Eu, Daniel Blake

idanielblakeI, Daniel Blake (2016 – Reino Unido) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Ken Loach é algo tipo o Woody Allen do cinema britânico trabalhista de esquerda. Firme e forte faz seus filmes parecidos, alguns melhor desenvolvidos e interessantes que outros, mas todos num mesmo formato, ritmo narrativo, e senso de urgência afastam paete do público pela ausência de novidade cinematográfica.

Mas, Ken Loach tem o que dizer, e seus filmes seguem na crista da onda dos festivais (sempre em Cannes, este então ganhou a Palma de Ouro). Mira sua artilharia às regras estapafúrdias do serviço social britânico, na trama, Daniel Blake (Dave Johns) sofre um problema do coração e a cardiologista não o libera para trabalhar. Porém, segundo as regras do serviço social ele não atende as exigências para receber auxílio e deve procurar emprego para ganhar o seguro-desemprego. Eis a questão: ter que procurar emprego e não poder aceitá-lo.

Com humor britânico típico, Loach desenvolve esse pequeno absurdo enquanto outros personagens transitam pela órbita de Daniel Blake, sobretudo a mãe (Hayley Squires) de dois filhos, desempregada, que acaba criando laços afetivos (do tipo tio e sobrinha) com o carpinteiro. Aliás, a maior carga dramática vem dela, principalmente numa cena dura num banco de alimentos. Enfim, Loach ganha reconhecimento mais pela mensagem legítima de protesto que acampa do que por alguma proposta de cinema que estabeleça novos rumos.

Anúncios

Jimmy’s Hall

Jimmys-HallJimmy’s Hall (2014 – RU) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Lá vem o veterano Ken Loach com seus discursos políticos, voltados ao socialismo e à luta de classe. Seus filmes já foram melhores, a veemência de seu discurso já foi mais contundente, mas ele é um britânico incansável (e com cadeira cativa em Cannes). Seu novo trabalho resgata a história real de James Gralton (Barry Ward), que na Irlanda da década de 30 era o líder de um grupo que criou um salão onde ocorriam cursos, aulas de danças, bailes. O precursor dos centros culturais.

Obviamente é uma história de luta, protesto, e de um líder combalido pela burguesia. Loach filma a primeira meia-hora como Woody Allen, influenciado pelo jazz, pela leveza. A seguir são apenas questões políticas, discussões com a igreja, a demonstração provalvemente fiel daqueles anos em que a liberdade de expressão não era bem quista. Como cinema, é Loach chovendo no molhado, mantendo suas convicções, e jogando aquela partida ganha com seu público.

Cannes 2014: Destaques e Favoritos

festivaldecannes_2-650x400Em poucas horas começará a cerimônia de premiação da 67a edição do Festival de Cannes. Diferentemente dos últimos anos, este ano, este blog, não postou a repercussão diária das exibições, é muito trabalhoso e não deu tempo. Isso não quer dizer que o festival não tenha sido acompanhado, bem de pertinho. Agora que a imprensa já foi apresentada aos 18 filmes em competição e as mostras paralelas já conhecem seus premiados, podemos ter algumas expectivas, além dos favoritos que são apontados em diversas listas na internet.

Não parece ter sido uma edição de filmes que nos deixam ansiosos para conferir, mas há destaques bem interessantes entre monstros do cinema, ou novidades desconhecidas. Para quem gosta de quadro de cotações, vale uma olhada nesse link aqui, com críticos de muitos países, ou da revista francesa Le Film Français.

As frustrações começaram pelo filme de abertura, Grace de Monaco (Olivier Dahan) não agradou ninguém. The Search (Michel Hazanavicius) foi o mais vaiado com seu drama sobre a Chechenia, impressão de que o diretor de O Artista é realizador de um filme só. Captives (Atom Egoyan) foi outro que ninguém entendeu o que estava fazendo na competição (e eu não entendo porque ele sempre está lá), o filme é sobre sequestro infantil e pedofilia.

saint-laurent-cannes-2014No bloco dos que dividiram as opiniões estão: Saint Laurent (Bertrand Bonello) cinebiografia do estilista francês, com foco na relação com drogas e sexualidade. Jimmy Hall (Ken Loach) foi outro que passou quase batido, sobre um irlandês reabrindo um salão de dança, no meio de uma crise financeira-política, Loach e sua eterna visão socialista. A sensação é que erraram no argentino, Jauja (Lisando Alonso) acabou não premiado na Un Certain Regards, mas foi um dos filmes mais celebrados do festival, porém, na competição estava Relatos Salvajes (Damian Szifron), que até agradou, com suas 6 tramas cheia de atores argentinos conhecidos e humor negro.

