Posts com Tag ‘John Turturro’

minhamaeMia Madre (2015 – ITA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A mãe de Nanni Moretti faleceu durante o período de filmagens de seu último filme. Trabalhando seus dramas pessoais, o cineasta italiano resgata esse capítulo de sua vida. Ele assume o personagem coadjuvante do homem que larga o emprego para cuidar dos últimos dias de vida da mãe, e principalmente abrir os olhos de sua irmã de que ela chegou à reta final.

A irmã é a verdadeira protagonista da história, alter-ego do próprio Moretti, uma Margherita (Margherita Buy) dividida pelas dificuldades da filmagem de seu próximo trabalho, os cuidados com a filha adolescente e a situação da mãe. É tudo muito bonito pela nítida comoção de Moretti com o conteúdo, por outro lado soa como um próprio adeus do cineasta (rumores de que seja o último filme de Moretti), e dessa forma um tanto preguiçoso, com muitos planos americanos e a carga dramática contida de quem quer prestar uma homenagem sem exagerar em nenhum ponto sequer.  John Turturro tenta ser o alívio cômico, marca registrado dos filmes de Moretti, mas seu ator excêntrico, que esquece as falas, não chega a ser nada marcante para o filme.

rioeuteamoRio, Eu Te amo / Rio, I Love You (2014 – BRA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A versão para a Cidade Maravilhosa, da série Cities of Love, é um desserviço ao Rio de Janeiro e ao cinema nacional. Nenhum dos 10 curtas consegue, nem de forma ligeira, condensar qualquer traço do charme, beleza e encanto da cidade. Se o modelo de filme-coletivo sofre pela irregularidade, dessa vez, este se torna o menor dos problemas.

Primeiro que a cidade é colocada em segundo plano. Alguns dos curtas nem conseguem se identificar com a cidade, os demais praticamente tornam os cartões-postais em clichês hediondos. As visões são as mais simplistas possíveis, os roteiros almejam o natural, quando apenas encontram uma artificialidade de finais que desejavam representar grandes sacadas. Começa com Andrucha Waddington e a história do neto que encontra sua avó (Fernanda Montenegro) vivendo como mendiga, por opção.

Paolo Sorrentino vai ao limite dos clichês com a jovem ricaça (Emily Mortimer) e seu marido idoso, doente e podre de rico, que passam férias na cidade. Fernando Meirelles e Cesar Charlone não conseguem imprimir ritmo à história do escultor (Vincent Cassel) de areia que se apaixona por uma jovem, o curta não passa de uma ideia de trama.

Constrangedora é a história dirigida por Stephan Elliot, um astro do cinema (Ryan Kwanten) decide escalar o Pão de Açúcar, do nada, com a roupa do corpo, e carrega seu guia (Marcelo Serrado) nessa aventura pelo amor inesperado. Totalmente insosso, e que nada mostra além de dois takes do mar, é o curta dirigido por John Turturro, sobre um casal (ele e Vanessa Paradis) em tom de despedida. Guillermo Arriaga retoma parte do clima de Amores Brutos, troca a briga de cães por lutas clandestinas e desce fundo no poço das propostas indecentes (que só devem existir na cabeça de cineastas mesmo).

O morro do Vidigal é tomado por vampiros na visão de Im Sang-soo, com direito a samba, garçom estiloso e prostituta mulata. Carlos Saldanha até consegue um aspecto visual interessante na apresentação do casal de bailarinos (Rodrigo Santoro e Bruna Linzmeyer), mas o drama do casal e suas discussões durante a apresentação são de um melodrama que pouco acrescenta ao clima de amor à cidade. Wagner Moura é o instrutor de asa-delta frustrado que xinga o Cristo Redentor durante um voo, sabe-se lá as intenções de José Padilha, além de trazer seus temas críticos da cidade à tona.

