The Lobster

thelobsterThe Lobster (2015 – RU/GRE/FRA/HOL) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A sociedade chegou a um ponto em que ser solteiro não é mais uma opção. E que os casais precisam de uma forte característica comum para que a união se estabeleça firmemente. Essa é a nova proposta bizarro-provocadora de Yorgos Lanthimos. O cineasta grego se sai bem melhor em seu primeiro trabalho internacional, do que nos anteriores (Dente Canino, Alpes) realizados em sua terra natal. Ele ainda parte do inverossímil e navega pelos mares do incomodo, mas dessa vez encontrana metáfora uma crítica mais contundente, sob uma sociedade feroz e excludente a ponto de eliminar os que não se em encaixam na configuração dessa sociedade.

Um hotel recebe os solteiros que estão no fim da linha para encontrar seu par, caso não consigam até o prazo estabelecido, eles se tornarão um animal. O protagonista é David (Colin Farrel), que acaba de chegar ao hotel e já decidiu pela lagosta, caso não obtenha sucesso em sua cruzada amorosa. A primeira metade do filme narra o ritmo dos hóspedes, as regras, as caçadas aos dissidentes num bosque. É a prepraração que deixa claro o grau de violência e frieza que alguns níveis da sociedade atingiram.

Na segunda parte o foco são os que desistiram do processo, e agora vivem como rebeldes, no meio do bosque. É uma outra sociedade, pretensamente mais libertária, mas ainda assim cheia de regras e limitantes. Nasce um caso de amor, proibido, e Lanthimos trata da sobrevivência desse relacionamento, e das consequências de vivê-lo. De longe, essa segunda parte é seu melhor trabalho no cinema até aqui.

Anúncios

O Conto dos Contos

ocontodoscontosIl Racconto Dei Racconti / A Tale of Tales (2015 – ITA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Em seus últimos filmes, Matteo Garrone não se contenta com assuntos pequenos. Do retrato da máfia italina (Gomorra), ao mundo italianos dos reality shows (Reality), o cineasta parte agora mais profundamente em grandiosidade. São três contos do período das grandes monarquias, sempre cercado de fantasia, e o título já deixa bem expressada essa grandiosidade “O Conto dos Contos”.

Sim, Garrone quer realizar o filme definitivo, ele vem tentando, e passa cada vez mais longe. Este aqui carrega a pompa da idade média, três reinados e suas historias que sobrevivem desse quê de conto de fadas. Do rei que tem uma pulga gigante de estimação e por sua promessa acaba entregando a filha a um ogro, ao rei mulherengo que se encanta por uma voz de uma velha que consegue se tornar jovem, ou então a rainha que não mede esforços e consequências pela possibilidade de ser mãe. São apenas contos, tolos, interessantes, mas que jamais representam a eloquência que Garrone permanece em busca. Contos de fadas para adultos, envergonhados na sexualidade, e que buscam na estranheza a sua forma de se expressar moralmente.

Os Guardiões da Galáxia

guardioesdagalaxiaGuardians of the Galaxy (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O humor tomou conta dos últimos filmes da Marvel. O estúdio encontrou a fórmula perfeita que tem atingido em cheio seu público, mas essa fórmula não pode apresentar sinais de desgaste em breve? O trailer causou comoção entre os críticos, via twitter, foi uma febre. As cabines de impresa não foram diferente. Muita gente gostando da nova farofada da Marvel, dirigida por James Gunn.

O que Guardiões da Galáxia tem de diferente? Nada, além do fato de ocorrer no espaço. É um Avengers, com personagens nem tão marcantes e/ou conhecidos, com humor por todos os lados, e uma adicional pegada pop (focada nas músicas anos 70) que só consegue atingir os trintões e quarentões.

De resto são brutamontes e ideias mirabolantes de roteiro que sempre resultam no sucesso dos mocinhos. É muito pouco quando observamos o saldo da quantidade de filmes de super-heróis que são lançados todos os anos. Haja bom humor e a mesmice forjada por excepcionais efeitos especiais.

Não entrega o grande filme que promete, nenhum personagem tem carisma, não consegue ser Star Wars e individualmente são heróis praticamente esquecíveis. Fora a incapacidade de criar um vilão marcante. Resultado final é uma farofada para ser aproveitada com algum combo das redes de cinema e depois ouvir Marvin Gaye o resto do dia.

