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Boxe

Publicado: novembro 8, 2015 em Cinema, Mostra SP
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boxeBox (2015 – ROM) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Muita presunção do romeno Florin Serban (que ganhou destaque internacional com Se Eu Quiser Assobiar, Eu Assobio), em buscar identificação, ao unir, dois estranhos que se esbarram na rua. Cristina (Hilda Péter) já é uma mulher madura, casada, e atriz de teatro. O jovem Rafael (Rafael Florea) trabalha num lava-rápido, enquanto treina para se tornar pugilista.

Serban narra o cotidiano dos personagens em separado, até que Rafael passa a seguir Cristina, espécie de paixão à primeira vista. O cineasta romeno posiciona a câmera na nuca de seus personagens, enquanto caminham, traz assim um misto entre o que eles enxergam, e a dramatização (não clara) de seus personagens. Seu tiro sai mesmo pela culatra após os desconhecidos serem apresentados. Serban não é exatamente um poeta das imagens, trabalha com formas cruas como elemento principal em seu cinema, trazendo assim a carga dramática. E essa relação lúdica que o filme esboça, mais funciona em diluir o impacto (da crise conjugal, das dificulcades de um jovem entrar num mundo prostituido), do que qualquer outra proposta.

amontanhamagicaLa Montagne Magique / The Magic Mountain (2015 – ROM) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O docudrama de animação, dirigido pela romena Anca Damian, revive as “aventuras” do pintor, fotógrafo, alpinista e guerrilheiro Adam J. Winkler. Desde jovem, Winkler se colocou como um militante anti-comunista, principalmente por alguns familiares terem sido assassinados em Katyn, durante os anos 40. Após algumas ações na Polônia e França, foi para o Afeganistão lutar contra a invasão Soviética, lá pelos anos 80. O filme todo é narrado pela perspectiva de Winkler, contando sua biografia à filha Anna.

A conjunção de diversas técnicas de animação (incluindo colagens, imagens de arquivo, fotografias, stop-motion, aquarelas e etc) causa um visual especial, razoavelmente original. Por outro lado, em muitos momentos infantiliza ou torna demais “fofinhas” cenas de alto impacto (como guerras e combates). A irregularidade rivaliza com a beleza artística. É fácil notar similaridades com A Imagem que Falta ou Valsa com Bashir, tanto em temas, como em algumas dessas soluções visuais, porém bem longe do impacto desses outros dois filmes. Sobra cinema narrativo, falta espaço reflexivo.

ailhadosmilharaisSimindis Kundzuli / Corn Island (2014 – GEO) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Abkhazia é uma região parcialmente independente da Geórgia. Com governo independente e reconhecido por poucas nações, a Geórgia tenta retomar a autonomia da região, o conflito segue por anos. Naquela região há um rio que durante a primavera diminui seu volume de água criando pequenas ilhas em seu leito. Numa dessas ilhas que o senhor (Ilyas Salman) e sua filha/neta (Mariam Buturishvili), nunca saberemos, constroe uma pequena casa e plantam milho para o inverno.

Silencioso e quase documental, o filme que venceu o Globo de Cristal (prêmio máximo do Festival de Karlovy Vary) se encarrega de envocar o minucioso trabalho de construção do casebre de madeira, arar a terra, pescar. O convívio mudo entre os dois, o rio, e os pássaros. O milho cresce, e barquinhos com militares dos dois lados do conflito observam o pequno milharal. O diretor Giorge Ovashvili alterna enquadramentos, explora detalhes, cria tensão com a jovem que começa a florescer e os militares que babam no rastro feminino ali presente.

Como pano de fundo o conflito, as raras falas se dividem em pequenos dialetos, enquanto o milho cresce, o inverno se aproxima, e a jovem amadurece. Ovashvili estabelece cumplicidade entre público e a singela vida daqueles dois, o tempo de chuva se aproxima, o som dos disparos entre os militares por entre a mata. Político e delicado, virtuoso e modestom, e ainda capaz de esbanjar a beleza da região sem sair de um pequeno cubículo espaço de terra cercado de água.

lugarnenhumnaafricaNirgendwo in Afrika / Nowhere in Africa (2001 – ALE) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Mais uma vez nos deparamos no cinema com a Segunda Guerra Mundial, a diretora alemã Caroline Link,  baseando-se no livro autobiográfico de Stefanie Zweig, resgatou, novamente, essa época tão esmiuçada pelo cinema. O filme corre sob outra ótica, as locações são africanas, retratando a vida de uma família de judeus alemães que fugiu do país, antes da guerra começar. Já era uma fase branda de perseguição Nazista aos Judeus, com pequenas manifestações e nenhuma violência.

Walter Redlich (Merab Ninidze) partiu para o Quênia sozinho, depois trouxe a esposa Jettel (Juliane Köhler) e a filha Regina (Lea Kurka). O contraste de estilos de vida era insuportável para a burguesa europeia, Jettel sonhava não abrir mão de seus vestidos de gala, de suas porcelanas, coisas sem valor numa terra de seca. Alguns brancos vivendo entre tribos de negros que ganham pouquíssimo para trabalhar na lavoura, lugar nenhum na África é aonde foi parar Jettel, pelo menos é como ela pensa nos primeiros dias.

A pequena Regina adapta-se prontamente a magia africana, a liberdade proporcionada pelo novo estilo de vida, o convívio com a natureza, a influência dos amigos negros (principalmente o simpático cozinheiro Owuor (Sidede Onyulo)), a pequena jovem sente como se aquela fosse sua verdadeira pátria. O filme não trata apenas de uma aristocrata mimada, que precisa adaptar-se a sua nova realidade, de vida difícil e trabalhos manuais.

Dessa idéia Caroline Link disserta sob temas secundários e emoções brandas, assuntos como a solidão e a amizade, a infidelidade, o choque direto de culturas, a humildade. O estilo de Link é delicado, exclusivamente narrativo, e de abordagem leve, nada além do convencional. Tudo parece tão verossímil, tão real, sejam as incertezas dos protagonistas, sejam os pontos de vistas antagônicos, e que mudam completamente com o passar dos anos.