Posts com Tag ‘John Hurt’

oportaldoparaisoHeaven’s Gate (1980 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Da obra-prima ao fracasso. Na inernet facilmente encontra-se textos que pontuam a importância histórica do grandioso filme de Cimino, a disputa com o estúdio, o fracasso de bilheteria, o orçamento estourado, o ego inflado por aquele jovem promissor que ganhara 5 Oscar’s e pretendia realizar, nada menos, que a obra-prima definitiva do cinema americano. E não venham me dizer que esta não era a intenção, porque o filme dá todos os sinais da eloquência com que Michael Cimino conduz seu filme. Da frustração irrestrita com que o filme foi recebido à aclamação da crítica como verdadeira obra-prima, quando do relançamento da versão do diretor, o filme se tornou maldito e amado.

O tema não era nada palatável, e o clima da época (pós Guerra do Vietña) indica que não era o tema que o público estava ávido em descobrir. Afinal, tratar de um momento histórico americano em que o presidente do país aceita que um grupo faça uma lista, e execute, 125 pessoas (na maioria imigrantes que atrapalhavam seus negócios), está longe de entreter. Do discurso inflamado do orador da turma (John Hurt), à caçada que se torna o condado de Johson, Cimino cria dezenas de planos fabulosos em reconstituição de época, cenários, e a violência sanguinária. O balett da câmera acompanhando os bailes, as cenas com centenas de figurantes, a porção western (há quem considere que o filme matou com o gênero), a trilha sonora precisa entre a emoção e o bucólico. É tudo lindo de se ver.

Porém, de tão grandioso, a almejada obra-prima de Cimino se apresenta como um polvo gigante, desengonçado, que se movimenta em slow motion. O triângulo amoroso (Kris Kristofferson, Isabelle Huppert e Christoher Walken) é instável, falta fluidez. O personagem de Jeff Bridges parece meio perdido na história. O roteiro não consegue dar conta de tamanha grandiosidade, de estruturar seus personagens, o massacre e o triângulo amoroso acabam como as tábuas de sustentação enquanto Cimino apresenta sua desenvoltura em criar cenas lindas. Cavalos, carruagens, os trajes coloquiais, o western como toques de épico, a perseguição à imigração. Talvez fossem necessárias 5 horas de duração para que Cimino conseguisse desenvolver tudo que pretendia, a versão de 219 minutos ainda manté o filme confuso, ainda que belíssimo.

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expressdodoamanhaSnowpiercer (2013 – COR/EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Pense no futuro a Arca de Noé, e a substitua por um trem. Nele espaço e tecnologia para manter vivos todos os sobreviventes (humanos, animais e plantas) de um fenômeno que congelou toda o planeta Terra. Coprodução entre sul-coreanos e americanos, sob direção de Bong Joon-ho, é mais um filme de ação apocalíptico. Com heróis desbravadores (Chris Evans, Octaviana Spencer, John Hurt e Jamie Bell), lutando contra a terrível minoria que controla o trem (Tilda Swinton, Ed Harris).

Influencias de campos de concentração nazistas não devem ser tratadas como mera coincidência. Joon-ho não consegue ir muito além de sua proposta, cria suas próprias regras para manter vivos os personagens que interessam ao roteiro, enquanto a locomotiva cruza o planeta congelado. Vilões canastrões, lutas inimagináveis, tudo dentro dos espaços pequenos de vagões, sejam eles ecossistemas completos ou a represetanção de aquários fabulosos. Muita ideia para pouco resultado prático.

oslimitesdocontroleThe Limits of Control (2009 – ING) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Que delicia de enigma é esse trabalho de Jim Jarmusch. Isaach De Bankolé é esse homem solitário que bebe duas xícaras de café, ao mesmo tempo, enquanto espera seus contatos para realizar seu serviço. Está claro que ele realiza algo fora-da-lei (trafico? Roubos? assassinato? Não sabemos). Enquanto segue as instruções, e ouve monólogos imprevisíveis e misteriosos.

