Posts com Tag ‘Jean-Pierre e Luc Dardenne’

agarotadesconhecidaLa Fille Inconnue (2016 – BEL) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Fãs dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, o sinal amarelo de alerta pode se deflagrado. O filme anterior (Dois Dias, Uma Noite) já causava discórdia, pelo apelo melodramático (que no meu caso me atingiu em cheio). Seu novo filme tenta se colocar como uma trama policial, e ao mesmo tempo um conto moral, na história de uma jovem médica (Adèle Haenel) carregando o peso da morte de uma desconhecida.

Os tiques (ou obsessões narrativas) dos Dardenne continuam lá, os planos fechados seguem sufocando personagens e público, mas é a abordagem dos temas que apresenta sinais de mudança, e acima de tudo dessa vez. A médica que influencia tudo e todos, e destemida faz o trabalho da policia, é muito coisa de seriado, e os cineastas belgas não conseguem fugir da armadilha que eles mesmos criaram de tornar palatável e cristalino demais. As peças se encaixam, e todos carregam esse incomodo moral de desmoronar para a atenciosa (mas nada doce médica). A imigração ilegal volta a voga no cinema deles, mas dessa vez é apenas um vaso tímido que enfeita a sala.

apromessaLa Promesse (1996 – BEL) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Tendo sua estreia mundial em Cannes, na Quinzena dos Realizadores, os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne colocavam, definitivamente, seus nomes como um dos grandes do cinema na atualidade. A definição clara por temas ligados à critica ao socialismo e globalização (no melhor estilo Ken Loach), e à imigração ilegal, e o estilo narrativo mais próximo daquele que marcou a forte presença autoral do trabalho dos Dardenne, A Promessa é o filme que marca a transição da fase de documentários, e primeiros trabalhos de ficção – que já demonstravam sinais desses pontos – ao cinema característico e consagrado que a Palma de Ouro para Rosetta confirmou.

No cerne da história, um rapazote magricelo, de 14 anos (Jérémie Rénier e com um quê de Jean-Pierre Léaud) e seu pai (Olivier Gourmet) vivendo do transporte e exploração dos imigrantes ilegais. Visto hoje, não carrega o mesmo senso de urgência da época, afinal, chegamos a outro estágio da discussão europeia de imigração. Por outro lado, nunca deixará de ser chocante o tipo de exploração e desprezo humano. Pessoas tratadas como mercadorias, e surge nesse rapaz um mínimo de humanidade (não herdada do pai), que leva o filme a caminhos diferentes do que a simples reprodução das condições precárias e demais tipos de abuso de pessoas mais que necessitadas.

Os Dardenne filmam de maneira seca, já começando os sinais da obsessão em filmar pela nuca dos personagens, de planos-fechados. A clara demonstração da insatisfação contra o capitalismo insano e a falta de humanidade em “oportunidades”. Uma promessa, o peso da culpa, e um garoto assumindo responsabilidades ligadas a sua visão de justiça. A sua volta, uma enormidade de comportamentos sobre a intolerância e esse grau de julgamento de inferioridade para com os imigrantes, que fogem de absurdos e condições precárias para receber tratamentos que mais se assemelham a um filme de horror.

jepenseavous

Je Pense à Vous (1992 – BEL) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Já no segundo longa de ficção, os irmão Jean-Pierre e Luc Dardenne viravam seus olhares para a Europa operária, e seus problemas sintomáticos. Greves, disputas pelo que se considera justo e suas consequências devastadoras dentro da sobrevivência familiar. É um filme menos poético, e até mais próximo de um senso comum de cinema, e bem distante das marcas visuais registradas dos irmãos, já os posiciona dentro de seus temas favoritos.

Os elementos são básicos começa com o casamento, e a casa dos sonhos que pretendem reformar. A vida com os filhos e os sonhos do casal em se transferir para Manchester que começa a ser desmoronado quando ele é demitido. Da estabilidade familiar ao caos total, insegurança, ressentimentos, a crise deflagrada se aprofunda com a completa desestabilização da figura de liderança e os Dardenne criam esse retrato desesperançoso de uma sociedade cujo os ecos do socialismo são a própria sustentabilidade ideológica, ainda que o amor tente ser o grande alicerce de reconstrução particular.

