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A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1965) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O melhor do filme está no que você não vê. A batalha que acontece entre consciência, fé e coração de Augusto Matraga (Leonardo Villar). A complexidade da personalidade do rico fazendeiro surge quando ele é traído pela esposa, sofre uma emboscada e praticamente é dado como morto. O homem rico e violento, viril no trato social, sobrevive por pouco, e encontra redenção em sua fé.

Roberto Santos adapta Sagarana de Guimarães Rosa, vivemos o cinema novo, o cinema do cangaço está na moda (quase o western brasileiro). São filmes genuínos de uma brasilidade, mesmo empunhando armas e carregando a violência masculina, há essa relação com religiosidade quase como o leme das vidas. Ao abdicar de tentar retornar sua vida, Augusto Matraga se entrega a fé, ele quer viver, mesmo que essa nova vida seja distante de tudo que ele tinha (esposa, filho, fazenda, posses). Essa opção é posta em suspenso com a chegada do grupo de Joãozinho Bem Bem (Jofre Soares). Alguém que ousa cruzar a ponte e tentar trazer Augusto Matraga ao mundo, e toda sua crueldade. Nisso tudo, a sequencia final é categórico, o novo Augusto diante de suas novas convicções, de seus velhos comportamentos e da religião que lhe serviu como prumo.

odragaodamaldadecontraosantoguerreiroO Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Um faroeste em pleno sertão nordestino. Em pleno apogeu da ditadura militar, surge Glauber Rocha com seus filmes de ferrenha crítica social, inventivos, verborrágicos. Filmados de maneira crua, repletos de referências do folclore nordestino, e transformando musicalidade em narrativa. Lá se foram trinta e cinco anos, mudam os personagens, mantem-se os papéis na vida política nacional.

Jardim das Piranhas é o típico vilarejo do sertão nordestino, regras e leis passam pelo latifundiário que controla a região, no caso o Coronel Horácio (Jofre Soares). É lá que Coirana (Lorival Pariz), diz ser a reencarnação de Lampião, decidem instaurar o caos. O delegado (afilhado político do coronel, e provável futuro prefeito, mesmo sendo a favor da reforma agrária) perde as rédeas e convoca Antonio das Mortes (Maurício do Valle), matador de cangaceiros.

A condição deplorável de sobrevivência é mais que acachapante no sertão, a luta do dragão da maldade contra o santo guerreiro remete a São Jorge. Também remete ao fim das injustiças, a luta de classes, e nesse ponto, o desiludido e bêbado Professor (Othon Bastos) pode ser a voz da esperança, talvez Glauber depositasse suas fichas na educação.

odragaodamaldadecontraosantoguerreiro2No velho-oeste apocalíptico de Glauber a luta cruel contra a fome, a sede e a miséria ganham aliados implacáveis, e tornam-se vilões maiores do que os que abusam e exploram. Quando o ferido cangaceiro Coirana, diz ao justiceiro Antonio das Mortes, que ele estava vestido de ouro, ouro que ganhou dos ricos para matar pobres; neste momento Antonio das Mortes caminha entre o povo que seguia o cangaceiro e percebe que lutava pela causa errada.

Glauber resume o sertão nordestino da década, faz jus ao cancioneiro, ao repente, dá espaço ao misticismo e a fé. Usa alguns personagens de seu clássico Deus e o Diabo na Terra do Sol para enquadrar a realidade sonora de um Brasil sertanista, traduz peculiares alegorias regionais para expor a verdade do povo, talvez o melhor filme brasileiro de todos os tempos.