Posts com Tag ‘Kate Winslet’

Wonder Wheel (2017 – EUA) 

E lá vem Woody Allen, novamente, com outro filme inofensivo, mesmo quando trata de assuntos que tenham algum grau de relevância (no caso aqui há violência doméstica sendo tratada como rotina). O mundo romântico fantasioso de Magia ao Luar, e outros de seus filmes, ganha palco no apartamento de um casal que trabalha em Coney Island nos anos 50.

Essa é a vez de Justin Timberlake ser o narrador, de maneira didática e quase infantil. Ele é o salva-vidas, metido a escritor, no centro de um triangulo amoroso que envolve madrasta e enteada. Quase todos os seus diálogos possuem referência à tragédias da literatura, numa forma de Allen telegrafar os caminhos que sua trama deve tomar.

E nesse clima de amores intensos, fantasia de um parque de diversões, e vida financeira sofrida, vive a dramática e infiel garçonete (Kate Winslet) em toda sua intensidade dramática de dona-de-casa reprimida. Allen não se cansa de repetir os comportamentos de seus personagens, deixando claro e evidente o que virá a seguir. E assim, Roda Gigante gira lentamente, sempre em torno desse universo meio agridoce e encantado que o cineasta sempre retorna.

stevejobsSteve Jobs (2015 – EUA/RU) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Espaço tão curto de tempo e tantos documentários e filmes de ficção sobre Steve Jobs, fica difícil oferecer o novo ao público que tão bem já conhece fatos e personagens dessa biografia. Essa nova abordagem é calcada num tripé, em três nomes: Michael Fassbender, Danny Boyle e Aaron Sorkin. E é o roteirista Sorkin a presença mais marcante, afinal a arquitetura meticulosa desse roteiro é a espinha dorsal de tudo.

Sem contextualizar, o filme ocorre em três momentos importantes de Jobs (Fassbender), minutos antes do lançamento de três produtos. Nos encontros nos bastidores se desenvolve todos os elementos dramáticos da vida de Jobs, encontros com amigos (Seth Rogen e Michael Stuhlbarg) que ajudaram a fundar a Apple, ou com a mulher (Katherin Waterson) cuja filha ele não quer assumir a paternidade, oou com o CEO (Jeff Daniels) que ele contratou. Sempre com a fiel escudeira, conselheira, secretária de luxo, Kate Winslet, cuidando dos detalhes da apresentação, do temperamento perfeccionista e maquinal emocionalmente de Jobs.

De tão preso a essa estrutura, que lembra muito esses bastidores de Birdman, com encontros tão coreogrados e personagem em constante movimento, a fórmula fica desgastada rapidamente. É uma ideia criativa para encurtar o tempo de contar a história, só que a disciplina de Boyle, que usa alguns pequenos flashback’s para o mínimo de contextualização necessária, acaba se tornando seu maior empecilho. A estrutura deixa o filme artificial, repetitivo, e excessivamente verborrágico.

A figura do anti-herói humanizado pelo arco dramático da relação com a filha, enquanto seus destemperos no trato profissional o tornam num monstro cuja “genialidade” ajudou a construir como mito. Que tenhamos um fôlego antes que sua biografia seja revisitada, muito menos sem essas sacadinhas falsamente não-emotivos, que Boyle tenta nos pregar.

 

Carnage (2011 – FRA)

Os filhos tiveram uma briga de rua, os pais resolvem se encontrar para discutir o caso, esperam retratação, fazem um acordo escrito. Tudo tão pacífico e civilizado que termina num cafezinho na sala, uma maravilha do mundo civilizado. Adaptando a peça teatral Deus da Carnificina, o cineasta Roman Polanski cria um filme fabuloso, uma nova versão de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, durante pouco mais de um hora dois casais saindo de uma simples conversa (onde não expuseram totalmente suas visões do caso) para uma queda total de máscaras, chegando a suas verdadeiras facetas sem preocupação com status social e etiqueta.

Desse ponto em diante, temos a mais completa e ácida comédia dos últimos tempos, Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly derramando todo o veneno de vidas reprimidas pela sociedade e pelas convenções sociais. A câmera nunca sairá dos arredores da sala daquele apartamento, o trabalho minucioso de Polanski e da edição ágil e sutil, oferecem todos os ângulos de personagens e suas verdades verborrágicas até que alcancem a verdadeira honestidade.

O Leitor

Publicado: fevereiro 11, 2009 em Uncategorized
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The Reader (2008 – EUA/ALE)

Stephen Daldry posiciona-se como um cineasta de estilo acadêmico, com convicções formadas e de coesão reluzente. Em algum momento seus personagens, impreterivelmente, enfrentarão a culpa (e provavelmente dela não se libertarão). O Leitor inicia-se sob um romance polêmico, uma mulher vivendo um romance com um adolescente de quinze anos. Ela é prática, direta, coloca-se rigorosamente no papel de amante, e principalmente de tutora sexual do garoto que apenas derrama-se de paixão pela mulher madura de belos traços. Antes ou depois do sexo ele lê, desde romances a Odisséia de Homero, e a mera “cobradora” de bonde sorri, chora, emociona-se com as interpretações de Michael (David Kross). Até que Hanna (Kate Winslet) desapareça misteriosamente da vida do garoto, mas aí já mergulhamos nos personagens e compreendemos a rebeldia familiar de Michael e os limites da vida suburbana de Hanna.