A caixa de fósforos com mensagens codificadas, os ternos brilhosos, as visitas ao museu, e a eterna pergunta se o protagonista fala espanhol, tudo faz parte do conceito estético de Jarmusch. Há muito mais ali do que a câmera está captando, aproximam-se do homem solitário os mais diversos tipos de pessoas falando em filosofias de vida, em assuntos abstratos. Cultura, violência, estilo, cada frame é puro estilo. A sensualidade das curvas de Paz de la Huerta, o onírico da fantasia de Tilda Swinton, os instrumentos de corda que carregam John Hurt e Luis Tosar. Talvez nada tenha uma explicação, apenas façam parte da alegoria de uma trama misteriosa, de uma falsa passividade, de um primor de condução do espectador por Jarmusch.

The-Eleven-Doctors-doctor-who-18277364-1280-800.jpgAté pouco tempo Doctor Who era só o nome de uma série britânica, na minha cabeça, nem sabia do que se tratava. Em fevereiro, estava em Paris, e dei de cara com uma loja de HQ’s, miniaturas de personagens de cinema, e outros artigos para fãs. Acabei comprando, entre outras coisas, um objeto de cozinha em formato de uma cabine de polícia azul. Depois fui descobrir, através da namorada (fã de Doctor Who e cultura pop britânica) que se tratava da Tardis.

doctorwhosblinkPassados alguns meses, zapeando, encontrei um episódio, prestes a começar na TV Cultura. Hora de matar a curiosidade. E dei sorte porque era um episódio diferente (Blink, de 2007), o Doctor Who (David Tennant, recentemente protagonista da série policial Broadchurch) servindo apenas de escada para a verdadeira protagonista (em aparição especial), que era Carey Mulligan, antes da fama. Narrativa de atmosfera pesada de terror, estátuas de pedra aterrorizando um casarão abandonado. Ficou uma ótima impressão.

A curiosidade me levou a outros episódios, primeiramente no ritmo fora de ordem da TV Cultura. Fui descobrir que a série começou nos anos 60, e após muitos anos no ar foi interrompida, pela BBC, por um período entre 1986 e 2005. Encontrara uma maneira de irem trocando o ator protagonista do Doutor (chamam de regeneração) e assim manter a longevidade. Ao longo dos anos se tornou febre na terra da Rainha.

Além de alguns episódios isolados dessa nova fase (que já está na 7ª temporada), acompanhei a última temporada inteira (já com o jovial e estilo nerd, Matt Smith, como o Doutor).  Continuo com a impressão de um seriado com pegada infanto-juvenil, meio feito nas coxas, mas com tantos elementos fortes de ficção científica, que criam essa paixão pelo universo de Doctor Who (algo como Star Trek encontra O Mundo de Beackman). Quase sempre Daleks e Cybermen são os vilões, há sempre as acompanhantes jovens, eterno contraponto do protagonista alienígena de dois corações, além do clima de humor atrapalhado. A cada mudança de ator, os produtores trazem novos ares, nessa última fase além de Tennat e Smith, Cristopher Eccleston protagonizou esse viajante do tempo.

Doctor Who - Series 7BO especial, dirigido por Nick Hurran, comemorando 50 anos, The Day of the Doctor, faz algumas conexões diretas com o último episódio da 7ª temporada, mas está bem mais ligado ao hiato fora do ar. Transformam os 11 doutores em 12, John Hurt é o elo de ligação entre os dois períodos, e o episódio estendido os conecta com o fim da Guerra do Tempo e o maior segredo do Doutor. Com muito humor e a oportunidade de rever, e unir, timidamente, vários dos antigos atores, esse episódio especial levará fãs ao delírio. Todo o clima da série está elevado à enésia potência (Tardis, a chave de fenda sônica, as viagens no tempo, as acompanhantes e toda a bagagem de histórias entre mundos e vilões), com doses dramáticas, e a carga de humor ainda mais presente (nas comparações entre os doutores, principalmente). Seus defeitos também estão escancarados, o maior deles é a impossibilidade de explicar tudo, simplesmente algumas passagens não farão sentido, e o melhor a fazer é aceitar.

