Posts com Tag ‘Karim Aïnouz’

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (2019 – BRA)

Melhor filme na prestigiada mostra Un Certain Regard, em Cannes, um feito e tanto para o cinema brasileiro. Agora chega aos cinemas com a possibilidade real de estar na lista final dos indicados a Filme Estrangeiro. O diretor Karim Aïnouz de volta aos holofotes, em grande estilo. Um melodrama clássico, abraçando o folhetim sem medo de ser feliz e provando que uma narrativa clássica não precisa soar envelhecida.

Da história de uma família, com duas filhas, cuja uma delas se apaixona por um homem, e é rejeitada pelo pai antiquado, nasce a narrativa paralela de duas irmãs, tão próximas e tão distantes. Numa fotografia que é um espetáculo à parte (escura e tão capaz de mostar um outro lado da cidade, distante dessa coisa solar tão presente), Karim flerta, novamente, com a boêmia carioca de Madame Satã, e principalmente com os costumes do início do século, o conservadorismo que afasta pessoas e estragava vidas.

E esses pequenos retratos da classe média brasileira à época enriquem esse amor de irmão. É tão significativa a idealização do sucesso no outro, com o fiapo de informação se cria uma narrativa do que possa ser a vida da irmã, quando a sua é de total decepção. Afinal, também há o aspecto  de ser mulher naquele momento, a sbubmissão, a obrigatoriedade de segir padrões estabelecidos. Não é um filme que encanta com cenas espetaculares, o encantamento vem do conjunto, da possibilidade de passar anos ao lado dessas duas mulheres corajosas, inquietas. Até chegar em cena Fernanda Montenegro, e ai sim arrasar com os mais sentimentais, em duas ou três cenas capazes de tocar profundamente quem se envolveu com as vidas de Eurídice e Guida.

praiadofuturoPraia do Futuro (2014) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Não é um filme sobre um salva-vidas (Wagner Moura) que larga tudo por uma paixão em Berlim. Nem a de um motoqueiro estrangeiro, cujo amigo (Clemens Schick) morre afogado na Praia do Futuro. E nem a de um garoto (Jesuíta Barbosa) que tinha o irmão como herói exemplar e o vê, simplesmente, desaparecer sem dar vestígios. Não é nada disso, o filme de Karim Aïnouz é sobre emoção e ser livre. A emoção está presente na emocionante sequencia de afogamento, no início do filme, na relação dos irmãos quando o mais novo o chama de Aquaman, e na explosiva paixão nascida para curar a dor da perda de alguém próximo. O ser livre está presente nas motos, nas baladas de rock com cabeças agitadas, nos belos planos abertos que mostram a praia cearense ou uma Berlim profundamente triste.

Com duas ou três cenas, que funcionam muito bem, Karim posiciona seus personagens. Dali em diante é um filme de silêncios, de olhares, de emoção (pela dor da perda, pela raiva do reencontro, ou pela paixão ardente). Os planos fechados na intimidade dos personagens, a praia ou os telhados alemães como libertação espiritual, Karim deixa de lado o final de seus filmes em estrada, para partir por ela, e buscar o outro lado. A parte alemã, de tão carregada, parece presa e propensa a mais esconder do que revelar (como faz com a cidade de Berlim que ao tentar ser oposta a Praia do Futuro se torna mais que fria, feia). Um cinema que amadurece, com um peso mais difícil de carregar do que a leveza de um Céu de Suely ou Viajo Porque Preciso e Volto Porque Te Amo. Seu cinema mostra uma continuidade, por mais que os primeiros trabalhos fossem mais reveladores (não tão emotivos quanto esse), Karim segue construindo personagens que são pequenos heróis, de suas próprias vidas.

oabismoprateado

O Abismo Prateado (2011) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Tomando por base a fabulosa canção de Chico Buarque (Olhos nos Olhos), o diretor Karin Aïnouz narra um momento dramático na vida de Violeta (Alessandra Negrini). O inesperado rompimento do casamento, via mensagem de voz no celular, desbaratina a dentista. Ela não consegue trabalhar, pensar, cuidar do filho. Único refugio, abandonar tudo, sair por ai, sofrer.

Quem conhece a canção sabe que ela não trata do rompimento, mas de um momento logo a seguir, um pouco mais sereno, que demostra forte afeto, porém uma maturidade para seguir adiante. Aïnouz escolhe a fase traumática, neurótica, e simplesmente mergulha a protagonista na noite carioca (bares, motel, praia, banheiro público). Um universo bem condizente com seu cinema, porém pouco voluntarioso à própria história, seja pela incapacidade dos coadjuvantes da noite fugirem do lugar-comum, seja pela condução quase precária de Aïnouz pelo sofrimento tão dolorido e inesperado dessa mulher. E ainda há as versões da música, populares, distantes da força dos versos de Chico.