Deus da Carnificina

Carnage (2011 – FRA)

Os filhos tiveram uma briga de rua, os pais resolvem se encontrar para discutir o caso, esperam retratação, fazem um acordo escrito. Tudo tão pacífico e civilizado que termina num cafezinho na sala, uma maravilha do mundo civilizado. Adaptando a peça teatral Deus da Carnificina, o cineasta Roman Polanski cria um filme fabuloso, uma nova versão de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, durante pouco mais de um hora dois casais saindo de uma simples conversa (onde não expuseram totalmente suas visões do caso) para uma queda total de máscaras, chegando a suas verdadeiras facetas sem preocupação com status social e etiqueta.

Desse ponto em diante, temos a mais completa e ácida comédia dos últimos tempos, Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly derramando todo o veneno de vidas reprimidas pela sociedade e pelas convenções sociais. A câmera nunca sairá dos arredores da sala daquele apartamento, o trabalho minucioso de Polanski e da edição ágil e sutil, oferecem todos os ângulos de personagens e suas verdades verborrágicas até que alcancem a verdadeira honestidade.

Precisamos Falar sobre o Kevin

We Need to Talk About Kevin (2011 – EUA)

Qual o grau de relevancia do drama de vida da mãe de um desses estudantes-serial-killers-de escolas? Tendo em vista o filme dirigido por Lynne Ramsay, nenhum. Num paralelo entre vida atual e a reconstituição dos fatos (desde o casamento e nascimento do filho, até a situação vigente), tudo o que Ramsay faz é justificar um comportamento demoníaco do garoto, desde criança. Algo totalmente fora de propósito, impossível, a maldade desde bebe não condiz com qualquer realidade.

A mãe (Tilda Swinton) tenta reconstruir sua vida, abafada pelo escandalo, a vergonha, e o repúdio da sociedade. Ao seu lado, personagens fétidos, como se a reconstrução fosse impossível desde as relações sociais (quando os problemas deveriam ser muito mais intrínsecos, do que a dificil relação com novos colegas de trabalho). Impressionante como Ezra Muller consegue fugir do tom do filme, e apresentar uma atuação até contida, dentro de todo o demoníaco personagem apresentado.

Terri – Festival do Rio 2011

Terri (2011 – EUA)

A mesmíssima fórmula de sempre, Azazel Jacobs não muda uma vírgula dos clichês do contemporâneo cinema independente americano. Estão lá a trilha indie agradável, os personagens loser, a sensação profunda de solidão, um estado de letargia. A idéia é sempre aquela, nos identificar, ou pelo menos, a empatia. Terri (Jacob Wysocki) é um garoto gordão vivendo sob os cuidados de um tipo doente. Os pais, sabe-se lá onde estão. Se você tinha uma colega de classe obeso na sua classe sabe bem o tipo de relação, o quanto são zombados e colocados à margem das relações pessoais. Não é um panorama muito sadio para um adolescente. Eis que surge o vice-diretor (John C. Reilly) querendo ser amigo do garoto, um conselheiro (aos poucos enxergamos outro loser, só que em fase adulta).

A linguagem metida a esperta, a melancolia esperançosa de cada take, no decorrer da história a questão sexual torna-se o assunto principal, Terri desenvolve amizade com um garoto endiabrado e uma linda jovem com hormônios empolvorosos. Depois de tantos clichês e das lições de moral do vice-diretor, por caminhos “tortos”, finalmente o filme ganha o ar da questão jovem propriamente dita, brincando com a curiosidade, os desejos e o ímpeto da adolescência.

 

Além da Linha Vermelha

The Thin Red Line (1998 – EUA) 

E Terrence Malick visita a guerra. Um hall gigante de estrelas de Hollywood incorpora membros das tropas americanas no período da Segunda Guerra. Porém, Malick segue fiel às suas origens e obsessões, e foge do filme de geurra convencional, como era de se esperar. Em seu início, privilegiando alguns diálogos, com personagens mais burocráticos, é a forma como o cineasta questiona valores do exército. É no fogo cruzado que o filme realmente mostra sua força.

Pense num filme de guerra onde não importa quem está lutando, onde a vitória na batalha está ali sem que heroísmos sejam foco, e sim a sensação de se estar ali entre as vibrações da natureza, o medo e sua presença fundamental. Resumindo, onde o que se sente dentro da alma e não dentro da mente, Malick consegue aqui o que talvez seja o seu grande filme. Um trabalho intuitivo, que pode estar permeado do dia a dia de um pelotão, mas está totalmente focado nas relações dos soldados com seus momentos, com seus temores, com a dor da perda, ali ao seu lado. Ou a saudade de casa, mas, sobretudo com o ambiente que os cerca, onde o inimigo está presente, ali escondido e pronto para o bote.