Posts com Tag ‘João Miguel’

eraumavezeuveronicaEra uma Vez Eu, Verônica (2012)

Verônica come, chora, transa, trabalha, bebe com as amigas, fala com seu gravador. Médica recém-formada, busca tratamento à sua própria alma. Não brilha, não vive a felicidade, não ama. Marcelo Gomes não consegue ir além de um O Céu de Suely 2, sem inspiração. O que havia de vibrante naquele filme, aqui soa como melancolia explícita. O vazio da alma representa o, praticamente, vazio do filme, como o apartamento que sofre com vazamento e não há quem conserte. Abre e fecha com uma sequencia de orgia na praia, uma espécie de libertação para quem vive tão presa entre a falta de respostas e a ausencia de alegria no viver.

(2012)

Se fosse eu professor de história, não teria dúvidas, levava o dvd do filme de Cao Hamburger aos meus alunos e teria uma aula completa, didática. Essa é a palavra que melhor resume o filme que traz a biografia dos irmão Villas Boas, didatismo narrativo. Excetuando esse excesso de explicação e um estranho desperdício de personagens (o que a Maria Flor foi fazer naquele filme? Cortaram suas falas na edição e ninguém reparou?), temos sim um filme interessante, já que, afinal, a história dos irmãos desbravando a terra Xingu é brasileiríssima, cativante e envolvente.

São mais de quarenta anos de história, entre a chegada dos primeiros brancos nas regiões isoladas indígenas, até a criação do Parque Nacional Xingu. Caio Blat, João Miguel e Felipe Camargo interpretam os irmãos que partem nessa expedição colonizadora no espírito de aventura, e terminam apaixonados pelos índios e lutando pelos direitos deles, mesmo que “enganados” pelo sistema. Não é um filme de resgate da cultura indígena, é uma aula de história desse capítulo de tomada de terras pelos “brancos”, de abuso dos índios pela força, é a questão da humanidade e justiça versus a seleção natural pelo mais forte. Xingu levanta a bandeira da proteção aos índios, de colocar (de maneira justa) a invasão capitalista das terras que aqueles povos indígenas habitaram por tanto tempo, mas, sobretudo, é um filme sobre esses irmãos saidos de São Paulo mergulhando nesse mundo que nos parece absurdamente primitivo (por mais que aqueles eram os “primitivos” anos 40).

estomagoEstômago (2007 – BRA/ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O texto é esperto, a comédia não perde o ritmo. Marcos Jorge ainda consegue elevar seu pequeno filme a uma pequenina jóia, culpa de seus enquadramentos fugindo ao óbvio, cenas mais longas, e monólogos sem cortes. Mas nada disso é páreo para o talento, sem precedentes, de João Miguel que a cada filme finca seu nome no cinema nacional. Aqui na pele do nordestino Raimundo Nonato, que chega faminto, e desempregado, numa grande cidade. Como todos os emigrantes, na esperança de um futuro promissor, arruma, por sorte (ou azar num primeiro momento) emprego num pequeno boteco. Ali aprenden fazer deliciosas coxinhas.

O filme transcorre em dois tempos: presente e passado. No flashback temos o protagonista preso, narrando sua situação dentro da cela, enquanto explica com detalhes o ocorrido que o fez ser encarcerado. Em ambos a história o bom humor sobrepõe-se a qualquer outro gênero que insista em surgir, a paixão por uma prostituta, a relação com um dono de restaurante que lhe oferece um bom emprego, o dom de cozinheiro que abre-lhe portas na cadeia, isso tudo é enredo para nos entreter.  O que transforma Estômago num filme especial é a fisionomia do ator, a paixão pela cozinha, em seus monólogos – contando a história do gorgonzola ou outras especialidades –  o segredo é aquele jeito de falar meio simples, meio engraçado, meio nordestino, meio só dele, que nos deixa fascinado.

mutumMutum (2007) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Filme de uma dureza terrível com seus personagens. Thiago da Silva Mariz, o garoto que assume o cerne das ações é uma graça, sorriso lindo, olhar cheio de graça. Dele são retirados, pouco-a-pouco, tudo que sua vida miserável possuía: familiares que amava, bichos de estimação, a família. A cada novo golpe o garoto se cala, retraído pela insensatez paterna, preso à suas deficiências, vive apenas ali, na aridez de seu mundo. Sobrevivendo ao que ainda lhe resta, em meio ao sertão de Minas Gerais. Sandra Kogut adapta a história de Minguilim (do livro Campo Geral de Guimarães Rosa), e faz com toda a aspereza e aridez que lhe é pertinente, numa beleza de cinema nacional que merece ser descoberta.