Posts com Tag ‘Joachim Trier’

The Worst Person in the World

Publicado: novembro 10, 2021 em Cinema
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Verdens verste menneske / The Worst Person in the World (2021 – NOR)

Não faz tanto tempo que o cinema americano colocou sob os ombros de Frances Ha o retrato de parte de uma geração inconfortável com regras estabelecidas, ou pelos menos com os caminhos. Jovens meio perdidos (aos olhos dessas regras), facilmente entediados, e que experimentam muito, e por isso não finalizam projetos. O novo trabalho de Joachim Trier é uma versão norueguesa desse tipo de jovem, que ainda busca suas respostas tanto no quesito amoroso, quanto no profissional, além dos triviais choques familiares. Nesse ponto que a interpretação de Renate Reinsve (premio de melhor atriz em Cannes 2021) se destaca porque ela consegue soar como independente e determinada, ao mesmo tempo em que claramente busca resposta para várias perguntas: qual profissão quero seguir? Quero ter filhos? Esse é realmente o homem com quem quero manter um relacionamento?

O cinema de Trier tem essa pegada pop (trilha, ritmo levemente acelerado) que flerta bem com os dilemas da protagonista, com os momentos românticos, com a leveza de uma sapeca invasão de um casamento. Outra característa forte de seu cinema é a carga dramática, e prncipalmente nesse filme nos personagem que orbitam mais seu redor, na segunda metade, é onde o filme parece mais questionável. Não chega a sugerir que todos precisam desmoronar para ela se encontrar, mas como em seus filmes anteriores, essa parte das tramas está sempre muito carregada e bem menos orgânica.

Thelma

Publicado: novembro 29, 2017 em Cinema
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Thelma (2017 – NOR) 

Bastante promissor em sua metade inicial, a nova empreitada do cineasta norueguês Joachim Trier. A universitária de pais católico e ultraprotetores, descobrindo liberdades e uma sociedade cujs tentações provocam sua criação ortodoxa e claustrofóbica. O clima de sobrenatural ajuda nessa construção opressora, enquanto os desejos sexuais reprimidos começam a pular da tela como alucinações.

Na segunda parte, o roteiro explica melhor sobre os poderes de Thelma, os perigos que ela causa à sociedade e a forma com que seus pais sempre lidaram com ela. É nesse momento que o filme escapa das mãos de Trier, perde-se a angustia aflitiva da jovem pela necessidade de flashbacks e segredos trancados que elucidam a Thelma sobre quem ela é, mas deixam a narrativa cinematográfica bem menos insinuante do que antes.


Joachim Trier na Toca: Oslo, 31 de Agosto (2011), Mais Forte que Bombas (2015)

 

maisfortequebombasLouder than Bombs (2015 – NOR/FRA/DIN) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A carreira do norueguês (nascido na Dinamarca) Joachim Trier surge meteórica pelos festivais europeus, seu primeiro filme já correra por Rotterdã e Karlovy Vary. Mas foi mesmo o grande destaque de Oslo, 31 de Agosto (Un Certain Regard) já o credenciaram para que seu próximo trabalho chegasse a competição principal de Cannes. E por mais que a produção seja europeia, os atores são americanos, dando-lhe uma visibilidade comercial bem maior.

A narrativa tenta embaralhar as informações, começa com Jonah (Jesse Eisenberg) no hospital segurando seu filho recém-nascido (esses primeiros instantes lembram o cinema atual de Terrence Malick), o encontro inesperado com a ex-namorada (Rachel Brosnahan, de House of Cards), o corredor claustrofóbico do encontro no hospital. Depois o pai (Gabriel Byrne) tendo que lidar com os detalhes da exposição em homenagem a sua esposa (Isabelle Huppert), fotógrafa renomada recém-falecida. Por fim, o outro filho do casal, o adolescente (Devin Druid) que guarda a agressividade da incompreensão misturada com a tristeza calada pela morte da mãe.

Trier desenvolve essa família em plena ebulição, outro dia alguém falou em dramas-de-pessoas-brancas. Claro que estava criando um tema pejorativo, querendo falar de dramas de vidas burguesas. E o filme segue realmente esse tom, são vidas que nunca sofreram de dificuldades financeiras. O filho que encontra refúgio no videogame para não se comunicar com o pai, o novo adulto ainda inseguro das escolhas que fez para-a-vida-toda, e todo o peso da desestabilidade que pode ser causada, tanto pela morte, quanto por um casamento frustrado.

Lentamente, o personagem adolescente se torna o verdadeiro centro das atenções, a primeira paixão juvenil, os textos autobiográficos que resumem tão bem aquela personalidade reclusa, e as interferências de pai e irmão que nem sempre são ouvidas. Trier busca aprofundar tudo e todos, e algumas coisas acabam funcionando melhor do que outras, nesse mar de irregularidade, há pontos interessantes, e uma proposta de cinema que tende a solidificar.

Oslo-31-de-agostoOslo, 31. August (NOR – 2011) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Drogas, reabilitação, algum tempo internado e distante do mundo. Reintegração é a palavra de ordem, mas não é fácil encarar amigos e família, reiniciar a carreira profissional e resistir às tentações. O diretor Joachim Trier despontou com sua visão realista e consistente da vida de um (ex) viciado.

O filme aborda apenas um dia na vida de Anders (Anders Danielson Lie), mas não um dia qualquer, e sim aquele em que ele volta a encarar tudo que prosseguiu enquanto ele parou no tempo. Interessante observar a vida dos que estão na casa dos 35 anos, aqueles que já casaram e tiveram filhos, os que ainda vivem a vida louca da juventude.

Os medos e anseios, as decepções, em torno disso há a situação de Anders, que duvida de si próprio, que tenta buscar dentro de si a força para lutar, mas que está tão frágil quanto todos que reencontra. Trier nos poupa do passado (o flashback do início é sobre a cidade, não sobre Anders), foge das mazelas dramáticas do sofrimento da era viciada, e encara de frente a realidade de quem não confia em si mesmo.