Posts com Tag ‘Joel e Ethan Coen’

The Ballad of Buster Scruggs (2018 – EUA) 

Se engana quem julga que se trata de uma obra menor dos Irmãos Coen, só por serem seis histórias pequenas, que juntam formam um longa-metragem, e que mesmo com unidade, tenham suas particularidades que não  as tornam diretamente conectadas. A produção super bem cuidada, e o retorno dos cineastas ao Velho Oeste, demonstra que eles ainda tem muitas histórias para contar por aquelas bandas.

Entre o humor negro, o melodrama e outros estilos e subgêneros, há em todos os capítulos, dessa antologia, o tema da morte em comum. Seja no ladrão de banco condenado à forca, no minerados à procura de ouro, os burgueses em buscar de explorar novas terras, ou o Buster Scruggs do título, com seu gatilho  tão rápido, a morte está sempre rondando todos os personagens. Pode-se identificar mais com uma do que com outra das histórias, mas é o sabor narrativo do cineastas que torna esse lançamento da Netflix bem melhor do que ser apenas mais uma das estreias de uma sexta-feira qualquer do poderoso serviço de streamings. São os Coen revisitando essa região e demonstrando sua capacidade de modernizar a visão do Velho Oeste, por mais que tenha um gostinho de requentado.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Roteiro

Suburbicon (2017 – EUA) 

Curioso que Matt Damon esteja, no mesmo ano, em duas produções tão questionáveis, de cineastas consagrados, e que se passem em comunidades perfeitas para o sonho americano, e ambos com estreia mundial no mesmo festival. Pequena Grande Vida (de Alexander Payne) ainda vem ai, enquanto isso temos em cartaz esta nova comédia de humor negro, de George Clooney, com roteiro dos Irmãos Coen.

Suburbicon é um desses modelos perfeitos do american way of life dos anos 50, uma comunidade em que as casas não tem muros, o gramado bem cuidado e as famílias vivem em harmonia. Adicionando a questão racial, porque o ambiente perfeito é confrontado com a chegada de uma família negra no local. Os moradores protestam, fazem manifestação na casa do tipo de pessoas das quais eles tentaram fugir em Suburbicon.

Na casa vizinha, a verdadeira da trama ocorre, onde a família de Gardner Lodge (Damon) sofre as consequências da invasão violenta de bandidos em sua casa. Filho (Noah Jupe), esposa (Julianne Moore), e cunhada (Moore também) amordaçados, insultados, agredidos. Dai em diante, o roteiro tenta nos convencer da verdadeira personalidade de cada um dos personagens, um jogo de sordidez, golpes meticulosamente planejados e consequências tardias.

O todo sofre da mesma ingenuidade de seus personagens, e a comédia de erros soa frágil enquanto tenta se camuflar na panela de pressão racial prestes a explodir na casa ao lado. Caricaturas incongruentes e exagero de situações que tentam perpetuar toda a proposta do universo de personagens que os Coen consagraram no cinema (se bem que não é a primeira vez que não funcionam bem), enquanto isso, Clooney parece mais preocupado com o cacoetes desses personagens, do que em dar uniformidade ao seu filme.


Festival: Veneza

Mostra: Competição Principal

Hail, Caesar!Hail, Caesar! (2016 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A nova comédia dos Irmãos Coen é mais um filme sobre a indústria cinematográfica de Hollywood. Eles já foram muito bem sucedidos no tema com Barton Fink, mas dessa vez voltam muito mais irônicos numa espécie de provocação aos áureos anos 50 dos estúdios de cinema. É interessante como os Coen são capazes de reunir todas as suas características, como se fosse um breve resumo da carreira, englobando desde a série de comédias, até os personagens mais “interioranos” (Alden Ehrenreich como ator chulo de westerns é a melhor coisa do filme) e, como em outros de seus filmes, personagens sequestrados. Só a violência fria e calculada passa longe dessa vez, substituída por esse humor de deboche.

A trama central tem um executivo (Josh Brolin) responsável por fazer com que as filmagens funcionem. Ele trata dos egos das celebridades, acompanha dia-a-dia de orçamentos e filmagens, participa do casting, e usa métodos que forem necessários para tudo transcorra bem. Nesse dia, um dos astros (George Clooney) é sequestrado por um grupo Comunista.

Desse plot, os Coen criam uma série de coadjuvantes e subtramas, que funcionam como esquetes de humor. A somatório é irregular, mas tem seus momentos imperdíveis (como a curta cena com Frances McDormand ou a apresentação musical com Channing Tatum). O conjunto unificado das esquetes não dá um filme redondo, principalmente porque os personagens centrais (de Brolin e Clooney) soam frios à plateia, burocráticos dentro da narrativa. Além, é claro, que muitas das piadas ou inserções parece que funcionaram melhor na cabeça dos criadores do que em sua realização. O lançamento do filme, no Festival de Berlim, já era indício de que este seria um filme menos inspirado, afinal, os Coen teriam lugar garantido em Cannes, e mais ainda na corrida a qualquer Oscar.