Falsch

Publicado: março 14, 2016 em Cinema
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FalschFalsch (1986 – BEL) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Este é o primeiro longa de ficção dos Irmãos Dardenne, adaptação de uma peça de teatro escrita por René Kalisky, aborda um tema (Nazismo) que já esteve presente nesse início de carreira da dupla (como no documentário Leçons d’une Université Volante). Após 40 anos vivendo em Nova York, o único sobrevivente de uma família judia desembarca em Berlim. No aeroporto, completamente vazio, encontra com membros de sua família mortos em campos de concentração. Uma noite de reencontros, de reações destemperadas e amorosas, de conflitos e desejo, surpresas e culpa.

Por vezes a trilha é composta de música clássica. A câmera , em planos fechados, quase sempre não sai dos rostos, em leves movimentos que o sagão do aeroporto vazio permitem explorar melhor, além de causar essa estranha sensação de um espaço tão repleto de pessoas, e tão silencioso. O teatro dentro do mundo visual dos Dardenne dá a sensação do público sob o palco, quase tocando nos atores, sem que se perca a carga dramática da história trágica dessa família. Falsch é um belo início de uma carreira que se provaria especial.

Os meus 25 filmes favoritos do ano de 2015. O critério é o mesmo do ano passado, filmes vistos ao longo do ano, e que foram produzidos até 2 anos atrás (portanto, limite é 2013). Eles formatam, na visão deste blog, o melhor do panorama do cinema, com toda a subjetividade que uma lista dessas possa ter. E, novamente, o top 10 comentado tenta captar um pouco da percepção sobre estes filmes e sobre o cinema contemporâneo.

assassina

  1. A Assassina, de Hou Hsiao-Hsien
  2. Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller
  3. Hard to be a God, de Aleksey German
  4. Carol, de Todd Haynes
  5. Noites Brancas no Píer, de Paul Vecchialli
  6. Diálogo de Sombras, de Jean Marie-Straub e Danièle Huillet
  7. Phoenix, de Christian Petzold
  8. As Mil e Uma Noites: Volume 1 – O Inquieto, de Miguel Gomes
  9. Sniper Americano, de Clint Eastwood
  10. Spotlight, de Tom McCarthy
  11. O Tesouro, de Corneliu Porumboiu
  12. O Ano Mais Violento, de J. C. Chandor
  13. Três Lembranças da Minha Juventude, Arnaud Desplechin
  14. O Peso do Silêncio, De Joshua Oppenheimer
  15. Vício Inerente, de Paul Thomas Anderson
  16. Son of Saul, de Laszlo Nemes
  17. A Terra e a Sombra, de César Augusto Acevedo García
  18. Os Campos Voltarão, de Ermanno Olmi
  19. A Vida Invisível, de Vitor Gonçalves
  20. Um Amor a Cada Esquina, de Peter Bogdanovich
  21. É o Amor, de Paul Vecchialli
  22. 45 Anos, de Andrew Haigh
  23. Mountains May Depart, de Jia Zhang-ke
  24. João Bérnard da Costa: Outros Amarão as Coisas que Eu Amei, de Manuel Mozos
  25. Aferim!, de Radu Jude

 

A lista deste ano parece ter no amor, e na inquietude, suas vozes mais presentes. São filmes, que em sua maioria, tentam falar mais intimamente com seu público, causando reflexão ou estabelecendo conexão com o que esses corações possam reverberar. O amor é determinante no grande filme do ano, o aguardado e deslumbrante retorno de Hou Hsiao-Hsien. Tanto ele, quanto o lindo romance feminino de Todd Haynes, ofuscaram o fraco vencedor da Palma de Ouro, com narrativas sofisticadas e visualmente hipnóticas. O amor como uma âncora que afasta os protagonistas dos caminhos trilhados, a eles, pela sociedade. Num tom muito semelhante também esta o drama-romântico, do alemão Christian Petzold. Com o provável melhor desfecho do ano, seu filme vai de Fassbender a Hitchcock, quando trata genuinamente do amor e seus impactos.

