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Wendy & Lucy (2008 – EUA) 

Tão bonito quando o cinema faz do pouco, muito. É o caso do filme que solidificou a carreira de Kelly Reichardt como um expoente do cinema indie americano, mas com assinatura própria, distante da pobreza pasteurizada da maioria dos filhos de Sundance. Do pouco, muito, porque a história é tão simples, quanto real e dolorida. Wendy (Michelle Williams) conseguiu um emprego no Alasca, e tenta viajar até lá, mas o dinheiro está curto e as dificuldades só crescem.

Reichardt filma a alma dessa jovem em dificuldade. Faminta, desesperada, sem poder contar com ninguém. Não espere um melodrama, sua câmera é crua, dolorosa, e variando entre plano fechados ou bem distantes, formando assim um ritmo narrativo que permite ao público respirar, e colocar sua protagonista ora como mais uma no mundo, ora como a que passa as mazelas da humanidade e parece não ter saída. Afinal, estamos na crise que assolava os EUA economicamente, e sua situação representa a de tantos outros jovens, sem esperança, fruto de um sistema em colapso. Seu drama abre espaço para outros dramas dos personagens que ela encontra pelo caminho, enquanto tenta reencontrar sua fiel companheira, a cadela Lucy.


Festival: Cannes 2008

Mostra: Un Certain Regard

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Antes de mais nada, é importante destacar, que a análise e a escolha dos melhores filmes do ano de 2016 ficou comprometida pela ausência de alguns dos principais destaques da temporada. Estes filmes já pintam como favoritos a participar da lista do ano que vem. Não foi possível descobrir filmes como Nocturama, Personal Shopper, Manchester à Beira-Mar, Moonlight, La la Land e Hermia & Helena.

Lembrando que valem filmes lançados em até dois anos atrás, portanto a partir de 2014, e vistos por esse blog no decorrer de 2016.

elle

  1. Elle, de Paul Verhoeven
  2. Sieranevada, de Cristi Puiu
  3. Canção para um Doloroso Mistério, de Lav Diaz
  4. Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
  5. Toni Erdmann, de Maren Ade
  6. Certas Mulheres, de Kelly Reichardt
  7. O. J.: Made in America, de Ezra Edelman
  8. Martírio, de Vincent Carelli
  9. Jovens, Loucos e Mais Rebeldes, de Richard Linklater
  10. Os Pensamentos que Outrora Tivemos, de Thom Andersen
  11. Correspondências, de Rita Gomes de Azevedo
  12. Porto, de Gabe Klinger
  13. Belos Sonhos, de Marco Bellocchio
  14. A Qualquer Custo, de David Mackenzie
  15. Loving, de Jeff Nichols
  16. O Que Está Por Vir, de Mia Hansen-Love
  17. Três, de Johnnie To
  18. Rua Cloverfield, 10, de Dan Trachtenberg
  19. Homo Sapiens, de Nikolaus Geyrhalter
  20. John From, de João Nicolau
  21. Graduation, de Cristian Mungiu
  22. A Grande Aposta, de
  23. Paterson, de Jim Jarmusch
  24. A 13ª Emenda, de Ava Duvernay
  25. O Filho de Joseph, de Eugène Green

Dito isso, a primeira análise possível é destacar a quantidade de grandes filmes que tem mulheres como protagonistas. São personagens fortes e marcantes, e que fogem de um clichê fragilizado. Ao contrário, são personagens extremamente determinadas, e de graus de complexidade, e camadas, que não só traduzem diferentes posições das mulheres na sociedade atual, como finalmente oferecem tratamento igualitário.

Peguemos os exemplos de Elle e Aquarius, onde Isabelle Huppert e Sonia Braga lutam por seus anseios pessoais, sejam eles profissionais ou amorosos, se permitem manter a sexualidade ativa e decidida, e compram briga com a juventude sem qualquer medo que qualquer discussão fuga da argumentação. São mulheres vibrantes, independentes, modernas e ainda assim influenciadas pelo passado. Nessa mesma linha há aquele que foi considerado pela critica o filme do ano, em Toni Erdmann temos o embate entre pai e filha, ela uma executiva workaholic, distante da família e fria nas decisões profissionais. A diretora alemã, Maren Ade, mistura as fragilidades e fortalezas dentro desse vulcão em erupção que é sua protagonista, aterrorizada pelo pai debochado e intrometido que quer sua atenção.

Se falamos em mulheres, o novo filme de Kelly Reichardt é o destaque ainda maior, afinal, são três histórias e quatro mulheres protagonizando tipos femininos dessa sociedade moderna americana. E novamente as fragilidades e fortalezas são destrinchadas com exímia sensibilidade.

Contraponto a tudo isso vem o novo filme de Richard Linklater, uma espécie de continuação espiritual do filme antecessor. Jovens, Loucos e Mais Rebeldes acompanha um grupo de calouros da universidade que fazem parte do time de baseball, vivem de festas e de conhecer as garotas. Alguém pode sugerir uma visão machista, mas a sensibilidade de tratar a idade, pela visão masculina, e a aproximação com o sexo oposto, devem afastar esse pensamento inicial. Seu filme é outra ótima representação de uma juventude imatura, despreocupação com qualquer coisa além da diversão.