Ponte dos Espiões

Publicado: novembro 17, 2015 em Cinema
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Brooklyn lawyer James Donovan (Tom Hanks) meets with his client Rudolf Abel (Mark Rylance), a Soviet agent arrested in the U.S. in DreamWorks Pictures/Fox 2000 PIctures' dramatic thriller BRIDGE OF SPIES, directed by Steven Spielberg.

Bridge of Spies (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Nova parceria de Steven Spielberg e Toma Hanks, dessa vez com roteiro dos Irmãos Coen e de Matt Charman, é tido como um dos possíveis indicados ao Oscar. A união dessa turma sempre cheira a bons resultados, mesmo que tenhamos tambémvisto a pieguice melodramática e nacionalista ocorrer. Infelizmente, o resultado está mais próximo da segunda opção. Ao construir a história de um advogado (Tom Hanks) obrigado a se envolver na defesa de um espião russo, preso e levado a ulgamento nos EUA. E, mais adiante, a negociação da troca desse espião por um piloto da aeronáutica americana com a URSS, Spielberg volta a realizar aquele grupo de seus filmes com temas sérios (como Munique, Lincoln ou A Lista de Schindler).

Vivemos a Guerra Fria, novamente Spielberg tenta ser o John Ford (ou Frank Capra) contemporâneo, com um tom clássico de narrativa, porém esse mesmo tom, carregado por esse nacionalismo melodramático, desembocam num mar de sequencias que flertam com a necessidade de encantar o público pelos atos “heróicos”. Mesmo que seja baseado numa história verídica. O exagero dos pequenos detalhes, que tentam representar o que já está claro, a ânsia em super valorizar esse heroísmo, são características que quando unidas perfazem essa tentativa de reconstituição das negociações da Guerra Fria naquela retrógrada visão de comunistas do mal e capitalistas do bem.

cannes2015E ontem se encerrou mais uma edição do badalado, amado/odiado Festival de Cannes. Não tem jeito, ele é o balizador do ano, a maior plataforma de lançamento dos filmes que devem figurar entre os mais falados do ano e presentes em outros festivais. Da tela do meu computador, ou do celular, estive acompanhando mais um ano de críticas, repercussões, tweets e podcasts. Críticos torcendo por alguns filmes, odiando outros, enquanto por aqui se espera, ansiosamente, a oportunidade de conferir grande parte da lista de filmes que complementou todas as mostras do festival.

Mas o festival inicia, verdadeiramente, algumas semanas antes, com a divulgação dos filmes selecionados. Cada festival tem suas características, mas todos querem estar em Cannes, afinal é a grande vitrine para venda de direitos de distribuição no mundo todo. É o parque de diversões do arthouse. Os primeiros sinais de surpresa vieram com a divulgação, nomes considerados certeiros na Competição Oficial foram parar em mostras paralelas, dando espaço para outros diretores que já figuravam em edições anteriores do festival, mas nunca com tal destaque. Assim, Miguel Gomes (ok, seu filme de 6h não coube no escopo da Competição), Desplechin, Kawase e Apichatpong Weerasethakul forma preteridos.

cannes20153Antes eram apenas especulações de nomes e títulos, agora, são especulações baseadas nas opiniões dos outros. Ainda assim, no resumo o festival traz expectativas positivas, ainda que alguns tenham decepcionado fortemente. Mesmo só tendo ganho o prêmio de direção, Hou Hsiao-Hsien sai como o queridinho da imensa maioria. Desde sua primeira exibição se torna o filme mais aguardado do ano. Outro que deixou muita gente vislumbrada foi Carol de Todd Haynes (Rooney Mara levou o prêmio de melhor atriz, empatado com Emanuelle Bercot por La Loi Du Marché) num melodrama requintado. Também grandes elogios para Saul Fia, do estreante húngaro Laszlo Nemes (Grande Prêmio). São os quase unanimes da Competição, com Mia Madre (possível último filme de Nanni Moretti) também desperando boas does de elogios.

cannes20152A segunda leva é de filmes curiosos, ou de diretores eficientes. Agora todos querem falar sobre Dheepan (vencedor da Palma de Ouro), o francês Jacques Audiard havia batido na trave com O Profeta, mas seu cinema é daqueles que preenche as salas de cinema alternativo sem que cause grande comoção. São boas histórias, narradas de forma eficiente, thriller ou drama, longe das construções sofisticadas de alguém como Hsiao-Hsien. Seu novo filme é sobre imigração ilegal de um rebelde de Sri Lanka. A recepção foi positiva, mas não vi uma lista sequer em que o filme estivesse no top 10 do festival.