Se Paul Vecchiali flerta com o cinema experimental, e adapta Dostoiévski, com seus dois personagens em encontros notívagos sobre vazios existências dos corações, o média-metragem de Jean Marie-Straub e Danièle Huillet versa sobre amor, religião, e até o tédio. Vecchiali tem o mar ao fundo, a dupla francesa o local bucólico. E em tons bem diferentes, ainda que com a semelhança do tom teatral, ambos filmes vagueiam entre o racional e o irracional.

O de Clint Eastwood está entre o amor e a inquietude. O apego à família e à pátria, e a inquietude causada pela guerra são temas latentes nesse drama de soldado. Como um todo, a trilogia de Miguel Gomes decepciona, ainda que tenha sido tão elogiada em Cannes, porém, exibidos em separado nos cinemas, o primeiro volume demonstra a força da inquietude por meio de críticas corrosivos ao cenário político português, em tom de humor debochado.

Aleksei German e George Miller criam (ou retomam) visões futuristas do caos regido pela irracionalidade. Miller e seu espantoso retorno a saga Mad Max beira a unanimidade, com surpreendentes chances reais no próximo Oscar nessa ventura alucinante pelo deserto pós-apocalíptico. Já o veterano russo recria a Europa feudal, lamacenta e exasperante, tendo na inquietude visual a grande desconstrução de seu protagonista semi-Deus.

O patinho feio da lista é o filme independente sensação da corrida ao Oscar. Mais do que um filme-denúncia, sobre acusações de pedofilia de padres católicas, Tom McCarthy realiza um empolgante estudo dos caminhos da imprensa investigativa.

 

E encerrando, os meus 10 filmes favoritos dentro do circuito comercial de 2015, sempre atrasado arrastando filmes que já estiveram no top do ano passado.

  1. Norte, o Fim da História, de Lav Diaz
  2. Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller
  3. Noites Brancas no Píer, de Paul Vecchialli
  4. O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takathata
  5. Phoenix, de Christian Petzold
  6. As Mil e E Uma Noites: Volume 1, O Inquieto, de Miguel Gomes
  7. Dois Dias, Uma Noite, de Jean e Luc Dardenne
  8. A Pele de Vênus, de Roman Polanski
  9. Acima das Nuvens, de Olivier Assayas
  10. Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan

Nos últimos dias estava quebrando a cabeça, vasculhando nos filmes que entraram no circuito comercial, aqueles dez que seriam os meus preferidos do ano – doença de cinéfilo. E, simplesmente, não consigo fechar uma lista com dez merecedores-de-um-top-10. Talvez 5 ou 6, vá lá, mas o restante são apenas bons filmes, em que há outros 4 ou 5 que estão ali, no mesmo nível. Desse critério tão subjetivo (e maluco) que é classificar filmes. Conversando com meu amigo Superoito, realmente não parece haver sentido nessa lista, afinal, o circuito brasileiro vive atrasado. Se a oferta em quantidade tem crescido, ainda assim a quantidade de salas “alternativas” são tão restritas, que os filme permanecem nas prateleiras das distribuições, esperando melhor momento de estrear, muitas vezes perdendo seu “momento”.

Os cinéfilos que realmente acompanham a cena internacional de cinema, o que está sendo filmado, as novas tendências, novos limites que os cineastas quebram. Estes cinéfilos buscam os filmes por outras plataformas, de outras maneiras que não exclusivamente o circuito. Nesse ponto, os festivais tem ajudado muito, não só o Indie, Festival do Rio, e Mostra SP, como outros festivais menores, tem trazido grande parte da produção atualizada, cobrindo parte expressiva dessa produção. O resto chega através de outros formatos, viagens, Netflix, internet e etc. Estamos quase em 2015, hora de mudança.

Portanto, trabalhar numa lista de melhores, tendo o circuito comercial como critério, me parece abster-se do cinema que o próprio cinéfilo acompanha, discute, vive. Não, não vou esconder meus 10 preferidos, vou apenas deixá-los no final, apenas como referência, afinal eles serão meus votos para o Alfred da Liga dos Blogues Cinematográficos.

