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A Chegada

Publicado: novembro 28, 2016 em Cinema
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achegadaArrival (EUA – 2016) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A grandiosidade de Dennis Villeneuve agora chega ao espaço. Interessante como o cinema americano voltou a explorar ativamente esse gênero nos últimos anos após um curioso hiato. A abordagem do cineasta canadense é existencial, semelhanças facilmente perceptíveis com Arvore da Vida, de Terence Malick, até nos enquadramentos e distancia da camera de sua protagonista (Amy Adams). 

Passada essa primeira similaridade, podemos refletir do quanto Villeneuve busca inspiração em Kubrick e seu 2001 porque é pela incomunicabilidade que a narrativa desenvolve todo seu alicerce. Doze ovnis se espalham pelo planeta, imóveis. No misto de curiosidade e medo, os países se aproximam, tentam se comunicar enquanto participam do jogo diplomático com as demais nações (o que revelar e o que não revelar), ao invés de unir forças. 

A presença extraterrestre fica diminuída a capacidade linguística de desenvolver conhecimentos para estabelecer comunicação. Villeneuve usa como pano de fundo essa preocupação com o coletivo humano, mas realiza seu filme totalmente calcado nas experiências individuais de uma única pessoa (Amy Adams) e seus dramas pessoais a partir do contato com os heptapods. Dessa forma, o clima de mistério e interesse é canalizado na banalização individual quando o desfecho se encaminha.

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Captain America: Civil War (2016 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O ano em que o cinema viu os primeiros filmes de super-heróis brigando entre si. Batman vs Superman, e agora Os Vingadores (cada lado sendo liderado por Capitão América e Homem de Ferro) e muita porrada entre eles. E por mais que ambos tenham o fato gerador da briga muito parecido (a morte de inocentes e a responsabilidade dos heróis por estas mortes), Marvel e DC realizam filmes completamente diferentes. E a Marvel ganhou fácil essa disputa.

É outro produto essencialmente conciso dentro do que o estúdio vem apresentando como Universo Expandido, um novo ponto unificando personagens que foram lançados em filmes solo (Homem Formiga) ou que serão em breve (o novo Homem Aranha, ou o Pantera Negra). Como se apresenta como “filme-solo” do herói com esculo, e não um filme dos “Vigadores”, o humor não tem o mesmo tom exagerado, por mais que algumas piadinhas esteja espalhadas entre as cenas de luta. É, essencialmente, um filme de muita porrada intermediado por discussões quase políticas sob aceitar, ou não, a supervisão da ONU. Faltam personagens (Thor e Hulk), e se a disputa filosófica entre Rodgers e Stark parece bem desenvolvida, a tomada de partido dos demais nem sempre se configura tão politizada, chegando a parecer aquela pelada onde os capitães saem escolhendo seus times.

A primeira sequencia de ação (que dá uma saudade danada da sequencia de assalto ao banco do Batman de Nolan), em Lagos, culmina em todo peso dramático do filme, ainda que o momento tão intenso seja rapidamente cortado para um encontro dos heróis num escritório. É a constatação que os irmãos Russo tem a missão de explicar as razões da briga, mas não ir muito profundo nessas feridas.

Há ainda um vilão na trama, que tempera ainda mais essa disputa. E há também a dubiedade do Soldado Invernal, mas novamente a Marvel peca em não criar vilões poderosos e inesquecíveis, ou em subaproveitar tantos personagens que espalha em seu filme. É tudo arquitetado para colocar seus produtos em destaque, o filme funciona perfeitamente bem, por exemplo, para resgatar o Homem-Aranha, e lhe oferecer nova possibilidade de retomar o personagem. Enquanto isso, vai mais fundo nas diferenças e personalidades de Rodgers e Stark, até constatar o quanto esses personagens carregam consigo o peso da perda dos pais (podem reparar, todos carregam o fardo, tanto Marvel, quanto DC).