 

Festival é assim mesmo, sua importância está na exibição, a premiação é a cereja do bolo. Afinal, o júri é formado por poucas pessoas, ligadas ao cinema, e portanto fica muito pessoal. Os irmãos Coen presidiram o júri, a escolha por Audiard me parece até coerente com o que se esperar dos Coen, por mais que não sejam estilos semelhantes. O humor negro dos Coen pode até ecoar na vitória de The Lobster (prêmio do júri), se bem que Lanthimos vai muito além do humor negro, e, pelo visto, teremos que aturá-los por mais um tempo. Mountains May Depart, de Jia Zhang-Ke também causou boas impressões, drama político acerca de algumas década de sua China.

Os italianos pareciam vir com tudo, Sorrentino era o grande favorito (antes do festival começar), e nem ele, e nem Garrone conquistaram a maioria. Joachim Trier, Stephane Brizé e Dennis Villeneuve, e até Kore-eda agradaram. O restante ficou entre o medíocre (Michel Franco levou roteiro, muitos detestaram) e as vaias (a maioria não entendeu a presença do filme de Gus Van Sant).

 

cannes20154Das mostras paralelas, As 1001 Noites, de Miguel Gomes, encantou, os romenos Porumboiu e Munteau, além de Apichatpong e Desplechin foram só elogios. Deixando assim essa sensação estranha de um festival que tenta forçar uma renovação, deixando de lado alguns de seus pesos pesados, para apostar em jovens (que talvez não sejam as apostas corretas). Cannes pode se dar ao luxo de colocar nomes tão importantes na Un Certain Regard ou na Quinzena dos Realizadores, mas, pelas repercussões, não foram os jovens cineastas que demonstraram a renovação.

A vitória francesa, e até a escolha na abertura de um filme francês que nada agradou, demonstram uma tentativa de olhar para dentro da própria indústria francesa. Percebe-se um destaque menor ao cinema americano nessa edição (por mais que houve exibição de animação nova da Pixar, e o novo Mad Max tenha figurado entre os melhores do festival), ainda assim é perceptível esse movimento de tentar renovar. E a cerimonia de entrega dos prêmios então, várias apresentaç~eos musicais, um clipe de homenagem, um flerte forte para o formato de festa que o Oscar promove (não deu certo). Cinema não é um esporte, nem uma ciência exata, viva a pluralidade, e as opiniões distintas. E se o júri não escolheu o melhor filme, que pena, porque daqui alguns anos, o que vai se lembrar é da Palma de Ouro para Jaques Audiard.

gostodesangueBlood Simple. (1984 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Sabe aqueles filmes de estreia em que o cara mostra a que veio? Pois bem, essa foi a estréia dos Irmãos Coen. Bem a seu estilo, com a atmosfera típica do Texas, a frieza na violência, e aquela sensação de que tudo vai dar errado, e que só piora mais adiante. Triângulo amoroso, detetive particular, uma das tramas mais batidas da história do cinema. Joel e Ethan Coen destilam o sabor amargo de seus olhos, não há glamour no romance, muito menos no homem traído que perde a compostura. É tudo fétido, sujo e árido. Como se os sentimentos sofressem influencia do próprio clima texano.

Gosto de Sangue é para se desfrutar da vivacidade de quem está começando, de um jeito que parece que já filmavam há décadas. Há maturidade em cada plano, estilo arrojado e ambicioso, a criação de uma atmosfera que ficaria marcada pelo resto da carreira dos irmãos. Cenas implacáveis, posicionamentos de câmera que potencializam o suspense com um toque falta de horror. O filme cheira a suor, a sangue escuro e grudento, e a hipocrisia da ganância.

insidellewyndavisInside Llewyn Davis (2013 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Sabe aquele filme em que você assiste realmente relaxado? Se ajeita melhor na poltrona, os ombros parecem agradecer aliviados. Seja pelo clima e pela música folk, ou pelo humor refinado e leve, mas, principalmente, pela condução firme, de quem sabe o que está fazendo (e principalmente, como está fazendo). Esse é o novo filme dos irmãos Joel e Ethan Coen.

Livremente inspirado na biografia de um dos percursores da musica folk, nos EUA. Os Coen traçam um pouco do que era a vida de um músico (Oscar Isaac), em início de carreira, por Nova York (mais precisamente em Greenwich Village) lá pelos anos 60. E o fazem de maneira solta, da falta de grana, ao gato que ele perde (em uma da muitas pequenas confusões em que se mete).

Estão lá, em papéis importantes, Carey Mulligan e Justin Timberlake, ou numa pequena participação John Goodman, mas os Coen não estão nem ai para os astros. Parecem mesmo estar curtindo essa vida mundana do protagonista que dorme de favores em qualquer sofá, ou a fase road movie (onde, finalmente, aparecem as esquisitices dos filmes deles). Os Coen dirigem como se transpirassem o folk, e no final ainda fazem uma brincadeira, pode parecer genial, ou apenas “olha que legal, a sacada do filme”