A lista mais importante é a que vem logo a seguir (comentada), são filmes que foram vistos em 2014, com produção de até 2 anos (que finalmente foram vistos, ou ficaram acessíveis). Eles formatam melhor o panorama do ano do cinema, os principais festivais, o que a imprensa especializada ou os grupos de cinéfilos discutiram, veneraram, xingaram, amaram. Há ausências, como toda lista, afinal, ela é subjetiva. Alguns filmes não foram vistos (a Godard a mais sentida, mais a versão em 3D precisa ser vista em tela grande), outros não agradaram tanto, mas ela indica caminhos, preferências, e, acima de tudo, é coerente com esse cinema atual.

O Top 10

doquevemantes

  1. Do que Vem Antes, de Lav Diaz
  2. A Imagem que Falta, de Rithy Panh
  3. A Princesa da França, de Matias Piñeiro
  4. Redemption, de Miguel Gomes
  5. Era Uma Vez em Nova York, de James Gray
  6. E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto
  7. O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takahata
  8. A Pele de Vênus, de Roman Polanski
  9. Acima das Nuvens, de Olivier Assayas
  10. Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan / Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Olhando para essa pequena amostragem percebo que é uma lista heterogênea, grande parte dela da seleção dos dois últimos festivais de Cannes. Quase todos diretores consagrados, que apontam para dois caminhos: filmes grandiosos em temas e pretensões; ou pequeninos na pretensão, porém grandes na arte de filmar. São dois lados de uma mesma moeda, cineastas que enxergam suas próprias carreiras e tentam escapar dos caminhos fáceis do piloto automático.

Alguns destes filmes tem o aspecto moral como excelência, o perturbado conto de Ceylan ganhou a Palma de Ouro. O dos Irmãos Dardenne traz um melodrama nunca antes visto na carreira dos belgas. São filmes antagônicos na forma, ligados por essa questão da vida em sociedade, dos princípios. James Gray continua com poucos e fiéis fãs. Ele até flerta com o melodrama, mas seu estilo sofisticado deixa tudo tão chamuscado e charmoso que esse melodrama fica chique entre tão belos planos.

Há o lado teatral forte, é o segundo trabalho seguido de Polanski que remete ao teatro filmado, dois de seus melhores filmes em anos. O argentino Matias Piñeiro surge como uma descoberta, tardia deste blog, com uma construção irrepreensível, uma espécie de poesia teatral filmada. Assayas mergulha em seus filmes anteriores, e em Bergman, trilha novo caminho via metalinguagem.

De Portugal duas pérolas, o documentário autobiográfico de Joaquim Pinto e as biografias escondidas por Miguel Gomes num curta sobre doces fluxos de memórias. O cinema português segue produzindo pouco, mas muito bem. O japonês Isao Takahata promete ter entregue seu último trabalho, e o resultado é um primor ao refletir as tradições culturais orientais com leveza e sofisticação.

No topo da lista Pahn e Diaz, os dois revivendo cicatrizes dolorosas de seus países. Seja pelos bonecos do Cambodja, ou pelas florestas filipinas, os horrores das ditaduras sem que a violência precise ser exposta. Seus filmes são registros hipnóticos de um cinema rigoroso, que usa da simplicidade para aproximar-se de seus próprios personagens, e do virtuosismo de seus diretores para cativar os que enxergam novos rumos para o cinema. A conjunção exata entre fazer arte e contar histórias.

No Letterboxd deixo a lista mais completa com meus 25 filmes favoritos do ano.

