Posts com Tag ‘Jeanne Moreau’

anoiteLa Notte (1961 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

À tarde, a visita a um amigo hospitalizado. Pequenos sinais do desgaste matrimonial, os 10 anos de vida juntos pesam numa relação quase resumida apenas como convívio. Na segunda parte da Trilogia da Incomunicabilidade, o clássico de Michelangelo Antonioni parte de uma premissa simples, um dia na vida dessa casal, dia este encerrado com uma festa, numa mansão, na alta sociedade de Milão.

No mesmo ano, Alain Resnais lançava O Ano Passado em Marienbad, em escalas diferentes, porém ambos se apresentam numa desdramatização narrativa Anotinioni é mais retilíneo na história, carregam sempre o drama para a impossibilidade de comunicação calcada nas cicatrizes diárias de um relacionamento, é mais duro e menos poético que Resnais.

O escritor (Marcello Mastroianni) de sucesso, e a esposa (Jeanne Moureau) encontra na mansão o resumo de suas decepções e necessidades de liberdade, até mesmo toques de vingança, muito mais trazidas pelos comportamentos dos parceiros. Eis que entra em cena a filha (Monica Vitti) do industrial, dono da mansão, jovem, arisca, geniosa. Ela representa a total libertação, a rebeldia pelo conforto financeiro familiar. Naturalmente nascem jogos comportamentais, a comunicação nebulosa, a decepção, o peso do matrimônio numa noite em que os limites são reconsiderados, e um relacionamento é colocado na tênue linha de sua salvação ou naufrágio.

faceVisage (2009 – FRA/TAW) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Um diretor de cinema taiuanes (Lee Kang-Sheng) vai a Paris filmar, no Louvre, sobre o mito de Salomé. Falar que ele tem problemas de comunicação por não falar inglês/francês, que sua mãe morre durante as filmagens, ou que o ator protagonista é de um temperamento indomável (Jean-Pierre Léaud) é uma forma de tentar resumir a sinopse. Eu sei que acabei de fazer isso, mas é extremamente desnecessário.

Isso porque Tsai Ming-Liang segue com seu estilo narrativo (posionamento de câmeras em ângulo, a água que inunda um apartamento, inserções musicais, o sexo como forma de desejo primitivo), mas, dessa vez, num nível ainda mais elevado do abstrato. Um conjunto de cenas que seguem uma ordem lógica, mesmo que pareçam não se esforçar no contar uma história. Trata-se de seu maior trabalho de percepção, um encontro com o mundo das artes, um flerte com a cultura europeia (um quê de Truffaut aqui e ali).

O Gebo e a Sombra (2012 – POR/FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A construção rigorosa de teatro filmado, o ambiente soturno, as interpretações contidas e o tempo de cada cena arrastados de forma serena. Manoel de Oliveira entrega mais um filme ao público, daqueles que ficam mais saborosas após a sessão. O ritmo lento, os planos fixos e o cenário único não colaboram ao deleite de cada cena, mas o mestre centenário sabe costurar sua história sobre honestidade e cobiça, e principalmente sobre honra e proteger entes queridos. A familia conclama o reaparecimento do filho ausente, provável ladrão, quando aparece (Ricardo Trêpa) é que, os discursos e preocupações dos que estavam naquela mesa de jantar, começam a se encaixar. Um pequeno conto narrado com rigor autoral, colocando a ética moral contra si próprio.

osamantesLes Amants (1958 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Uma ode a liberdade social e sexual feminina. Muito além de um filme sobre infidelidade feminina, na alta sociedade francesa, a fita destaca-se por retratar os primeiros passos da indpedência de escolha, desse feminimsmo orquestrado pelo impuslso sexual. O choque é inevitável, no filme, personagens admiram-se com a mulher que toma decisões individualistas e despreocupadas, na platéia é o seio desnudo de Jeanne Moreau que causa espanto, por tremendo atrevimento numa cena lírica, doce.

Jeanne Tournier (Jeanne Moreau) é casada com um importante editor de um jornal de Dijon. Entediada com sua vida, no interior da França, hospeda-se, frequentemente, na casa de sua grande amiga, Maggy Thiebaut-Leroy, em Paris. Na cidade-luz, convive na alta-sociedade, e mantém affair, com o galanteador jogador de pólo Raoul Flores (José Luis de Villalonga). Logicamente a situação tornar-se-á insustentável, cansado de não dispor da esposa em casa, Henri (Alain Cuny) implica com as viagens, cada vez mais frequentes. Deseja um jantar, em sua casa, com presença de Raoul e Maggy. É nesse ponto que entra de supetão na história o arqueólogo Bernard (Jean-Marc Bory).

Baseando-se no livro Point de Lendemain, escrito por Dominique Vivant, Louis Malle causa no público a sensação de estar dançando uma valsa durante a projeção, tal clima levemente envolvente o diretor imprime. Se a posição libertária da época não fosse tão importante, o filme pareceria fútil, tal qual a sociedade retratada. Ainda que coberto de alguns requintes e narrado de forma ajustada. Mas é na audácia que a obra ganha importância relevante, e é com Bernard que o enredo ganha contraponto. Nas diferenças sociais e ideológicas, o amor prova que esses pontos pouca diferença fazem.

O romantismo dessa fase do filme transborda pela tela, as sensações intensas vividas pelos personagens encontram o público ávido por elas. Se bem que, desde o início do jantar, na casa dos Tounier, o filme ganha diálogos e um jogo de palavras ásperas, que guardadas as devidas proporções, poderiam estar incluídas no célebre Quem Têm Medo de Virginia Woolf?. Se a futilidade da egocêntrica Jeanne Tournier, que nem à filha dedica atenção, contamina a primeira metade, o transbordar de amor retratado pela diva Jeanne Moreau perfaz o que se esperava de Louis Malle. Um belo filme se olhado de maneira diferenciada.

Jules et Jim (1961 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Um filme sobre o amor livre? Adaptando o livro de Henri-Pierre Roché, o cineasta François Truffaut revive a Paris da Belle Époque com toda sua efervescência, o mundo das artes impulsionando jovens pelas ruas, cafés e boates. Transpirando um mundo de descobertas, de pontos de vista, opiniões defendidas com afinco e uma soberba compassível. A ebulição parisiense transcendendo aos corações que quase nos enganam em não sofrer.

Um narrador em ritmo quase alucinante apresenta o início da sólida amizade entre o francês (Jim – Henri Serre) e o alemão (Jules – Oskar Werner) nos primórdios do século XX. Inseparáveis, essa amizade de tão intensa, chega ao ponto de não ferir o amigo ser a maior preocupação quando cada um defende sua pátria na Primeira Guerra Mundial. Truffaut resgata a suavidade das relações e a fragilidade dos sentimentos no encontro desses três, Jules conhece Catherine (Jeanne Moreau), se apaixona, é o primeiro sinal de ruptura da estrutura, ele pede ao amigo “ela não”.

O triângulo amoroso é inevitável, Catherine é um espírito livre, Jules e Jim mantêm a amizade como uma rocha. Nasce um relacionamento tão complexo e sem fronteiras, Truffaut mantém o ritmo narrativo acelerado, impõe a efervescência de Paris a esse estranho caso de amores faceiros, de instabilidade harmônica, de uma trama envolvendo liberdade e a completa ausência da sensação de posse. Mas também brinca com congelamento de imagem, ou a sutileza da liberdade na corrida na ponte, se não são vidas sem limites, ao menos são sensações ilimitáveis.