Posts com Tag ‘Josh e Ben Safdie’

Good Time (2017 – EUA) 

Herdeiros do bom cinema independente americano dos anos 70, os irmãos Benny e Josh Safdie consolidam, definitivamente, sua filmografia como uma das mais interessantes do cenário indie atual. Podemos chamar de herdeiros por pura opção ou bom gosto, afinal eles atualizam estilos notabilizados por Cassavetes e Scorsese para retratar personagens nova-iorquinos marginalizados, ainda que esperançosos, engolidos pela metrópole que não dorme.

A fotografia suja e granulada, visual perfeito para uma história que praticamente transcorre à noite, entre as luzes da cidade e a urgência do protagonista (Robert Pattinson), desesperado em levantar dinheiro para o pagamento da fiança do irmão (o próprio Benny Safdie), preso após o assalto a banco que os dois executaram. A câmera frenética, em ritmo e nos mais inusitados enquandramentos, oferece ao movimento constante de Pattinson, uma nova dimensão entre a coragem e a arrogância de ter tudo sob o seu controle. Seu ímpeto só não é maior que as fragilidades de seus planos.

Os Safdie saem do lugar comum e indicam um personagem sem pudores, ganancioso, mas com um carinho paternalista para seu irmão. Que se torna culpa, parte pela própria influência negativa que ele exerce sob o mais jovem, que aparenta sofrer algum tipo retardo mental. A explosividade, a violência, e principalmente a ingenuidade, reflexos do comportamento de um lar desequilibrado que o roteiro apenas deixa subentendido. O filme dos Safdie jorra pela tela, com pungência e a vibração de quem está sempre correndo do perigo, e se colocando ainda mais sob a roda-viva da marginalidade.

Traga-me Alecrim

Publicado: agosto 28, 2017 em Cinema
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Go Get Some Rosemary / Daddy Longlegs (2009 – EUA) 

A estreia, diga-se de passagem discreta, do estimulante e exasperante Amor, Drogas e Nova York, que como o título dá a entender, trata de uma geração jovem nova yorquina refletida em seus amores e em seu consumo de drogas; deu espaço maior para o cinema dos irmãos Josh e Ben Safdie. E agora, após o sucesso de critica de seu novo filme, em Cannes, Good Time, muitos devem, ou deveriam, estar fazendo a lição de casa que conhecer os primeiros trabalhos da dupla.

A dupla apresenta um cinema que é aquela faísca de novidade, que sempre esperamos do cinema indie americano, e em raríssimos casos correspondido. Pegando emprestado muito aspectos da própria infância deles, e dessa relação de pais separados, em Manhattan, o que temos é um retrato de um adulto ainda incapaz de administrar sua própria vida. E tem que lidar, com essas responsabilidades e as de criar dois filhos (os garotos são filhos de um dos integrantes do Sonic Youth).

É melancólico, carinhoso e ao mesmo tempo assustador. Adultos que ainda não viveram o click da responsabilidade, e talvez nem cheguem lá. Não falta afeto, falta capacidade de administrar o tempo, os afazeres, a vida amorosa, e a guerra entre receita e despesas do final do mês. É tudo tão trágico, quanto engraçado, e em meio a fotografia granulada e essa câmera que assiste, pacientemente, a mentalidade irresponsável do homem grisalho, e semblante de tão adulto, que entendemos um pouco dessa geração que educa seus filhos com liberdade, que ama, mas não consegue dedicar maior parte da vida a eles. E, nesse contexto caótico e quase leviano de paternidade, os Safdie não contemporizam e nem humanizam, são imperfeições que a poesia da cena final apenas verreberam na beleza da vida cotidiana de seus pormenores.