O Top 10 do Circuito Comercial

  1. A Imagem de Falta, de Rithy Pahn
  2. Era uma Vez em Nova York, de James Gray
  3. Cães Errantes, de Tsai Ming-Liang
  4. Bem-Vindo a Nova York, de Abel Ferrara
  5. Mais um Ano, de Mike Leigh
  6. Amar, Beber e Cantar, de Alain Resnais
  7. Boyhood – Da Infância à Juventude, de Richard Linklater
  8. Vic + Flo Viram um Urso, de Denis Côté
  9. O Abutre, de Dan Gilroy
  10. O Ciúme, de Phillipe Garrel

38MostraSP

Menor quantidade de problemas com atrasos, cancelamento de filmes e etc (ainda houveram, é bem verdade). Um belo leque de clássicos recheando uma programação que destacou boa parte dos principais filmes que estiveram presentes nos grandes festivais de 2014. A Mostra SP volta a recuperar seu prestígio, filas, sessões lotadas. Foi a melhor edição após a opção pelo ineditismo. Ainda falta muitas coisas, o pecado mais grave continua sendo a Central da Mostra, ter que se deslocar fisicamente, quanto os que tem pacote deveriam escolher seus filmes via internet, sem dores de cabeça.

Foi a Mostra da eleição Dilma x Aécio, da propaganda da Folha vaiada em inúmeras sessões, foi a Mostra da retrospectiva de Pedro Almodóvar (que não veio ao evento), da falta de água em São Paulo. Dos filmes russos de ácida crítica à política, de confirmação da boa edição de Cannes 2014. Uma edição de menos holofotes e mais exibições. A volta das sessões da meia-noite que tem seu charme.

O mais importante são eles, os filmes, e quantidade de grandes, ou bons filmes, foi bem mais interessante. Como todo ano, abaixo destaque para os que mais me agradaram nessa edição da Mostra SP:

O Filme

doquevemantes

  • Do que Vem Antes, de Lav Diaz

Segundo ano consecutivo que o filipino emplaca meu filme preferido na Mostra SP.

 

Os Melhores:

  • Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
  • Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan
  • Acima das Nuvens, de Olivier Assayas
  • Leviatã, de Andrey Zvyaginstev
  • Relatos Selvagens, de Damian Szifron
  • A Professora do Jardim de Infância, de Nadav Lapid

O Filho

Publicado: julho 1, 2014 em Cinema
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ofilhoLe Fils (2002 – BEL) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Outro típico dos trabalhos dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, câmera na mão, planos fechados, muitas vezes na nuca dos personagens. Adolescentes-problema e imigrantes, e o usual naturalismo como estilo narrativo. O Filho é outro capítulo nessa história cinematográfica poderoso que os Dardenne andam construindo, através de um conto moral (ajudar a quem lhe fez um mau irreparável) os cineastas desenham uma narrativa claustrofóbica.

Resultado do próprio estilo, os planos fechados nos dão uma visão parcial, diminuta, tudo parece surpreender porque não se sabe o que está além da imagem. A marcenaria, a reação dos que estão fora do foco, e a implosão de sentimentos cuja fagulha pode desencadear numa erupção. Os Dardenne dominam a sensação de panela de pressão prestes a explodir, e o fazem com uma naturalidade espontânea, o controle dos comportamentos, o peso moral, um conjunto de elementos que, unidos, explicam comportamentos, e fazem todo sentido a essa história contida e emocionante.

festivaldecannes_2-650x400Em poucas horas começará a cerimônia de premiação da 67a edição do Festival de Cannes. Diferentemente dos últimos anos, este ano, este blog, não postou a repercussão diária das exibições, é muito trabalhoso e não deu tempo. Isso não quer dizer que o festival não tenha sido acompanhado, bem de pertinho. Agora que a imprensa já foi apresentada aos 18 filmes em competição e as mostras paralelas já conhecem seus premiados, podemos ter algumas expectivas, além dos favoritos que são apontados em diversas listas na internet.

Não parece ter sido uma edição de filmes que nos deixam ansiosos para conferir, mas há destaques bem interessantes entre monstros do cinema, ou novidades desconhecidas. Para quem gosta de quadro de cotações, vale uma olhada nesse link aqui, com críticos de muitos países, ou da revista francesa Le Film Français.