Maps to the StarsAinda dividindo opiniões, mas já com alguns elogios que podem levar os filmes a serem lembrados na premiação ficaram: Foxcatcher (Bennet Miller), história real de um milionário e dois medalhistas olímpicos, e um assassinato. Os elogios as inesperadas grandes atuações de Channing Tatum e Steve Carrel foram entusiasmados (desde já um dos postulantes ao Oscar). Maps to the Star (David Cronenberg) ninguém aposta que a sátira sobre Hollywood será premiada, mas o filme agradou muita gente. The Homesman (Tommy Lee Jones) é outro western do diretor, dessa vez com foco em três mulheres cruzando o velho-oeste. O último dia de competição trouxe Clouds of Sils Maria (Olivier Assayas) e as reverências, inesperadas, a atuação de Kristen Stewart (crítico Guy Lodge acha que se ela ganhar a internet vai travar), e o filme também agradou, mas o último filme exibido é sempre carta fora do baralho.

Still-The-WaterAgora chegamos no pelotão da frente. Logo após a exibição, o japonês Still the Water (Naomi Kawase) parecia que ia passar em branco, mas vem crescendo no boca-a-boca, a história trata de dois irmãos numa pequena ilha no Japão. Há quem ame o cinema de Kawase, ela disse que este é seu melhor trabalho, mas muita gente questiona porque tanto ibope para seus filmes. Mommy (Xavier Dolan) é outro sempre questionado, aos 25 anos e com 5 filmes, Dolan é uma aposta dos festivais, muito prestigio (eu só vi o primeiro filme dele é gostaria de ficar bem longe). Se em seu primeiro trabalho ele queria matar sua mãe, este novo filme é uma espécie de vingança. A cinebiografia Mr. Turner (Mike Leigh) sobre o pintor e mulheres complexas a sua volta vem com força para uma possível premiação a Timothy Spall.

Nesse mesmo pelotão ainda estão: o italiano Le Meraviglie (Alice Rohrwacher), a segunda mulher em competição ganhou elogios crescentes com sua história de uma familia cuidando de uma fazenda de mel. A diretora, novamente, foca na adolescencia feminina. Timbutktu (Abderrahmane Sissako) foi exibido logo no começo, nunca foi considerado favorito, mas sempre elogiado por seu drama contudente sobre todas as mazelas religiosas que vive o norte da África, corre por fora em muitos prêmios.

Cannes2014DeuxjoursunenuitFavoritos, chegamos a eles. Pelo que tenho apurado são 4. Porém, um deles com chances nulas de tão reduzidas. Deux Jours, Une Nuit (Jean-Pierre e Luc Dardenne), os irmãos belgas já ganharam a Palma duas vezes. Nunca alguém ganhou uma terceira. A regularidade deles é impressionante, desde A Promessa que eles lançam um filme a cada 3 anos, e sempre estão entre os premiados. Não deve ser diferente, Marion Cotilard é a principal favorita (mas há muitas competidoras) ao premio de atriz. O filme é um fábula moral, um final de semana e uma mulher tentando mendigar seu emprego aos colegas de trabalho.

winter-sleep-cannes-2014-3Winter Sleep (Nuri Bilge Ceylan), o turco é um daqueles que está cada vez mais próximo da Palma, ontem ganhou melhor filme pela Fipresci (ano passado quebrou-se a maldição, mas normalmente quem ganha o Fipresci não leva a Palma). Desde que saiu o lineup eu já considerava ele, e o russo, como os favoritos, e os dois realmente encabeçam a lista. São 3 horas na Capadócia, ao estilo de Ceylan, poucos diálogos, tom poético, cavernas, pequenas tramas com um ator aposentado (Haluk Bilginer, outro com chances) no centro delas.

adieuAdieu au Langage (Jean-Luc Godard), seus filmes estão sempre em Cannes, em mostras paralelas, sua presença na competição significava alguma coisa. Desde os anos 80 que seu cinema chegou a um ponto de agradar a um seleto público (bota seleto nisso), cada vez mais resmungão e de narrativa fragmentada. Dessa vez ele vez com um 3D, e a crítica saiu estarrecida. A sensação que dá é que ele acertou no tom do que vem fazendo há anos, e se aproveitando da nova tecnologia. Seria uma decisão corajosa dar a Palma a Godard, ele nunca ganhou, é um ícone do cinema de autor e uma quebra com todo o cinema tradicional. Mesmo não gostando de seus filmes mais recentes (exceção ao belo Elogio ao Amor), gostaria de ver Godard ganhando para dar essa quebrada com o formalismo protocolar.

