O Grande Hotel Budapeste

ograndehotelbudapesteThe Grand Budapest Hotel (2014 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A patifaria de sempre de Wes Anderson, só que dessa vez travestida da década de 30, o Nazismo e o período entre as duas Grandes Guerras. De um lado o fino, o elegante, um luxuoso hotel e seu consierge (Ralph Fiennes) alcançando o cumulo da sofisticação. De outro lado a estrutura estéreo, imersa em cores berrantes (elevador vermelho e uniformes roxos), dos filmes de Wes Anderson. No meio disso uma intricada trama com direito a roubo de quadro, e vilões patifes (Willem Dafoe, Adrien Brody).

É mais uma aventura para unir atores famosos, e eternos colaboradores de Wes Anderson. Assim, Bill Murray e Owen Wilson aparecem em pequenas pontas, enquanto personagens esboçam humor por meio das sequenciais ágeis e picotadas de Anderson. Ele simplesmente traz seu universo para uma época específica, troca os losers da classe média pela alta aristocracia europeia versus um charmoso gerente de um hotel. Com direito a fuga da cadeia e outras patifarias, Wes Anderson é incorrigível.

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Meia-noite no Jardim Do Bem e do Mal

meianoitenojardimdobemedomalMidnight in the Garden of Good and Evil (1997 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Algumas vezes me pergunto o que, de tão especial, um cineasta encontra num livro, a ponto de adaptá-lo ao cinema. Essa pergunta é ainda mais recorrente ao se conhecer a trajetória de Clint Eastwood, suas posições política, seu estilo narrativo que demonstra sua maneira de ver o mundo. Por outro lado, há tanto de Clint ali que esse contraste inicial converge, pouco-a-pouco, a um denominador comum onde se encaixa perfeitamente na obra do diretor.

A primeira curiosidade (no meu caso, que já estive na cidade, mais ainda) é como a pequeninice de Savannah consegue reservar tantos acontecimentos “especiais” (sobrenaturais, chamam como quiserem), e Clint capaz, não só destacá-los, como resgatar a vida singela e tranquila. O clima bucólico e apaziguador, a praça próxima da prefeitura, a atmosfera precisa da cidade em si.

Antes de virar um filme de tribunal, a narrativa é misteriosa. O escritor (John Cusack) convidado para cobrir a festa de ricaço (Kevin Spacey), que acaba acusado de matar um marginal (Jude Law). O pragmatimo Republicano de Clint, misturado com a discussão a cerca do homossexualismo e transexuais, a sociedade moralista, são tantos conflitos internos entre diretor x cidade x personagens. Mais tarde o formalismo do cineasta se sobressai, mesmo que o fantástico, com entidades e outras esquisitices, estejam presentes, Clint mantém sua mão firme na narrativa clássica, com as críticas à justiça legal, social, e a ética pessoal, fica meio quadradão, de toda forma, é um todo que parecia tão torto e resulta tão arredondado e saboroso.

Terapia de Risco

terapiaderiscosSide Effects (2013 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Estava até aceitando quando a ideia parecia de mais um filme acusando a industria farmacêutica de colocar os lucros à frente da saude pública. Parecia ser outro thriller crítico, nos moldes de Jardineiro Fiel, atacando a industria da tarja-preta, os medicamentos receitados por terapeutas.

Não era, Steven Soderbergh (que promete, mas nunca se aposenta) só queria filmar outro filme sobre um-crime-perfeito. Não adianta ter Jude Law e Catherine Zeta-Jones, e uma história cheia de segredinhos, ninguém mais compra só isso. Terapia de Risco cai na mesmice de um diretor que aceita tudo quanto é tipo de projeto, e trabalha com o piloto-automático há tempos (e não percebe). A injeção de animo que ele acreditar impor, só está no ritmo, não na criatividade.

Anna Karenina

annakareninaAnna Karenina (2012 – ING) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

De uma vez por todas, Joe Wright, prova a si mesmo, que seu negócio são os filmes de época. Apostando em inovações técnicas que oferecem mais dinamismo à narrativa, o diretor revive o tão refilmado clássico de Tolstoi, com um quê de jovialidade.

A corrida de cavalos invadindo o palco do teatro, o balé das câmeras ainda mais presente, a belíssima cena de dança entre Karenina (Keira Knightley) e Vronsky (Aaron Taylor-Johnson). Wright filma a Rússia do século XIX com um glamour e beleza irrepreensíveis.

