para menos. O filme parece ser um contundente drama sobre a vida russa contemporanea, a corrupção política, a presença da igreja Ortodoxa, o poder, a polícia.

Fora da Competição, além de Jauja, destaques para Welcome to New York (Abel Ferrara) contando o escandaloso caso de Dominik-Strauss. Force Majeure (Ruben Ostlund) sobre o poder de avalanche. O polêmico, e eleito melhor filme na Un Certain Regard, White God (Kornél Mundruczó) e os ucranianos The Tribe (Myroslav Slaboshpytskiy) sem falas, personagens surdos-mudos, e o documentário Maidan (Sergei Loznitsa) sobre os recentes acontecimentos políticos na Ucrânia.

3x3D

3x3d3X3D (2013 – FRA/POR) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A cada ano, a União Europeia, escolhe uma cidade como a Capital Europeia da Cultura. Dessa escolha, fica fácil imaginar os eventos que ocorrem, ao longo do ano, para promover e celebrar tal escolha. Em 2012, a escolhida foi a cidade portuguesa de Guimarães. Pelo menos dois filmes foram patrocinados por esse evento, um deles é este trabalho coletivo, dito como “experimentos em 3D”.

Peter Greenaway é quem mais se aproximar de relacionar seu trabalho com a cidade celebrada, a idéia de um plano sequencia por um museu (e seu entorno) da cidade, é uma boa forma de resgatar a cultura portuguesa e importantes personalidades. Porém, a sensação de estar transformando a tela grande, num gigante Ipad, faltando apenas a possibilidade de interação do público pelo toque das mãos, está mais para carnaval em 3D, dentro do museu.

3x3_2O português Edgar Pêra vem com humor, brinca com a relação cinema x público, mas não vai além de aborrecer com anomalias digitais e termos provocativos à cinefilia. Já Jean-Luc Godard, que se tornou o maior resmusgão do cinema mundial, segue o que vem fazendo ha décadas: reclamar e embaralhar. Primeiro, ele dá um golpe, seu trabalho praticamente não tem nada em 3D, usando-se de imagens que vão desde o Holoausto, até Othello de Orson Welles, Godard reclama da vida, do mundo, da sociedade, o eterno pessimista.

A Chinesa

La Chinoise (1967 – FRA)

Jean-Luc Godard joga as fórmulas narrativas fora, o conceito de contar uma história pouco importa, a estrutura retilínea. Vai além, ele coloca mais lenha na fogueira que no ano seguinte desencadearia os acontecimentos de 1968. Seu filme sobre um grupo de jovens comunistas que criam uma organização terrorista comunista que planeja atos violentos em prol de sua visão política é um mergulho completo na estrutura racional desses anarquistas.

O filme não vai além de teorias, discussões políticas, frases escritas no quadro negro e pontos de vistas baseados em Mao Tsé-Tung, praticamente transformando sua figura em algo pop. Mais do que um discurso panfletário, ou da nítida crítica aos EUA, Godard está questionamento o mecanismo de funcionamento do cérebro daqueles jovens, suas motivações, a aglutinação da juventude e efervescência cultural de quem está engajado, pessoas com fibra e ideais.

A metralhadora do cineasta está apontada para todos os lados, cuspindo conceitos e discursos, a câmera desliza pela varanda enquanto focaliza os jovens atentos ou as paredes que formam aquela sala, tudo transpira a questões políticas, filósofos e comunistas cultuados como heróis da música pop, muito além das discussões políticas (que se pensarmos no contexto histórico, o filme foi lançado a beira do auge da revolução estudantil) está a capacidade de Godard em captar as vibrações e motivações juvenis, em fugir do didático para trazer a tona o anarquismo particular de cada um desses jovens politicamente engajados.