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A Chinesa

Publicado: novembro 29, 2012 em Cinema
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La Chinoise (1967 – FRA)

Jean-Luc Godard joga as fórmulas narrativas fora, o conceito de contar uma história pouco importa, a estrutura retilínea. Vai além, ele coloca mais lenha na fogueira que no ano seguinte desencadearia os acontecimentos de 1968. Seu filme sobre um grupo de jovens comunistas que criam uma organização terrorista comunista que planeja atos violentos em prol de sua visão política é um mergulho completo na estrutura racional desses anarquistas.

O filme não vai além de teorias, discussões políticas, frases escritas no quadro negro e pontos de vistas baseados em Mao Tsé-Tung, praticamente transformando sua figura em algo pop. Mais do que um discurso panfletário, ou da nítida crítica aos EUA, Godard está questionamento o mecanismo de funcionamento do cérebro daqueles jovens, suas motivações, a aglutinação da juventude e efervescência cultural de quem está engajado, pessoas com fibra e ideais.

A metralhadora do cineasta está apontada para todos os lados, cuspindo conceitos e discursos, a câmera desliza pela varanda enquanto focaliza os jovens atentos ou as paredes que formam aquela sala, tudo transpira a questões políticas, filósofos e comunistas cultuados como heróis da música pop, muito além das discussões políticas (que se pensarmos no contexto histórico, o filme foi lançado a beira do auge da revolução estudantil) está a capacidade de Godard em captar as vibrações e motivações juvenis, em fugir do didático para trazer a tona o anarquismo particular de cada um desses jovens politicamente engajados.

Der Leone Have Sept Cabeças (1970 – ITA/BRA)
 
Em seu primeiro filme no exílio, Glauber Rocha direcionava sua verborragia energizante à África. O cineasta vê as proximidades com o continente sul-americano e novamente cria um filme panfletário, engajado socio-politicamente. Em diálogos que mais parecem monólogos teatrais ele expõe o colonialismo, mistura a ânsia de independência e a colocação no poder do zumbi (e só de estar no poder mostra a mudança no trato, nas vestimentas) e a presença de revolucionários sul-americanos. Entre aquelas cores, aquela presença tribal africana, e os discursos repetitivos que parecem pregar na mente como numa lavagem cerebral, Glauber dá novas mostras de sua visão política anárquica. Num filme esquemático e fragmentado o cineasta que estava a frente de seu tempo em muitos conceitos e anseios, apresenta aqui um filme de difícil apreciação, completamente despegado da lógica de uma construção de roteiro para focar unicamente na força de seu discurso plural.

Les Quatre Cents Coups (1959 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

De crítico da Cahiers du Cinema a um dos cineastas precursores daquele que talvez seja o maior movimento cinematográfico da história, a Nouvelle Vague, François Truffaut surgia definitivamente como diretor de cinema aqui, com um filme tão autobiográfico e que causou furor no Festival de Cannes. Nascia a saga de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), que nesse filme resumia a própria vida do jovem ator, assim como a do diretor. Duas vidas coincidentes se encontrando ao acaso do destino.

O filme caminha suntuosamente pela perda da inocência, a deliberada vontade de impor-se, a autoafirmação tão pertinente à juventude. Truffat caminha pelo labirinto da idade, parece conhecer seus atalhos, abstraindo a inconstância pueril, os acessos rebeldes e a maneira jovial e imatura de uma personalidade em processo de formação. Doinel vive em seus treze anos a vontade de descoberta, a certeza de já poder caminhar por suas próprias pernas.

Porém a liberdade desejada esbarra no autoritarismo do professor, seu seguido implacável, ou no desprezo da mãe e a fraca presença do padrasto. Como toda criança num casamento esfacelado, ele se torna um peso, foge de casa, prefere viver ao esmo nas ruas de Paris sob a guarida de seu fiel amigo René (Patrick Auffay).

De pequenos delitos ao reformatório, Doinel é a figura da força da libertação pelo próprio espírito libertário. Parece incorrigível, quando é apenas carente, perdido, marginalizado pela falta de estrutura a sua volta que o apoiasse. Na cena da entrevista ele se apresenta sem máscaras, a verdade de uma criança exposta de maneira crua, totalmente nua, Truffaut alcança o ápice de seu cinema logo em seu primeiro filme.

osincompreendidos2Jean-Pierre Léaud possui um desejo de revolta enrustido, um ar infante, mistura com sapiência essas explosivas e peculiares formas de se expressar alcançando com maestria a onipresença de um garoto dessa idade. Truffaut faz de seu filme de estreia um acontecimento atemporal, que nunca perde-se pelo tempo, sentimentos vivenciados por jovens de todas as partes, de todas as localidades. Problemas rotineiros que permeiam gerações, a falta ou não de tato dos familiares provoca a predisposição para as escolhas dos filhos. Truffaut enlaça seu roteiro com um humor leve, tolo, em imagens de profunda poesia, a chegada ao mar, a citada entrevista com a psicóloga, enveredamos por respostas para compreendermos parte das causas, nunca a solução.