O aspecto visual deslumbrante e o esplendor sonoro camuflam as fracas atuações masculinas (tanto de Taylor-Johnson, quanto a presença apagada de Jude Law). Mas a questão central mesmo são as fragilidades do roteiro, transformando a Karenina de fibra numa sofredora amorosa, e patinando feio na segunda metade.  A diluição da jovialidade, que consegue eliminar aquele aspecto de “filme lento” que parte do público não gosta, porém fica apenas um drama romântico clichê.

360

360 (2011 – ING/AUT/FRA/BRA)

O pecado é a obviedade, e ela está tão concentrada no roteiro de Peter Morgan (inspirado livremente numa peça teatral de Arthur Schnitzler) que realmente parece um filme de Morgan, com uns toquezinhos modernos do Fernando Meirelles e sua trupe. Enquanto o roteirista se mostra obcecado pela ideia de que “quando encontrar uma bifurcação, escolha um dos lados do caminho”, e contecta pessoas do mundo todo, sempre com o sexo como mote. Meirelles brinca de split-screen, de espertos movimentos de câmera, e cortes dinâmicos nos diálogos.

A fluidez de Meirelles até consegue tornar o tom palatável, já a história envolvendo prostituta eslovaca, traições, estuprador sofrendo tentação e uma série de outros percalços não vai além de uma eterna redundância que precisa ser justificada com diálogos e cenas que expliquem o que já está tão óbvio.

No fundo, nos tornarmos testemunhas de histórias que pouco nos interessam, clichês da vida moderna conectados para mostrar que estamos tão ligadas que o destino de um, depende do outro. É uma premissa frágil se não temos atração por aqueles personagens e seus dramas de cores tão pastéis. Vidas sem brilho, filme sem emoção, por mais que haja certo clímax na relação tensa criada no aeroporto (envolvendo Maria Flor e Ben Foster). Mas é pouco, e no final, ainda teremos mais doses desse mantro moral sobre tomar um caminho (e mudar o destino dos demais).

Um Jogo de Vida ou Morte

Voltando à programação normal desse blog após uma viagem de 17 dias pela China!

Sleuth (2007 – EUA) 

Na versão original de 1972 (que adaptava uma peça de teatro), Michael Caine fazia o amante da esposa do escritor que tenta “negociar” o divórcio, para que possa se casar com a ex-mulher do tal escritor (Laurence Oliver). Dessa vez, Michael Caine é o escritor, e Jude Law assume papel do galã, do outro, do cabeleireiro e aprendiz a ator que tenta subir na vida. Se a transposição do teatro ao cinema, dentro do conceito de todo o filme transcorrer na casa do escritor, funciona bem, o filme dirigido por Kenneth Branagh não consegue passar de um exercício de dois atores brincando de atuar. Porque, o texto é frouxo, quase irresponsável com absurdos de um roteiro que deseja ser espertinho. Não vai além do arrogante.

Esse joguinho de gato-e-rato, de vingança e troca de acusações verbais rápidas ainda engana alguém? Não é possível. Com cinco minutos já temos um filme aborrecido, de personagens aborrecidos brincando de impautérios descabidos. Ou, a final, faz algum sentido, um homem ir interceder pelo divórcio de sua namorada, e aceitar um plano ordinário do ex-marido, para conseguir um dinheiro, que nem na proposta parecia tão fácil? Não desceu.

A Invenção de Hugo Cabret

Hugo (2011 – EUA)

Se pensarmos no que Martin Scorsese representa para o cinema, financiando a recuperação de filmes antigos, dirigindo documentários sobre cinema italiano, além é claro de seu trabalho autoral, a representatividade desse filme se torna ainda maior. Afinal, o grande mote é a bela homenagem ao cinema, principalmente ao mágico Georges Méliès e ao cinema mudo. É Scorsese reafirmando sua vocação de resgatar o que está escondido, e dividir com seu grande público. Tudo começa com aquela imagem cortando uma estação de trem, de forma acelerada, apenas o abre-alas para a longa introdução antes dos créditos iniciais.

É verdade que dali em diante, o filme cai assustadoramente, é a fase mais infanto-juvenil da história, Hugo e sua relação com o pai, sua vida como orfão e etc. O garoto vive no mundo dos sonhos, sua própria história é uma bela fábula da subsistência. Quando surge a segunda metade com o resgate do cinema de Méliès e a história mistura realidade e ficção da biografia do cineasta, o filme dá um salto fabuloso, torna-se encantador, charmoso. A obra de Méliès se encaixa perfeitamente à história e ao 3D, o garoto (Asa Butterfield) é ótimo e descobrimos Sacha Baron Cohen como um ato dando vida ao inspetor cruel da estação de trem, e por fim, temos um golaço de Scorsese.