As frustrações começaram pelo filme de abertura, Grace de Monaco (Olivier Dahan) não agradou ninguém. The Search (Michel Hazanavicius) foi o mais vaiado com seu drama sobre a Chechenia, impressão de que o diretor de O Artista é realizador de um filme só. Captives (Atom Egoyan) foi outro que ninguém entendeu o que estava fazendo na competição (e eu não entendo porque ele sempre está lá), o filme é sobre sequestro infantil e pedofilia.

saint-laurent-cannes-2014No bloco dos que dividiram as opiniões estão: Saint Laurent (Bertrand Bonello) cinebiografia do estilista francês, com foco na relação com drogas e sexualidade. Jimmy Hall (Ken Loach) foi outro que passou quase batido, sobre um irlandês reabrindo um salão de dança, no meio de uma crise financeira-política, Loach e sua eterna visão socialista. A sensação é que erraram no argentino, Jauja (Lisando Alonso) acabou não premiado na Un Certain Regards, mas foi um dos filmes mais celebrados do festival, porém, na competição estava Relatos Salvajes (Damian Szifron), que até agradou, com suas 6 tramas cheia de atores argentinos conhecidos e humor negro.

Maps to the StarsAinda dividindo opiniões, mas já com alguns elogios que podem levar os filmes a serem lembrados na premiação ficaram: Foxcatcher (Bennet Miller), história real de um milionário e dois medalhistas olímpicos, e um assassinato. Os elogios as inesperadas grandes atuações de Channing Tatum e Steve Carrel foram entusiasmados (desde já um dos postulantes ao Oscar). Maps to the Star (David Cronenberg) ninguém aposta que a sátira sobre Hollywood será premiada, mas o filme agradou muita gente. The Homesman (Tommy Lee Jones) é outro western do diretor, dessa vez com foco em três mulheres cruzando o velho-oeste. O último dia de competição trouxe Clouds of Sils Maria (Olivier Assayas) e as reverências, inesperadas, a atuação de Kristen Stewart (crítico Guy Lodge acha que se ela ganhar a internet vai travar), e o filme também agradou, mas o último filme exibido é sempre carta fora do baralho.

Still-The-WaterAgora chegamos no pelotão da frente. Logo após a exibição, o japonês Still the Water (Naomi Kawase) parecia que ia passar em branco, mas vem crescendo no boca-a-boca, a história trata de dois irmãos numa pequena ilha no Japão. Há quem ame o cinema de Kawase, ela disse que este é seu melhor trabalho, mas muita gente questiona porque tanto ibope para seus filmes. Mommy (Xavier Dolan) é outro sempre questionado, aos 25 anos e com 5 filmes, Dolan é uma aposta dos festivais, muito prestigio (eu só vi o primeiro filme dele é gostaria de ficar bem longe). Se em seu primeiro trabalho ele queria matar sua mãe, este novo filme é uma espécie de vingança. A cinebiografia Mr. Turner (Mike Leigh) sobre o pintor e mulheres complexas a sua volta vem com força para uma possível premiação a Timothy Spall.

Nesse mesmo pelotão ainda estão: o italiano Le Meraviglie (Alice Rohrwacher), a segunda mulher em competição ganhou elogios crescentes com sua história de uma familia cuidando de uma fazenda de mel. A diretora, novamente, foca na adolescencia feminina. Timbutktu (Abderrahmane Sissako) foi exibido logo no começo, nunca foi considerado favorito, mas sempre elogiado por seu drama contudente sobre todas as mazelas religiosas que vive o norte da África, corre por fora em muitos prêmios.

Cannes2014DeuxjoursunenuitFavoritos, chegamos a eles. Pelo que tenho apurado são 4. Porém, um deles com chances nulas de tão reduzidas. Deux Jours, Une Nuit (Jean-Pierre e Luc Dardenne), os irmãos belgas já ganharam a Palma duas vezes. Nunca alguém ganhou uma terceira. A regularidade deles é impressionante, desde A Promessa que eles lançam um filme a cada 3 anos, e sempre estão entre os premiados. Não deve ser diferente, Marion Cotilard é a principal favorita (mas há muitas competidoras) ao premio de atriz. O filme é um fábula moral, um final de semana e uma mulher tentando mendigar seu emprego aos colegas de trabalho.

