Posts com Tag ‘João Salaviza’

Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos (2018 – BRA/POR) 

A proximidade é poética como o filme aborda uma tribo indígena em Tocantins, ou mais precisamente o jovem Ihjãc (Henrique Ihjãc Krahô), completamente perdido em suas origens e a proximidade com a cidade. A dupla de diretores João Salaviza e Renée Nader Messora capta esse sentimento de quase inércia do jovem, a vontade de ficar na casa de apoio ao invés da tribo (onde tem um relacionamento e uma criança para cuidar), agravada pelo luto do pai, é tão bem contida nas feições e olhares totalmente vagos de Ihjãc.

É um filme para causar deslumbramento no público internacional porque soa mais genuíno nessa aproximação com o índio. Estamos acostumados com filmes que protestam com o descaso de governos e agricultores para com a cultura e terra indígena, esse docudrama prefere o vazio pessoal. A nova abordagem, ainda que em ritmo vagaroso, transporta o público para os sentimentos, ainda que aspectos da cultura estejam presentes. É a sensação de absorver a transição, esse universo de jovens perdidos, e que nem sabem para onde seguir como forma de se encontrar. Manter as raízes ou tentar a vida na cidade?

É possível notar traços do cinema de Salaviza (Montanha e seus premiados curtas) que também tinham personagens se colocando à margem da sociedade pela total sensação de não pertencimento. A união do português com a brasileira traz essa brasilidade, além de uma visão voyeur do índio brasileiro. Claro que é um filme difícil para grande parte do público, mas um estudo bem curioso sobre aceitação, autoconhecimento e a completa falta de perspectiva.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Un Certain Regard

Curtas de João Salaviza

Publicado: março 18, 2016 em Cinema
Tags:

João-SalavizaO cinema português vive um caso à parte, por ser um país de população nem tão numerosa, a realidade de público é pequena. Ainda assim, o cinema português tem sobrevivido com bom destaque, normalmente em filmes de teor artístico, ou experimental, sempre com uma linguagem própria e grande renovação entre os cineastas. Agora surge uma nova leva de cineastas, talvez seguindo a trilha de Miguel Gomes (o nome mais destacado atualmente). O jovem João Salaviza é um desses expoentes, em 2015 lançou seu primeiro Longa (Montanha), este blog ainda não viu o filme, mas conseguimos conhecer um pouco dos curtas e comentamos agora.

arenaArena (2009 – POR)

Este seu terceiro curta ainda é seu trabalho mais famoso. Percorreu inúmeros festivais, mas a consagração máxima foi com a Palma de Ouro. Trata de maneira áustera o drama de um jovem, em prisão domiciliar, que sofre bullying de outros garotos. Salaviza não só explora a questão da não-mobilidade, como também os bairros de subúrbio de Lisboa que chegam a lembrar uma cadeia. E por fim, a questão da vingaça, honra, tudo isso nessa narrativa precisa, onde nem tudo está exposto no plano.

strokkur01Strokkur (2011 – POR)

Este é mais experimental, o filme abre e fecha com dois planos abertos, de uma região (lugar que dá título ao curta) coberta de neve na Islândia. Um homem carregando um microfone e um mini-amplificador, reproduzindo sons, ao esmo. O filme capta sons e imagens, registra a natureza reagindo a presença daquele corpo, e o frio congelante

rafaRafa (2012 – POR)

Novamente João Salaviza coloca seus olhos a jovens, da periferia, de Lisboa. Novo capítulo de curtas de sua Trilogia Acidental, este trabalho ganhou o Urso de Ouro em Berlim, e conta a história do garoto cuja mãe foi presa por um acidente de automóvel. Um único acontecimento capaz de acelerar o amadurecimento de um jovem, assim, de uma hora para outra. Salaviza continua filmando esse desconsolo adolescente enquanto retrata essa Lisboa que não parece abraçar sua juventude, fazendo a aspereza a necessidade de amadurecimento de cada um.