Posts com Tag ‘Jean-Pierre Léaud’

faceVisage (2009 – FRA/TAW) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Um diretor de cinema taiuanes (Lee Kang-Sheng) vai a Paris filmar, no Louvre, sobre o mito de Salomé. Falar que ele tem problemas de comunicação por não falar inglês/francês, que sua mãe morre durante as filmagens, ou que o ator protagonista é de um temperamento indomável (Jean-Pierre Léaud) é uma forma de tentar resumir a sinopse. Eu sei que acabei de fazer isso, mas é extremamente desnecessário.

Isso porque Tsai Ming-Liang segue com seu estilo narrativo (posionamento de câmeras em ângulo, a água que inunda um apartamento, inserções musicais, o sexo como forma de desejo primitivo), mas, dessa vez, num nível ainda mais elevado do abstrato. Um conjunto de cenas que seguem uma ordem lógica, mesmo que pareçam não se esforçar no contar uma história. Trata-se de seu maior trabalho de percepção, um encontro com o mundo das artes, um flerte com a cultura europeia (um quê de Truffaut aqui e ali).

irmavepIrma Vep (1996 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Sensacional a transposição de Olivier Assayas do mundo atrás das câmeras. René Vidal (Jean-Pierre Léaud) é um daqueles cineastas que já viveu seus momentos, buscando reencontrar-se aceita dirigir o remake de Les Vampires (clássico mudo do cinema francês). Sua escolha para Irma Vep (anagrama da palavra Vampiro, em francês) é uma atriz chinesa (Maggie Cheung), que sob sua ótica é a perfeita tradução de Irma Vep: sensual e misteriosa.

O caos começa quando da chegada de Maggie a Paris, a equipe de produção está toda confusa, as brigas e disputas intermináveis no set. Assays se utiliza muito de planos-sequencia, seja dentro da produtora, ou do set, intensificando esse caos entre a equipe de produção. De outro lado, Maggie se vê fascinada pella cidade e por sua personagem. Assayas mistura bem esse conjunto de elementos, trazendo o enigmático ao rocambolesco do ritmo das gravações. Um pequeno deleite do mundo por trás do cinema, filmado de maneira vivida, simples e sofisticada.

antoine-et-coletteL’ Amour à Vingt Ans: Antoine et Colette (1962 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Assistir a saga completa de Antoine Doinel e perder esse pequeno episódio seria lamentável, como um quebra-cabeças incompleto. Você consegue distinguir perfeitamente a figura, mas as peças ausentes incomodam, não te deixam apreciar o todo. Primeiro porque perder algumas das peripécias de Doinel (Jean-Pierre Léaud) é uma perda irreparável, começando pelo despertador, atrelado à vitrola, que o desperta pelas manhãs.

Este curta de Françcois Truffaut é dos cinco segmentos desse filme-coletivo sobre o amor, filmado em diversos países com outros renomados diretores no comando. Nosso desajeitado, Don Juan, é o rei das paixões definitivas, dos amores avassaladores. Avista uma linda jovem e a deseja compulsivamente, passa a segui-la, faz de tudo para se encontrarem pelo bairro, até que surge a oportunidade de iniciarem uma conversa. Entre eles surge amizade, pelo lado dela não passa disso. Doinel passa a freqüentar a casa de Colette (Marie-France Pisier), a família da garota se encanta pelo rapaz, praticamente o adota. Ele se muda ao apartamento em frente ao dela, declara-se, mas ela só o tem como amigo.

Como descrever a satisfação ao assistir Doinel na varanda de sua nova morada, e Colette e sua família surpreenderem-se com tal surpresa. Só mesmo Doinel seria capaz de uma deliciosa sandice como essa. Sua forma de abordar a moça, a maneira como descreve seu trabalho na indústria fonográfica, a hilária cena da tangerina. E principalmente quando se recorda, com o amigo que o acolheu em Os Incompreendidos, o momento em que o pai do garoto vê fumaça no quarto e finge não ver os pés de Antoine escondido atrás da cama. Já estou com saudades do inesquecível Doinel.

 

 

oamoremfugaL’Amour en Fuite (1978 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Uma fogosa loira não deixa Doinel terminar de se arrumar para sair, apaga as luzes do quarto e o seduz novamente. Enquanto são apresentados os créditos iniciais, ao fundo a imagem nublada traz apenas indícios do que ocorre, me pergunto: “E Christine?”. A resposta vem logo a seguir, o divórcio consensual de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) e Christine (Claude Jade) põe fim definitivo àquela história de amor.

No momento a relação amorosa de Doinel é com a vendedora de discos Sabine (Dorothée). Ele hesita em morarem juntos, há uma crise instaurada na relação. Talvez O Amor em Fuga seja mais do que um título, quase um estado de espírito do próprio sentimento. O amor dá sinais de alta mobilidade, de inconstância, como se estivesse fugindo o tempo todo. Nessa busca incessante de Doinel pelo amor, eis reaparece Colette (Marie-France Pisier), uma antiga paixão da juventude (do curta Antoine e Collete). Esse encontro resgata o passado e sinaliza caminhos para o futuro.

Aquela sensação de que cada frase, cada passo, cada personagem, flutuam à frente das câmeras é um trunfo que François Truffaut resgata em cada capítulo dessa saga. Esse filme é uma espécie de homenagem aos anteriores (ou de caça-níquel para fazer dinheiro a Truffaut). Em constantes flashbacks, cenas dos filmes anteriores são resgatadas, complementando passagens mau-explicadas, tudo forçado pelo romance autobiográfico de Doinel que é lido por Colette. Truffaut precisava desmistificar alguns pontos e exaltar o amor como argumento chave de toda essa história, o filme compromete-se para agregar valor aos anteriores.