winter-sleep-cannes-2014-3Winter Sleep (Nuri Bilge Ceylan), o turco é um daqueles que está cada vez mais próximo da Palma, ontem ganhou melhor filme pela Fipresci (ano passado quebrou-se a maldição, mas normalmente quem ganha o Fipresci não leva a Palma). Desde que saiu o lineup eu já considerava ele, e o russo, como os favoritos, e os dois realmente encabeçam a lista. São 3 horas na Capadócia, ao estilo de Ceylan, poucos diálogos, tom poético, cavernas, pequenas tramas com um ator aposentado (Haluk Bilginer, outro com chances) no centro delas.

adieuAdieu au Langage (Jean-Luc Godard), seus filmes estão sempre em Cannes, em mostras paralelas, sua presença na competição significava alguma coisa. Desde os anos 80 que seu cinema chegou a um ponto de agradar a um seleto público (bota seleto nisso), cada vez mais resmungão e de narrativa fragmentada. Dessa vez ele vez com um 3D, e a crítica saiu estarrecida. A sensação que dá é que ele acertou no tom do que vem fazendo há anos, e se aproveitando da nova tecnologia. Seria uma decisão corajosa dar a Palma a Godard, ele nunca ganhou, é um ícone do cinema de autor e uma quebra com todo o cinema tradicional. Mesmo não gostando de seus filmes mais recentes (exceção ao belo Elogio ao Amor), gostaria de ver Godard ganhando para dar essa quebrada com o formalismo protocolar.

Leviathan 1Mas, se eu tivesse que colocar meu rico dinheirinho em alguma bolsa de aposta, ele iria para o russo Leviathan (Andrey Zvyagintsev). Muita gente torce o nariz, eu, particularmente, gosto de seus filmes. Começou com O Retorno (Leão de Ouro em Veneza), depois The Banishment passou batido, e o último, Elena foi premiado na Un Certain Regard (há quem reclame que devia ter passado na competição, naquele ano). Sua exibição de gala na quinta-feira é sinal de prestígio dentro da competição. E, se não é unanimidade, a proporção de admiradores é muito superior, não foram poucos os que pediram a Palma após sua primeira exibição. Poderia ganhar ator, roteiro, direção, mas a aposta é mesmo para ser a Palma de Ouro. Veremos. O filme é ambicioso, com um título desses não era para menos. O filme parece ser um contundente drama sobre a vida russa contemporanea, a corrupção política, a presença da igreja Ortodoxa, o poder, a polícia.

Fora da Competição, além de Jauja, destaques para Welcome to New York (Abel Ferrara) contando o escandaloso caso de Dominik-Strauss. Force Majeure (Ruben Ostlund) sobre o poder de avalanche. O polêmico, e eleito melhor filme na Un Certain Regard, White God (Kornél Mundruczó) e os ucranianos The Tribe (Myroslav Slaboshpytskiy) sem falas, personagens surdos-mudos, e o documentário Maidan (Sergei Loznitsa) sobre os recentes acontecimentos políticos na Ucrânia.

Neste e no próximo sábado, infelizmente, não será possível o post regular com os links da semana. Estou em viagem, e por aqui o WordPress é bloqueado. Mas não ficaremos sem atualizações. E como o Festival de Cannes está chegando, e em breve saberemos quais filmes será escaladas para a Mostra Competitiva, e demais mostras paralelas. Resolvi realizar uma pequena pesquisa e postar links sobre alguns dos mais interessantes filmes que devem estar escalados para Cannes. Portanto, divirtam-se e ficaremos na expectativa.

Clouds of Sils Maria (de Olivier Assayas) dizem já estar confirmado em Cannes. [IonCinema] [Omelete] [Wikipedia]

Fairyland (de Sofia Coppola) [Variety] [Empire] [Ipsilon] [Deadline]

Maps to the Stars (de David Cronenberg) [Website do Filme] [Collider] [IndieWire]

Two Days, One Night (de Jean-Pierre e Luc Dardenne) [Pipoca Moderna] [Wild Bunch] [The Film Stage]

The Assassin (Hou Hsiao-Hsien) [David Bordwell] [Filmbiz.Asia] [Next Projection]

Horizontal Process (Abbas Kiarostami) [IndieWire][Variety]