Posts com Tag ‘José Saramago’

ohomemduplicadoEnemy (2013 – CAN) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O romance de José Saramago, sobre a questão da identidade no mundo contemporâneo, nas mãos do diretor canadense Denis Villeneuve se tornou um suspense, com toques sombrios e sobrenturais (tentando imitar David Lynch). Preste atenção em todos os detalhes, procure os mínimos detalhes até entender o quebra-cabeças que explica a relação e idêntica semelhança entre Adam e Anthony, interpretados por Jake Gyllenhaal.

Clones? Sósias? Irmãos? Como podem ser tão idênticos? O filme limita-se a estabelecer um clima de suspense para levantar tais suspeitas, até descambar para essa necessidade de criar a tensão. As mulheres em cena são meras coadjuvantes, tanto a mãe (Isabella Rosselini), quanto as esposas/namoradas (Mélanie Laurent e Sarah Gordon) funcionam como meros trampolins para as conexões da história que tentam embaralhar, antes de explicar.

O tema da identidade inexiste no roteiro, restando essa alternativa, bem mais comercial, de criar mistério sem discutir nada. Bem mais fácil buscar cenas de algum teor lacrimoso e qualquer possitibiidade de dualidade na interpretação.

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José e Pilar (2010 – POR)

Não é uma delícia o documentário de Miguel Gonçalves Mendes? Um mergulho na intimidade do casal José Saramago e Pilar. Mais de dois anos de uma câmera testemunha de pequenas preciosidades, momentos minúsculos. O humor e a rotina do dia-a-dia entre conferencias, e tantos outros afazeres sociais, e a elaboração de um novo livro “A Viagem do Elefante”. Descobrimos o autor além da obra, o homem divertido e bem humorado, porém já conformado com a vida vivida, com a proximidade do fim de seus dias. Um misto de simpatia e singeleza, enquanto a mulher forte e inquieta praticamente comanda os passos que o mestre da literatura deverá dar, fora dos seus “momentos de escritor”. Complementam-se, e, principalmente, se respeitam.

O toque das mãos dadas, uma troca de olhar, o ritmo de cumplicidade, captar todos esses detalhes e ainda dar vida ao homem, chega a parecer tarefa fácil, afinal o casal retratado parece tão espontâneo e cinematográfico. Das discussões acaloradas sobre Hilary Clinton, ao famoso momento emocionado na primeira projeção do filme Ensaio sobre a Cegueira, nos sentimos presentes na rotina e descobrimos um pouco de quem são José e Pilar.

Blindness (2008 – CAN/BRA/JAP)

Fernando Meirelles não cansa de ressaltar, com orgulho, o ótimo trabalho técnico da equipe, a fotografia esbranquiçada que traz sensação ao público da cegueira branca do best-seller de José Saramago, e o som extremamente presente que é parte dos olhos dos cegos. De uma fidelidade ferrenha ao texto de Saramago, o filme torna-se morno e peca exatamente nesse ponto. Não seria possível retratar todos os personagens e acontecimentos num filme comercial, porém o descompasso dos dois está na questão moral, o filme não passa de um acumulo de imagens (muito bem filmadas) que contam uma história de uma epidemia inexplicável que assola uma grande metrópole devastando sua população, e trazendo o caótico à sociedade.

Aquele ritmo de parábola narrada por um ancião (como se ouvíssemos o autor recitar sílaba por sílaba) chega ao filme como uma seqüência de ação, que não nos oferece tempo para pensar, para digerir, aquele amontoado de cenas pouco-a-pouco cria uma historia muito bem contada, impecavelmente reconstituída, e morna, porque a mensagem de uma sociedade que libera seus desejos oprimidos, sua ganância ressentida e o egocentrismo primitivo, fica implícita no desejo e não na realização. Mais importante do que colocar na boca da mulher do médico (Julianne Moore) que as roupas estão sujas, apresentar as mulheres no banho da varanda, ou recriar a cena de sexo do médico (Mark Ruffalo) com a garota de óculos escuros (Alice Braga), seria trazer personagens que na dubiedade de suas ações demonstram toda a complexidade que o livro projeta quando tirado elemento tão vital da vida humana.

Quase tudo do livro está lá, mas falta o essencial, e fica claro que Meirelles queria mesmo expor essa urgência da obra, essa crítica social marcante e arrebatadora e por mais que tenha elementos comerciais, fez um filme forte (especialmente na fantástica cena dos cães e a da saída do supermercado), transformou São Paulo (divertido reconhecer tantos pontos da cidade) num local realmente caótico, sujo, feio, desesperador, porém faltou um ritmo compassado em alguns momentos, e que a aflição dos personagens não estivesse só no ritmo do filme, como também em suas emoções.