Com o passar dos anos, Doinel não perdeu o estilo apressado e desajeitado de ser, o humor cedeu espaço para um pouco de maturidade e a impulsividade continua como característica presente em seu dia-a-dia. Um amigo afirma que Doinel sempre procura o mesmo tipo de mulher, ele retruca reafirmando que se apaixona primeiro pela família. Os relacionamentos nos deixam mais experientes, aprendemos a lidar melhor com as crises, mas sempre estamos procurando, a mesma coisa, da mesma forma. Aquela câmera em movimento brusco, alternando-se entre dois casais que se beijam, ao precioso som de L’Amour en Fuite (cantado por Alain Souchon) é a finalização lisonjeira para um personagem que fez de sua vida uma inquietante viagem, e que nos deixou acompanhar cada instante de seu legado.

domicilioconjugalDomicile Conjugal (1970 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Um franzino e elegante par de pernas, vestidos com meias-fina, cruza a lente da câmera ao caminhar por uma calçada num vai-e-vem indeciso. A jovem é tratada polidamente pelos vendedores, mas com gosto e delicadeza os corrige prontamente: “Senhorita não, senhora”. Os personagens dispensam apresentações, Antoine Doinel e Christine (agora Doinel) vivem como numa pequena vila em Paris. Ela leciona, em casa, aulas de violino, enquanto ele trabalha tingindo flores brancas para uma floricultura.

Toda a abordagem dessa nova aventura de Doinel circula sobre a famigerada “vida de casado”. François Truffaut explora os pontos que acredita serem triviais a um matrimônio. Nele estão contidos os momentos românticos, as pequenas brigas, jantares com os parentes, a jovialidade dos primeiros anos de casados, a infidelidade masculina (pensamento extremamente machista), a crise e suas conseqüências. Aliás, o pensamento machista de Truffaut pode ser percebido em outros detalhes, normalmente ligados à infidelidade, caso da relação prostituição/casamento feliz.

O humor constante e usado de forma sutil, as características singulares de Doinel, o falso ar sem compromisso do filme anterior permanecem. A história é apimentada com a aparição de uma oriental na vida de Doinel, sua exótica beleza o atrai a ponto de Christine descobrir sua traição, mesmo com um filho pequeno o relacionamento declina. Essa é mais uma maneira de Truffaut “trivializar” este casamento, mostrar que em sua visão o amor é inconstante, volúvel.

Um grau de maturidade mais acentuado nos dois personagens centrais pode ser notado ativamente, esse processo entre a juventude e a fase adulta (onde está incluído o casamento) faz parte da transição. As recaídas infantis tornam-se saborosíssimas passagens. Jean-Pierre Léaud não perde o estilo e Claude Jade a ternura. As saídas no roteiro encontradas por Truffaut apenas aproximam o público dos personagens. A graça e o cômico permeiam cada situação numa colcha de gêneros que desfilam por essa comédia (drama, romance e até suspense dão o ar da graça). O epílogo tem representatividade muito maior do que ser o fim, de sagaz humor ele idealiza mais uma corriqueirice conjugal.

beijosproibidosBaisers Volés / Stolen Kisses (1968 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Agora oito, talvez dez anos mais velho, o garoto incompreendido Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) cresceu, e tornou-se um zero à esquerda no sentido sarcástico da expressão. Por motivos pessoais alistou-se no exército (detalhes são desnecessários), e após três anos foi expulso por incapacidade (chispa). Uma amostra da completa inaptidão deste jovem para qualquer atividade que seja. Sem emprego, Doinel encontra auxílio na acolhedora família Darbon, e seus interesses vão além, já que há tempos sente imenso amor pela filha do casal, Christine (Claude Jade).

“Mesmo quando eu te amava, não te admirava”, seria assim que Doinel pretendia conquistar o coração da doce Christine? Talvez não fosse o caminho mais fácil, porém é dessa maneira que a juventude iça suas relações, o desprezo mesmo involuntário é arma eficiente nos assuntos do amor. Pesa também a inexperiência, exemplo maior é a cena em que Doinel corre desesperadamente após sair do exército. O destino é um hotel fuleiro onde algumas prostitutas batem ponto. A testosterona a mil, a porta do quarto se fecha e ele tenta em vão lascar um beijo, imaginava que naquela relação haveria algo além da satisfação física.

O viço da juventude é notado em cada fotograma, o cineasta François Truffaut faz questão de situar o filme dentro do mundo de seu personagem central. Abordando o lado mais romântico da juventude, os aspectos que defrontam o amor, a descoberta do sexo, e a maneira singular com que esses jovens lidam com estes assuntos. A atração de garotos por belas e experientes mulheres e a fascinação que homens adultos sentem por lolitas. Truffaut manipula o desajeitado Doinel para aglutinar com inteligência dissonante todas essas abordagens.

Jean-Pierre Léaud é personificação do atrapalhado Doinel, o roteiro quis que ele acabasse trabalhando numa agência de detetives, palco magistral para o corrente e deleitável humor. Enquanto somos tragados pelas estripulias do rapazote, Truffaut busca consistência em suas abordagens com a leveza que só ele sabe guiar. Beijos Proibidos não é o segundo capítulo da saga de Antoine Doinel por acaso, em dois momentos o título literalmente entra na história (um deles já citado) e em ambos é a juventude o maior obstáculo para se atingir objetivos. Truffaut também não perde a militância, abre seu filme homenageando Henri Langlois com a câmera apontando para a Cinemateca Francesa trancada com correntes, espaço fundamental para formação do próprio cineasta e grande merecedora dessa incontestável lembrança.