Dois documentários que dissecam seus temas são grande destaque do ano. Primeiramente O. J: Made in America que não só refaz toda a trajetória do crime que marcou os EUA, com seu grande astro de futebol americano, como contextualiza a questão negra à época e sabiamente relaciona os desfechos do julgamento. No Brasil, Martírio (que será lançado em circuito em 2017) é extremamente atual e estuda a questão do índio. É um retrato completo e constrangedor de um país que privilegia sempre o mercado frente o ser humano. Falando em política, novamente temos Lav Diaz resgatando a história de seu país (Filipinas). Numa viagem de oito horas de um cinema vigoroso, viajamos pela história de ditadores, burguesia fútil e a caça aos lideres da revolução que pregam democracia e liberdade.

Dessa forma temos política, preconceito, violência e injustiça representados no cinema, talvez tenha faltado aqui a questão que aflige a Europa que é a imigração e o terrorismo. E, para encerrar essa pequena amostra, outro documentário de Thom Andersen. Os Pensamentos que Outro Tivemos é um delicioso estudo a partir de livros de Deleuze, a partir de ciclos de destruição e restauração e exemplos caldos no cinema de Godard, Cassavetes, Griffith e Pedro Costa. Representa  um cinema que enxerga para dentro da sétima arte, que analisa, questiona e compara a si próprio, uma autocritica e uma autorreferencia instigante.

Top 25 – 2015

Top 10 – 2014

certasmulheresCertain Women (2016 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Os que gostam do cinema de Kelly Reichardt já podem aumentar o grau de empolgação com seu novo filme, porque este espaço já o considera um dos bons destaques do ano. Sem perder aquele ar de western moderno que seu cinema exala constatemente, Reichardt narra em três histórias, quatro mulheres cujas vidas se cruzam direta e indiretamente, na pacata cidade de Livingston, Montana. Unidas, ela têm em comum, a fortaleza do protagonismo de suas próprias vidas, que impõe não só por sua independência, como pelo desejo (tanto profissional e econômico, quanto amoroso) como um dos pilares motivacionais de cada uma delas.

A primeira é a advogada (Laura Dern), que sofre com seu cliente machista, que não lhe dá ouvidos, e ela precisa se reinventar, além dos seus conhecimentos jurídicos, para cumprir suas obrigações profissionais e até seu orgulho de enfrentar o caso e o cliente, é um bom exemplo. Outro caso é o da mulher (Michelle Williams), que toma a frente das negociações, para adquirir o terreno onde pretende construir a nova casa para ela, seu marido e a filha adolescente. O marido é passivo, ela é quem toma todas as rédeas da situação.

Tomar as rédeas é o que faz a, até então tímida, fazendeira (Lily Gladstone) em sua obsessão romântica por sua professora, e recém-formada advogada (Kristen Stewart). Aliás, vale o parênteses de que é costume encontrar destaque para as três estrelas famosas do filme, e omitir o nome de Lily Gladstone, que talvez seja a grande interpretação, e o grande personagem da trama de Reichardt. Longe de arroubos dramáticos, decidida e contida, ela é guiada por seus instintos e Gladstone traduz todas a segurança, e as incertezas, de maneira límpida e forte.

A cada novo filme, Kely Reichardt consolida-se como um dos nomes fortes, e com pegada autoral própria, dentro da cena de cinema indie americano que foge dos cacoetes de uma cinema de losers geeks (nerds) que virou moda no Festival de Sundance. Reichardt é um dos poucos casos de um cinema indie com características suas, que fogem dessa cartilha, e trazem oxigênio e sustentação a uma cena indie além dos arquétipos de personagens que se repetem à exaustão. São quatro mulheres ditas comuns, em fatos realmente triviais, mas que colocadas sob uma perspectiva, apontam certamente a posição igualitária feminina, que o cinema tenta intensificar enquanto as injustiças da sociedade moderna ainda não teve coragem de corrigir.

night-movesNight Moves (2013 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O discurso moral vem alinhado com as questões ambientais, as reinvindicações por mudanças estruturais na economia que possam privilegiar a preservação. Kelly Reichardt esgueia seus personagens por um thriller silencioso, por entre turvas florestas e a determinação jovem de fazer sua parte para mudar o mundo. O plano de Dena (Dakota Fanning) e Josh (Jesse Eisenberg) posto em prática, sem que nada seja esclarecido ao público. A narrativa é competente em guardar o segredo, fica a indagação do que eles estão aprontando?

A segunda metade é sobre o peso da culpa, arrependimento. Saem de cena a floresta, o rio límpido que reflete a escuridão noturna, surge o desanimo, os ombros carregados. Ação e reação, já dizia a lei da física, o fardo de prosseguir é mais pesado do que o planejado. Night Moves é o nome de um barco, que participa dos planos, Reichardt padece do mesmo mal de seus personagens, depois da ideia central não soube bem como seguir, e o filme vai lhe escapando das mãos.

Meek’s Cutoff

Publicado: agosto 31, 2011 em Uncategorized
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Meek’s Cutoff (2010 – EUA)

Quando o melhor do filme está atrás da câmera insinua-se que alguma coisa não saiu certo na realização. O tom lento empregado pela cineasta Kelly Reichardt, a aridez da paisagem que pode ser sentida pelo público, a utilização destacável de profundidade, da amplitude daquele velho oeste por onde três famílias desbravam o destino em busca de melhor sorte. Contratam um “especialista” em busca de um atalho e começam os problemas: a falta de água e a presença de índios. Todo esse invejável aperfeiçoamento técnico na condução de Reichardt sofre com a ausência de uma história em si, personagens que vivem à sombra da posição de coadjuvantes, conflitos étnicos resgatando o bem e o mal (e princípios de uma humanidade), nada que se sustente, nem mesmo o esforço em tornar Michelle Williams o ícone do filme, sendo que, mesmo bem ela se repete em feições tais como a aridez daquele deserto seco e infindável.