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Livre

Publicado: outubro 23, 2014 em Cinema, Mostra SP
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livreWild (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Só quem já enfrentou um mochilão, sozinho, sabe das dificuldades, das reflexões, da possibilidade de conhecer pessoas novas, da solidão, e dos benefícios que uma viagem desse tipo pode trazer. Quase sempre, mas não somente, ela marca a necessidade de um recomeço, de encontrar novos caminhos quando pontos na sua vida não estão bem sedimentados. Baseado no livro Wild: From Lost to Found on the Pacific Crest Trail, momento autobiográfico da vida de Cheryl Strayed (Reese Witherspoon) temos a travessia pessoal dessa garota pela famosa trilha no oeste dos EUA.

O roteiro (escrito por Nick Hornby) segue duas linhas narrativas, a travessia e os flashbacks que ajudam a explicar os motivos que a fizeram buscar esse reboot. O diretor Jean-Marc Vallée bem que tenta, mas não consegue se desapegar das frases de autoajuda, e cai num erro não cometido em Na Natureza Selvagem, em dar maior importância à trajetória, ao humor dos pés machucados, do que privilegiar o que realmente é significativo e revolucionário: as pessoas que cruzam seu caminho, e a troca de experiências. Vallée se aproxima mais de 127 Horas, ou de um Comer, Rezar e Amar versão mochileiro. Os dramas de Cheryl ajudam elevar essa proximidade com a autoajuda. Se Vallée, novamente, utiliza-se bem da trilha sonora, e tenta dar novo gás ao ritmo narrativo com cenas focadas em pequenos objetos, por outro lado perde a riqueza que diálogos e experiências poderiam evocar. Restando muito mais a curiosidade pelos comportamentos de Cheryl, antes da trilha, se bem que eles explicam a decisão de Cheryl, nunca os próprios comportamentos. Falta gente e sobra deserto nessa história.

EXCLUSIVE: Matthew McConaughey and Jared Leto film scenes together for The Dallas Buyers Club in New Orleans.Dallas Buyers Club (2013 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Como o Oscar adora as transformações físicas que um ator se sujeita por um personagem, a garantia de vitória dos prêmios de atuação para Jared Leto e Matthew McCounaghey é grande. E realmente são trabalhos de respeito, por mais que não tragam nada de novo ao espectro dos personagens a que se assemelham. O cineasta Jean-Marc Vallée trabalha com cores desgastadas, uma espécie de cansaço visual intimamente ligado à saúde dos dois estranhos que se unem numa luta, inglória, pela própria sobrevivência.

Anos 80, o HIV positivo é sentença de morte, afinal não havia medicamentos para combater a doença. O AZT era testado, enquanto isso os contaminados morriam em poucos dias. Nasce pelos EUA uma espécie de Clube de Compras, onde interessados se uniam e compartilhavam pesquisas, corriam em busca de medicamentos, mesmo na ilegalidade e sem os testes comprobatórios do FDA. Arriscado? Sim. Única saída? Podem ter certeza.

É interessante esse contexto histórico de uma transição até os tempos de hoje em que a AIDS é terrível, mas a vida pode ser prolongada com eficazes resultados. Ron Woodroof (McCounaghey) é o corajoso-machão que enfrenta o governo, peão de rodeios, pega na unha médicos e quem estiver em seu caminho. É o típico americano médio do interior dos EUA, preconceituoso e moralista, que desprevenido acabou como HIV positivo, mas não aceita sua condição sem lutar por sua vida.

Vallée tinha muitos caminhos a seguir, preferiu o de narrar a história concentrando-se nas transformações físicas de seus personagens doentes. Incapaz de oferecer mais detalhes sobre a mecânica do clube, e pouco efetivo num cinema que fuja das amarras conhecidas onde personagens são dóceis (e combativos), e onde o sofrimento psicológico é facilmente substituído pela vontade de viver. Vallée só consegue traduzir sua história num trabalho impessoal, sem a chama da emoção.