O filme vale mesmo pela monstruosa sequencia no aeroporto, ali o fã pode se decilicar com o melhor de cada um dos poderes de seus heróis, a porradaria convincente, ainda que alguns nem saibam direito porque estão lutando por aquele lado. E dessas fragilidades que os irmãos Russo teorizam seu filme, com lutas cheias de câmera tremida (algumas que beiram o insuportável) e as sacadinhas de humor, porém mostram fragilidades que podem cegar por vingança ou teimosia, tal qual a imperfeição humana.

vingadores2aeradeultronAvengers: Age of Ultron (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Passada a novidade do encontro dos heróis da Marvel, num mesmo filme, e das sequencias dos filmes individuais, chega a hora do novo encontro dos Vingadores, e surge uma pergunta: Até quando os filmes permanecerão tão iguais? Porque, se teremos uns três filmes por ano, dessa turma, há que se apresentar algo além, ou o público-pipoca se contenta com o humor característico e as expressões de efeito dos heróis diante dos vilões?

Criou-se um ciclo vicioso. O humor de Tony Stark (Robert Downey Jr) precisa estar presente nos demais heróis. O timing humorístico já não é o mesmo porque a fonte seca. Por isso, exceto as brincadeiras com o martelo do Thor (Chris Hemsworth), o rsto não funciona, mas passa batido dentro da farofada que Joss Whedon segue comandando.

O tema inteligência artificial parece a bola da vez em Hollywood. Primeiro foi o esquecível Chappie que retoma a ideia, e agora os Vingadores sofrem também com este advento (em breve teremos o novo Exterminador do Futuro). Ultron (James Spader) e Visão (Paul Bettany) são inserções interessantes ao mundo Marvel, porém ficam de escanteio, em detrimento as farpas trocadas entre Homem de Ferro e Cap. America (Chris Hemsworth), o romance complicado entre Hulk (Mark Ruffalo) e Viúva Negra (Scarlet Johansson), ou a tentativa de dar protagonismo ao Gavião Arqueiro (Jeremy Renner). A franquia parece mais preocupada em dar suporte aos próximos filmes, do que se estabelecer como um filme interessante. Prefere ser pura farofa.

aimigranteThe Immigrant (2013 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

A crítica está maravilhada. Na web, mundo à fora, os elogios são intermináveis. Depois de ter concorrido em Cannes 2013, o filme acabou guardado, ficou de fora da corrida do Oscar (Gray não é da turma que é indicada ao prêmio, mas está sempre presente em Cannes), e está sendo lançado agora, em muitos países. Em breve nos cinemas brasileiros.

A fuga é um tema recorrente no cinema de James Gray, normalmente a abordagem está focada no que/onde se tenta fugir. Os conflitos estão na origem, pouco importa o destino. Em seu quinto filme, Gray muda um pouco a ordem das coisas, Ewa (Marion Cotillard) foge das guerras do início do século passado na Europa. Busca nos EUA um local seguro, onde possa prosperar, como seus tios que lá estão. O filme todo ocorre no destino, no novo mundo, no local que carregava esperança até sua chegada.

Nada acontece como nos sonhos, Ewa acaba nas garras de um cafetão, Bruno (Joaquin Phoenix), a quem ela desenvolve uma estranha afeição, enquanto ele uma paixão inesperada. Pela elegância da condução de Gray mergulhamos pela Nova York underground, dos cabarés e da prostituição, com requinte, mesmo que para todos os bolsos. Gray não está denuncinado o tratamento pouco hispitaleiro dos americanos, não, longe disso. Seu filme é sobre o local da fuga, é sobre a esperança corrompida, a determinação de prosperar, de recuperar a irmã, do amor posto ao segundo, talvez, terceiro plano.

O mágico Emil (Jeremy Renner) é outro sinal de esperança, outra promessa envolta a interesses amorosos. Nasce um triângulo amoroso de amores que não se perpetuam. São imperfeitos, irregulares, tomados pela equação coração x razão. A querida imigrante polonesa passa apuros, abusos, Gray é sempre comedido em seus dramas, por mais pesados que possam ser. A passividade é bela, a maturidade soberana, e a beleza da discussão final é algo além do exemplar.

osvingadoresThe Avengers (2012 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Que grande farofa cozinhada pelo diretor Joss Whedon. Mas, como nas propagandas das Facas e da meias resistentes: “não é só isso”. A farofa é bem encorpada, tem tomate, linguiça especial, ovo, e outras iguarias pouco comuns. O plano da Marvel foi claro, lançar filmes, independentes de seus heróis, e depois uma franquia que os uma. O futuro promete que os filmes independentes também dialoguem com a franquia principal, garantindo assim mais bilheteria. Se alguns filmes deram certo (Homem de Ferro), outros fracassaram (Hulk, por exemplo foram duas tentativas e nada, só que dessa vez, Mark Rufallo foi quem roubou a cena e pode trazer nova vida ao Hulk).