Está aberta a porta para Peter Capaldi encarnar o novo Doutor, vem ai o especial de Natal onde deve ocorrer a nova regeneração, e da forma com que o passado foi alterado, por esse episódio, um mar ainda maior de possibilidades é vislumbrado pelos fãs. A série se recicla e garante mais alguns anos no ar.

Tinker, Tailor, Soldier, Spy (2011 – ING)

Pelas mãos do cineasta Tomas Alfredson nasce um filme elegante sobre espionagem na Guerra Fria. Não que os britânicos fossem neutros no jogo de guerra velada entre capitalismo americano e comunismo soviético, mas eles eram um terceiro, que até flertavam com um lado, mesmo estando sempre mais propensos a outro. Nessa perspectivas de inexistencia (estrutural) de vilões, se desenvolve nova adaptação do livro escrito por John Le Carré (em 1979 fora uma mini-série da tv com Alec Guinness no elenco).

Primeira palavra a vir a mente é timing, Alfredson o estabelece e imprime em cada um dos fotogramas, há unidade, um compasso que segue sereno, harmonico. E o timing se estabelece também com a figura central da trama, o agente aposentado (Gary Oldman) após uma missão fracassada na Hungria, e que volta à tona para investigar e descobrir quem é o espião duplo entre a mais alta cupula da Inteligência Britânica.

 É bem verdade que falta ao roteiro um desenvolvimento dos personagens (principalmente dos suspeitos), são apenas tipos britânicos que desconfiamos e aguardamos descobrir qual deles é o vilão, sem que tenhamos perfis psicológicos, ou interesses mais explícitos (as subtramas até se encaixam no desfecho, ainda assim pouco relevantes). O filme é todo de Alfredson (sua escolha pelo mínimo de detalhes, oferecendo maior nuance aos atores, e isso não falta a Gary Oldman), destacando-se o virtuosismo que ele evoca ao todo, um desfilar sobre nossos olhos de maestria (por exemplo, numa cena, a câmera foca a nuca de Smiley, ele vira o rosto levemente, e só no movimento das sobrancelhas percebemos o ar de decepção).

 Momentos de tensão, de dúvida, sempre num tom calmo e sereno, em tons cinza e nebulosos. E a promiscuidade das relações , colocadas sempre de forma sutil, é daqueles filmes em que “o como” vale muito mais que o “o que”, engenhoso na trama e na forma de se contar, Alfredson se estabelece como um cineasta que merece todas as atenções. E aquele desfecho então, a canção francesa, os personagens em suas novas perspectivas, nenhuma fala, um charme.

Alien (1979 – ING) 

Veja o olhar penetrante, assustado e concentrado de Sigourney Weaver. Sem dúvida, umas das características mais marcantes da franquia, e que transformou Ripley nessa heroína de carne, osso e determinação. Era apenas o segundo longa-metragem de Ridley Scott, mas o bastante para torna-lo um dos nomes mais conhecidos do cinema nas últimas décadas.

Uma nave-cargueira carregando toneladas de minérios de ferro, o aspecto sujo, a predominância dos tons escuros, tudo auxilia para o clima de horror espacial que o cineasta articula com precisão. Da aterrisagem num planeta desconhecida, os sete tripulantes ganham a visita de alienígena hostil. A primeira sequencia em que o alien sai da barriga de um dos membros da tripulação já dá a medida correta do que se pode esperar do restante do filme. A luta pela sobrevivência contra o desconhecido.

Scott combina a mistura de ficção científica com horror em sequencias de tirar o folêgo, que se tornam ainda mais contundentes sejam pelos close-up’s ou nos enquadramentos em plano aberto (como no laboratório) com a perspectiva desde o chão da nave. Fica tudo maior, mais tenso, além desse aspecto rustico, a edição ágil e cru. Ripley realmente inesquecível de uma obra-prima que não envelhecerá jamais.