Mistério da Costa Chanel

Ma Loute (2016 – FRA) 

O curioso cinema de Bruno Dumont. Seus trabalhos mais recentes carregam esse humor caracterico, de personagens facilmente marginalizados por suas imperfeições, bizarrices, ou leves deformações. São comédias de personagens feios, que carregam outras obsessões de seus primeiros filmes também, como a questão religiosa e o mundo no campo, mas especialmente os dois últimos são de uma crítica feroz a uma sociedade que não aceita nada fora dos padrões estéticos e de etiqueta vigentes.

O Pequeno Quinquin foi mais celebrado, e é compreensível por ser um filme bem mais bem resolvido, por mais que ambos sejam facilmente reconhecíveis como filhos-do-mesmo-pai. Aqui estamos no início do século XX, uma familia aristocrata francesa se relacionando com os moradores da região inóspita, enquanto a polícia investiga o desaparecimento de duas pessoas. Os ricos são pessoas execráveis, os pobres, calados e mais pé no chão são canibais. Entre eles, a dupla atrapalhada de policias, o romance proibido de dois jovens, e a capacidade de Dumont em nos fazer rir com a sofisticação da simplicidade. Pena que, os vinte minutos finais sejam pavorosos e capazes de rapidamente destruir toda a consistente construção de personagens.

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Acima das Nuvens

acimadasnuvensClouds of Sils Maria (2014 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Irma Vep encontra ecos de Ingmar Bergman. O prolífico Olivier Assayas reencontra a metalinguagem, a mistura de vida real/ficção, o espelho entre personagem e vida profissional de uma atriz. Maria (Juliette Binoche) é uma das grandes atrizes do cinema europeu, vive um momento delicado com divórcio, a morte do grande amigo dramaturgo e a pressão por voltar à peça de teatro que a consagrou há décadas, dessa vez no papel da protagonista mais velha.

Personagem-chave é sua assistente (Kristen Stewart) pessoal, que não só vive como companhia e babá, mas também a confronta, expõe opiniões, a ajuda nos ensaios. O texto é de grande complexidade, o confronto entre as duas se dá nos ensaios, e fora deles. Nas montanhas de Sils Maria passam nuvens que se parecem com uma cobra, entre as montanhas e a cabana a intensidade do relacionamento entre essas mulheres lembra Persona, porém regido por outros temas, por outras alternâncias.

Em seu filme, Assayas provoca a exposição na mídia de astros, as diferenças entre ser ator nos EUA e Europa, a arrogância e a futilidade, o mundo dos tabloides. Porém, principalmente, o jogo entre o jovem e o velho, a dificuldade de aceitação do envelhecimento. Jo-Ann Ellis (Chöe Grace Moretz) coloca mais lenha na fogueira das vaidades, nos confrontos femininos. Ela é a atriz que assumirá o antigo papel de Maria, a atriz do momento que debocha da mídia, que perde a linha, que enlouquece os adolescentes. Ingredientes preciosos para Assayas apimentar os dramas de Maria, expor suas vaidades e imperfeições.

Os ecos de Bergman ecoam pelas montanhas de Sils Maria, a intensidade sexual é substituída por conceitos pessoais, pela vida real que se mistura com o profissional (nisso, a assistente pessoal é a mistura da mistura), por essa vaidade de quem já tem tudo na vida e ainda tão carente.

Camille Claudel 1915

camille_claudel_1915Camille Claudel 1915 (2013 – FRA)

Bruno Dumont não está preocupado com a biografia de Camille Claudel (Juliette Binoche), ele até tem o cuidado de situar o público,com breves resumos sobre a vida da escultora e namorada de Auguste Rodin, no início e final do filme. Seu interesse está na questão religiosa (tema recorrente em seus trabalhos) que determinou a exclusão da vida social de Camille em suas últimas três décadas de vida.

O fervor católico do irmão aprisiona Camille num hospício. Entre tanta gente maluca, que baba e geme, fica dificil manter a mente sã, e ela sofre. Sofre com seu temor de ser envenenada, com o isolamento, a distancia da vida social.

camilleclaudel1915_2É o filme mais convencional de Dumont, também o mais contido, não que isso o torne acessível, pelo contrário. Passamos quase o tempo todo desgastados com a tristeza e lágrimas de Camille, uma vida dolorosa e indigesta, até que em duas cenas (o encontro entre os irmãos e a conversa com o médico) sucitam os a temática de Dumont, a crueldade das convicções humanas.