Mesmo carregado de clichês, a simpatia da história criada por Nadine Labaki é a que mais se aproxima do que se esperava deste projeto. Um garoto de rua, gringos (ela e Harvey Keitel) encantados por seu jeito cativante, se passam por Jesus para realizar suas fantasias. E a cereja estragada do bolo são as transições, que ganharam vida própria, personagens próprios, e direção de Vicente Amorim. Primam pela artificialidade, e mais embaralham do que funcionam como conexão para os curtas. Além de intensificarem o padrão visual do filme que trafega entre um Globo Filmes e uma campanha publicitária de tv (aliás, marcas de patrocinadores quase se tornaram protagonistas das transições).

acordodinheiroThe Color of Money (1986 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Vinte e cinco anos depois, o jogador de sinuca de Desafio à Corrupção (Eddie Felson), vende bebidas em bares. Num desses, depara-se com um jovem e promissor jogador. Vincent (Tom Cruise) é quase um show-man, impossível não reparar em seus gritos e rodopiadas, enquanto encaçapa bolas sem parar, e completando o espetáculo exibicionista beijando sua namorada, Carmen (Mary Elizabeth Mastrantonio) sentada ao lado. A mesa verde é seu palco, e Eddie (Paul Newman) vê no garoto a grande chance de faturar uma boa grana no torneio de Atlantic City. Carmen é uma mulher de visão estratégica (puro eufemismo), e com Eddie formam uma equipe para transformar Vincent em seu pupilo, ensinando-lhe os macetes necessários, o momento certo de ganhar.

A fumaça de um cigarro, o pano verde da mesa e a voz de Martin Scorsese servindo como abre-alas. Paul Newman, um monstro em cena, porém a figura principal do filme é Scorsese, e quando o diretor rouba a cena, algo parece está destoando. O talento do diretor significa ao filme cenas magistrais, principalmente quando a câmera acompanha as bolinhas de perto, ou quando temos uma visão panorâmica da mesa, são seqüências de se tirar o fôlego, um deleite. O confronto pessoal entre mestre e pupilo deveria ser a tônica do filme, o roteiro preparou toda a armadilha para isso, com pequenas surpresas que não deixam espaço para o clichê, mas faltou transpor aos acontecimentos a tensão. Quando a rixa entre o garotão Vincent e o experiente Eddie começa a ser desenhada, Vincent sai de cena por um tempo e o filme fica se torna a redenção de Eddie.

Outra peça crucial que não funciona como deveria é Carmen, sua posição chave de manipulação de Vincent é posta de lado, mas a apagada Mary Elizabeth Mastrantonio (que até tem seu momento numa cena insinuante no quarto de hotel) não consegue galgar a importância que sua personagem deveria ter, a dissimulada torna-se mera interesseira. A Cor do Dinheiro beira a aventura, com humor, boa trilha sonora e um clima que demora a chegar ao drama.

Do The Right Thing (1989 – EUA) 

O locutor de rádio (Samuel L. Jackson) desperta a população do bairro, “o dia é quente, muito quente” não cansa de repetir Love Daddy. Os termômetros chegam aos quarenta graus e as pessoas preparam-se para ir ao trabalho. E a temperatura é apenas uma das partes dessa crônica que Spike Lee lança em sua estreia no cinema. Com jeito irreverente e narrativa ágil, o cineasta parte das tensões numa rua do Brooklyn para uma contundente crítica racial e social.

A música, o jeito de andar, de falar, a forma de defender suas crenças e lutar pelas injustiças. Lee coloca a cultura negra americana em cada fotograma.  O próprio diretor assume o figura de Mookie, o entregador de pizza, enrolado entre seu jeito malandro, o relacionamento conturbado com a latina (Rosie Perez), mãe do seu filho, e os momentos em que fica perturbando a irmã. Diversos personagens orbitam à volta de Mookie, ou da pizzaria, mas é ele a cabeça pensante, explosivo quando precisa ser, contundente a cada discussão.

O calor, a incompreensão, a necessidade desse impor, ingredientes que vão direto para a panela de pressão que se torna a pizzaria dos ítalo-americanos, cheio de amor por sua cultura. Antes da explosão anunciada, pequenos tipos que formam o cotidiano, apenas recheiam a capacidade de Lee em condensar o cotidiano do bairro de minorias marginalizadas (orientais, latinos). A fúria racial oriunda de uma ideologia quase tribal. A tensão é elevada quando um negro reclama de só haver quadros de brancos enfeitando a parede da pizzaria. Neste ponto que sentimentos se revelam, personagens chegam à últimas consequências, e a violência toma conta de todos.

O racismo colocado à flor da pele, Spike Lee evoca o pior da humanidade, o descontrole injustificável e só mesmo recordar Martin Luther King e Malcom X para tentar mostrar que todos estão errados, que a forma de lutar não é esta, e que a brutalidade só traz um irreparável dano a humanidade.