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Loving

Publicado: abril 17, 2017 em Cinema
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Loving (2016 – EUA) 

Em Cannes, o ator Joel Edgerton declarou que o que mais o espanta é este tipo de filme ainda ecoar. É fato, Edgerton, mas não só ecoa, como anda mais em voga do que nunca. É a história de um casal interracional, lutando para ficarem juntos. Detalhe, lutando contra a justiça e a sociedade. Casados em 1958, em Virgínia, e a luta deles ajudou para que a Suprema Corte acabasse com a proibição de casamentos interracias nos EUA.

É uma longa batalha, de prisões e separações, de viver às escondidas, de preconceitos e provocações contra Richard (Joel Edgerton) e Mildred (Ruth Negga) Loving. O filme todo é narrado de forma sóbria, sem sair do tom, sem grandes arrombos, tal qual o comportamento de ambos os personagens, talvez seja o grande filme de Jeff Nichols (que vinha colecionando uma série de quases), mas aqui oferece espaço para duas grandes interpretações, além de não se entregar ao sentimentalismo barato que o gênero poderia oferecer.

É, sem dúvida, um dos destaques do ano, e merecia mais destaque do que tem tido. Imaginar que há cinquenta anos poderia haver uma proibição deste tipo, e que tantas pessoas realmente se importariam em perseguir um casal é um belo exemplo do quanto a humanidade ainda está longe de evoluir.

midnightspecialMidnight Special (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Na tv, o ano de 2016 já foi marcado pela série Stranger Things e todas suas referências (que viraram até piada) a famosos filmes dos anos 80 (ET, Goonies e outros). Porém, antes mesmo da série do Netflix fazer sucesso, Jeff Nichols lançava no festival de Berlim sua nova parceria com Michael Shannon, em temática parecida a toda essas referências.

Confesso que Nichols tem sido alvo de algumas decepções, seus filmes geram enorme expectativa e o resultado não tem respondido a toda a expectativa criada. E, dessa vez, a distância entre esperado x resultado foi ainda maior. Vejamos se Loving (seu novo filme que figura postulante a indicações ao Oscar) seja diferente.

Na trama, já entramos diretamente no jogo de gato e rato, um pai (Shannon) tentando proteger seu filho, a todo custo, de uma estranha seita religiosa e do próprio FBI. O garoto usa um óculo que cobre seus olhos, sem eles um estranho raio de luz sai de seus olhos. Entre as peças do quebra-cabeças, que lentamente começa a fazer sentido, a presença extraterrestre se torna cada vez mais evidente, porém sem a mística que os filmes dos anos 80 possuíam. Não se cria identidade nenhuma com personagens, resta uma perseguição que o cinema já apresentou versões mais inspiradas.

mudMud (2012 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Jeff Nichols não esconde sua inspiração em Mark Twain, dois jovens (Tye Sheridan e Jacob Lafland) navegando pelos afluentes do Rio Mississipi, com o pequeno barco a motor eles desbravam uma ilha, que acreditam ser deserta, um território só deles, pronto a ser explorado. Diferente do que o título nacional sugere, o filme é muito mais sobre dois garotos embarcando numa aventura, perigosa, do que a sugerida história de amor que move o sujeito misterioso (Matthew McConaughey).

Garotos aventureiros, corajosos, mas, acima de tudo, movidos por uma fé em alguns valores que os deixam mais fortes do que aparentam. Amizade e amor são fundamentais, mesmo que sejam apenas adolescentes e desconheçam os verdadeiros meandros de um relacionamento, como se o amor justificasse qualquer coisa. O encontro com o Mud, o estranho e faminto escondido na ilha deserta, cria laços de amizade, ouvem e acreditam piamente nas histórias do desconhecido, viajam pela própria imaginação atiçada por esse cara meio repugnante, meio sedutor.

mud2Essa mescla de amor marginal e personagens tão delinquentes (vide Reese Witherspoon, e até mesmo Sam Shepard), com a inocência de adolescentes que colocam a coragem (o amor, ou desejo por bens materiais) acima de riscos que eles nem sabem medir, oferecem um pouco dessa possibilidade de se enfeitiçar por entre arbustos e histórias que quase se materializam em contos de fada marginais.

Take Shelter (2011 – EUA)

Jeff Nichols conseguiu direitinho criar a atmosfera de tensão e loucura que o pacato Curtis (Michael Shannon) passou a sofrer, assim, de repente. Visões apocalípticas, pesadelos, medo desenfreado e uma obsessão pelo abrigo (aqueles lugares nas casas americanas para se proteger de furacões, por exemplo). O suspense psicológico, ganha leves contornos de filme de terror, mase seu foco é a leve desestruturação familiar e social de Curtis. Em poucos dias, o casamento com a doce Samantha (Jessica Chastain) e a relação com a pequena filha (Toya Stewart) ficam sob alerta. Sua própria visão do que é realidade, loucura e sensação de prever fatos, é colocada em xeque. O desfecho “equivocado” perde um pouco do brilho, de um filme nascido para a tensão.