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Os Amantes da Ponte Neuf

Les Amants du Pont Neuf (1991 – FRA)

Pode parecer delírio meu, mas a representação da Ponte Neuf me parece aqui quase apocalíptica, como em filmes da estirpe de Blindness. Tudo porque ela estava em reforma no início dos anos 90, e aqui povoada por dois mendigos. Um deles é um artista circense frustrado (Denis Lavante) que se apaixona por uma linda mulher enquanto a mesma se banha numa praça (Juliette Binoche). Ela é uma artista que largou sua vida, foi morar na rua, tudo por um coração partido, e pela doença que a está deixando praticamente cega.

Nasce um amor, mas é uma relação suja, quase violenta, extremamente dependente. Ele, viciado em álcool e só dorme com soníferos. Ela se recompondo emocionalmente enquanto perde sua visão dia a dia. De repente se apaixonam e desfilam um amor truculento por entre ruas, vivem a despreocupação, pequenos golpes para sobreviver.

Leos Carax filma as comemorações do bicentenário da Revolução Francesa, seus amantes gritam pela ponte enquanto os fogos de artifício iluminam o céu de Paris, a visão surge como um quadro, seu estilo neobarroco de um mundo utópico, futurista e erótico, sua visão poética pessimista invade as cenas. O amor egoísta, a dependência lasciva, a ponte testemunha a doçura por trás de aparências tão virulentas e “desprezíveis”.

Cosmopolis

Cosmopolis (2012 – EUA)

Essa adaptação de David Cronenberg, do livro de Don DeLillo, me parece um ser estranho dentro da mais recente sequencia de filmes do cineasta canadense. A trama traz uma vontade alucinante de se colocar como uma feroz crítica ao capitalismo, não faltam movimentos e ideias a esse respeito (o protagonista aposta contra o Yuan, brincam em transformar o rato na nova moeda forte internacional, enquanto isso desfila de limusine por Manhattan).

Aliás, destino esse que parece inalcançável, será um dia na vida do multi-bilionário Eric Parker (Robert Pattinson, esforçado, mas tão fraco). O excêntrico ricaço vive do mercado de ações, quer cortar o cabelo enquanto a cidade está um caos, entre esse trajeto até o cabeleireiro se reúne com tipos, transa, discute mercado de capitais, vive atentados contra sua vida.

O problema está justamente no que o filme deveria guardar de melhor, os diálogos. A dose de filosofia barata, de discursos demagogos sobre a excentricidade do poder e a necessidade do novo, pelo novo, vem retocada por símbolos de luxuria e poder tão fortes e explícitos que não conseguem ir além de uma verborragia de futilidades elitistas.

Cronenberg aparece aqui e ali com enquadramentos fora do comum, com cenas esquizofrênicas na limusine, mas nada que dê a ele sua identidade, são diálogos furados e Pattison com cara de drogado em busca de alguma aventura que o cause adrenalina.

Elles

Elles (2011 – FRA/POL) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Uma jornalista (Juliette Binoche) entrevistando duas jovens universitárias que mantém, às escondidas, sua vida de prostituição. Não há nada, além disso, a diretora Malgorzata Szumowska se esforça em dividir a trama entre a vida das duas entrevistadas, e da jornalista de classe média, que começa afastada e termina muito mais próxima das duas entrevistadas do que imaginava.

Falta de tudo, de inspiração na direção, e um roteiro minimamente interessante, até qualquer coisa que pudesse cativar e até explicar a existência desse filme. Simplesmente não existe, vive do nome de Binoche e não consegue nada além da presença da atriz. Um pouco da vida particular das garotas (uma tem namorado e emprego de fachada, a outra faz de tudo para esconder da mãe na Polonia), um pouco de desejos absurdos de clientes, é o tipo de filme que tentar trazer um ar feminista, apenas em sua boa vontade.

Invasão de Domicílio

Breaking and Entering (2006 – ING/EUA)

Ainda fico me perguntando o que me instigou nesse filme. No balanço geral não gostei, mas havia algo ali que me interessava, que me parecia realmente interessante. O diretor Anthony Minghella tenta, simultaneamente, dar bondade e mostrar defeito em todos seus personagens. Peguemos por exemplo o arquiteto (Jude Law) que com interesses econômicos e boas intenções decide traçar um projeto para reurbanizar um bairro suburbano de Londres. Depois de dois assaltos ele fica de tocaia, descobre um garoto imigrante por trás dos assaltos e ainda quer ajudá-lo de alguma forma, é muita bondade.

Por outro lado, ninguém pode ser bonzinho demais, então ele precisava ter problemas familiares, um casamento oco e assim arrumar uma amante (a imigrante Juliette Binoche). E de alguma forma, todos os personagens seguirão esse estereótipo de defeitos e bondades, de perdões e erros. Isso é ser humano? Talvez até seja, para Minghella definitivamente é.