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E nesse foi momento de unir os Vingadores através da S.H.I.E.L.D, prevalece, acima de tudo, o humor de Tony Stark, multiplicando aos demais. Deixando que as explosões ocupem o resto da história. Sinto falta de uma preocupação mais forte com vilão (Loki), e com uma história que não fosse plausível apenas com extraterrestres (porque desse modo ficou fácil). Mas, se o cinema é capaz de criar um produto para se saborear com pipoca e diversão, os Vingadores é o exemplo máximo.

The Legacy Bourne (2012 – EUA)

O pecado de Tony Gilroy é a mesmice. Começando por um início arrastado no Alasca, e reciclando a história do agente sem passado. Se Matt Damon não topou o quarto episódio, melhor começar novamente, com um outro agente secreto (Jeremy Renner) que possa render mais alguns filmes. Conteúdo? Usamos o mesmo e está tudo resolvido, afinal a fórmula funciona.

De repente é hora de acabar com o projeto, liquidar com todos os envolvidos. Rachel Weisz como a cientista que pode ser a salvação de nosso super agente vive as aventuras da CIA à sua captura. Coadjuvantes de luxo ficam sem função, afinal não há nada no filme, são cenas de perseguição construidas para entreter e tirar o folego dos que acreditam naquilo tudo.

Sem dúvida, o melhor do filme, é o título, legado é palavra que cabe perfeitamente nessa trama. Há duas sequencias de ação interessantes (serial killer no laboratório e a perseguição de motos), porém a segunda é tão cheia de cortes e com absurdos da física que a adrenalina termina diluida. É o peso da mesmice, espalhado por pílulas coloridas e mudanças genéticas que deixam os agentes da CIA “especiais” e aquele mar de explosões e tiroteios correndo o mundo.

Le Gamin au Vélo (2011 – BEL)

Poucos minutos de filme e eu já questionava, comparava, me perguntava como um garoto (Thomas Doret) pode ser tão persistente, e de uma forma impetuosa, visceral. O quanto de determinado ele possui, e uma determinação furiosa, um garoto fazendo tanto esforço para uma simples ligação telefônica ao pai, queria pegar emprestado essa determinação para alguns momentos da minha vida. Não é o melhor, Rosetta continua sendo a grande obra dos irmãos Dardenne, mas talvez seja o melhor resultado do cinema naturalista dos Dardenne, esse diálogo com a Nouvelle Vague funciona aqui de maneira consistente. Uma narrativa fluída, sempre com a marca pessoal dos cineastas (de temas, a câmera na nuca dos personagens, ausência de melodrama), tratando de forma tão simples temas tão urgentes. O garoto vive num orfanato, procura o pai (Jérémy Renner, seu personagem quase poderia justificar o filme como uma continuação de A Criança), faz loucuras por sua bicicleta, por sua volúpia incisiva conquista a cabeleireira (Cécile de France) que passa a encontrá-lo aos finais de semana.

Está tudo ali, a fúria desse garoto renegado pelo pai, a necessidade de autoafirmação, a rebeldia ao carinho, o clichê da inocência perdida, ainda assim dono de um bom-senso que a idade não lhe traria (talvez tenha adquirido na vida). Jean-Pierre e Luc Dardenne diluem o melhor do seu estilo, sem invencionismos, sem paternalismo a seus personagens. Eles erram, eles pagam e sofrem as conseqüências. Não há vilões, mas sim julgamentos morais, a quebra dos limites éticos, e uma bicicleta por onde o garoto cruza as cidades pacatas de uma cidade belga, entre sua inocência e a violência que ele reflete.