Se a primeira parte apontava para esse romance polêmico, calcada nas fortes cenas de sexo e no aprofundamento literário, o roteiro baseado no livro de Bernhard Schlink traz o reencontro após oito anos da ruptura. E a vida magoada do garoto de coração partido parece o menor dos temas, a discussão parte para os crimes nazistas, para a participação e culpa de soldados nas atrocidades xenófobas, para sequencias de um julgamento marcada pela sinceridade, pela ingenuidade, e principalmente pela inocência de quem escolhia mulheres que seriam executadas como ovos para fazer a massa de um bolo. O ponto forte do filme é exatamente a complexa relação que o público responderá após toda a bagagem de conhecimento dos personagens quando da fase mais romântica. O filme humaniza vilões, sem redimir pecados, apenas mostra maneiras diferentes de se olhar fatos, e nos coloca numa discussão que pode nos levar a uma análise no futuro de atos que cometemos no presente e podem ser graves no futuro (claro que no filme trata-se de um esfera muito mais eclipsada, incomparável).

Daldry peca em detalhes, alguns reclamam da falta de cuidado no envelhecimento de Kate Winslet, quando os problemas maiores são outros como a equivocada escolha de Ralph Fienes para atuar como um alemão gastando um inglês com tom tão fortemente britânico. Aliás, uma história tão alemã falada em inglês é praticamente um sacrilégio. E não é só isso, a necessidade de oferecer respostas, de trazer um pré-julgamento dos personagens, esconda a profundidade da discussão, só que quando resume toda essa história num simples segredo que revelado mudaria o rumo de tantas coisas, o filme recupera seu brilho e novamente nos oferece discussão, análise e boa dose de polêmica.

embuscadaterradonuncaFinding Neverland (2004 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Pegando emprestado, parte da vida do dramaturgo J. M. Barrie (Johnny Deep), mais precisamente, a época em que criou sua mais famosa obra, Peter Pan, o filme revive parte dos eventos reais que serviram de inspiração ao dramaturgo, para criar e montar, a citada peça, após vir de um grande fracasso nos teatros londrinos do início do século XX. A história do garoto que nunca envelhece, e luta contra o temível Capitão Gancho, serve como metáfora do tempo, e foi totalmente baseada no relacionamento de Barrie com uma modesta família de quatro inventivos garotos (órfãos de pai) e sua adorável mãe.

Mais interessante do que só acompanhar o processo de criação, retirado sagazmente das brincadeiras vividas durante tardes de um verão, é notar a influência da amizade sob a vida de cada um deles. Seja o amadurecimento dos garotos, seja a relação entre Barrie e Sylvia (Kate Winslet), ou mesmo no matrimônio de Barrie, o filme aborda cada relacionamento com delicadeza e desapego à pieguice.

Após o extremamente denso A Última Ceia, o diretor Marc Forster mostra versatilidade pelo mundo da fantasia divertida, sem perder tempo com clichês baratos. Deep vai além de caracterizar um personagem, reconstitui magicamente a figura do autor que é parte da inspiração de sua própria criação. O garoto Peter (o ótimo Freddie Highmore) do filme pode ser visto como influência, mas as crianças apenas liberaram a personalidade do próprio Barrie para que Pan brotasse.

brilhoeternodeumamentesemlembrancasEternal Sunshine of the Spotless Mind (2004 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Definitivamente ele está na moda, foi rápido que Charlie Kaufman se tornou um dos nomes mais bem quistos no momento. Com seus roteiros inventivos, originais e que transformam um filme num complicado jogo de quebra-cabeças para o público, caiu nas graças de uma indústria que pouco espaço dá a quem foge da cartilha. Suas amalucadas histórias, escapando das fórmulas prontas, são a nova vedete do público fã de ser guiado (conduzido) por roteiros cheios de sacadas. Aqui, o roteirista volta a trabalhar com o diretor Michel Gondry em mais uma trama com suas marcas registradas.

A trama vem do romance envolvendo o introvertido Joel (Jim Carey) e a espevitada e impulsiva Clementine (Kate Winslet), que como ela mesmo gosta de dizer, muda de personalidade ao mudar a cor do cabelo. A clínica Lacuna descobriu uma maneira de apagar lembranças indesejáveis das pessoas. Desapontada com o andamento de seu relacionamento, Clementine decide apagar Joel de sua memória. Ao descobrir, um Joel amargurado se propõe a fazer o mesmo, mas no meio do processo arrepende-se. Para que Clementine não seja apagada, Joel tenta encontrar um lugar em sua mente para escondê-la, uma corrida frenética dentro de sua memória.

Entre tantas artimanhas, Kaufman quase tenta esconder que se trata de uma comédia romântica. Nos momentos cruciais, nas cenas em que o puro sentimento (o amor, eterno combustível do gênero) precisa ser evidenciado, a história naufraga. Falta o essencial e sobram dois atores competentes em seus personagens. Na eterna tentativa de fugir dos clichês, o roteiro derrapa em suas invenções e nas esquecíveis histórias de seus coadjuvantes. Grande parte do problema está no própria dupla direção-roteiro, que, se por um lado mostra suas armas antes do tempo e não consegue embalar no apelo amoroso, por outro encontra inusitadas e deliciosas saídas para completar sua história de maneira divertida. É um filme de uma ideia linda, amplamente romântica, e que funciona perfeitamente bem em separado ao todo. Mas, o peso de carregar com humor, de ter uma grande sacada a cada nova sequencia, é sempre um fardo que a abundância criativa quer dar conta e se distancia do harmônico. Será que Kaufman traz um prestígio parecido ao que Woody Allen oferecia no passado? Afinal tantos coadjuvantes de luxo que parece que todos querem trabalhar num filme dele.