Leviathan 1Mas, se eu tivesse que colocar meu rico dinheirinho em alguma bolsa de aposta, ele iria para o russo Leviathan (Andrey Zvyagintsev). Muita gente torce o nariz, eu, particularmente, gosto de seus filmes. Começou com O Retorno (Leão de Ouro em Veneza), depois The Banishment passou batido, e o último, Elena foi premiado na Un Certain Regard (há quem reclame que devia ter passado na competição, naquele ano). Sua exibição de gala na quinta-feira é sinal de prestígio dentro da competição. E, se não é unanimidade, a proporção de admiradores é muito superior, não foram poucos os que pediram a Palma após sua primeira exibição. Poderia ganhar ator, roteiro, direção, mas a aposta é mesmo para ser a Palma de Ouro. Veremos. O filme é ambicioso, com um título desses não era para menos. O filme parece ser um contundente drama sobre a vida russa contemporanea, a corrupção política, a presença da igreja Ortodoxa, o poder, a polícia.

Fora da Competição, além de Jauja, destaques para Welcome to New York (Abel Ferrara) contando o escandaloso caso de Dominik-Strauss. Force Majeure (Ruben Ostlund) sobre o poder de avalanche. O polêmico, e eleito melhor filme na Un Certain Regard, White God (Kornél Mundruczó) e os ucranianos The Tribe (Myroslav Slaboshpytskiy) sem falas, personagens surdos-mudos, e o documentário Maidan (Sergei Loznitsa) sobre os recentes acontecimentos políticos na Ucrânia.

Pão e Rosas

paoerosasBread and Roses (2000 – ING) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Anos de cinema político e ativismo engajado do cineasta britânico Ken Loach. Alguns dos filmes bem sucedidos, outros nem tanto. Sempre tendo o naturalismo como característica marcante, mas, acima de tudo, uma visão esquerdista e altamente crítica ao capitalismo, explorando, prioritariamente, as causas sociais. Dessa vez ele cruzou o oceano, chegou à California, onde trata da imigração ilegal dos latino nos EUA.

Com leve toque de humor, baseando-se em fatos reais, Loach aborda a vida de um grupo de faxineiros não sindicalizados. O foco são as irmãs Maya (Pilar Padilla) e Rosa (Elpidia Carillo), que como todos os imigrantes guardam vidas sofridas, de imensas dificuldades e famílias miseráveis. Seus filmes nunca escapam ao melodrama, como se seus personagens já tivessem sofrido tanto que não vale mais a pena tais exageros. No grupo de latinos sofridos permanecem os sonhos (como a faculdade), mas sob eles paira uma nuvem de desconfiança que não lhes permite nem enxergar direitos, apenas trabalho e suportar as humilhações.

Entra em cena o sindicalista Sam Shapiro (Adrien Brody), a classe se divide, afinal, por mais pobres que sejam há uma estabilidade mínima. Imigração e exploração trabalhista misturadas, as movimentações sindicais, Ken Loach está em casa, com seus temas preferidos, e assim, faz eclodir uma belíssima história de luta e justiça, sem demagogias e heroísmos, no melhor estilo “a vida como ela é”. Talvez seja o melhor filme sobre imigração ilegal já realizado.

Links da Semana

Abdellatif-Kechiche-Palme-d-or-pour-La-Vie-d-Adele_article_popin-1024x713 Meu ranking, com todos os filmes, de Abdellatif Kechiche, cujo último filme (Azul é a Cor Mais Quente) venceu a Palma de Ouro e estreia na próxima sexta [Top Abdellatif Kechiche]

 Entrevista com Spike Lee, que afirma ser uma “reinterpretação” e não um remake, sua nova versão de Oldboy [Slant Magazine]

 Antes de falar dos melhores, quais foram os principais fracassos o ano? Lista interessante [Uol Cinema]

• Tarantino vem ai com outro faroeste [The Guardian]

• Festival de Berlim homenageará Ken Loach, com o Leão de Ouro honorário, em sua próxima edição [Berlinale]

• Trailer de Noé, novo filme de Darren Aronofsky [Omelete]

• No CCBB a Mostra Maurice Pialat, programação no link [Vai e vem Produções]

E no MIS, a Mostra Philip K. Dick, com clássicos como Blade Runner e Vingador do Futuro [MIS]

Sinais do fim de ano, as listas de melhores do ano e os indicados aos primeiros prêmios (que vai se falar são todos prévias do Oscar:

• A Cahiers du Cinéma divulgou sua lista do Top 10 de 2013, ainda acho que eles fazem umas piadinhas no meio da lista [Cinema7Arte]

• Já a lista da Sight & Sound pode ser chamada de óbvia, ou de sintetiza exatamente os melhores do ano [Sight & Sound]

• Enquanto isso 12 Years a Slave, com 7 indicações, confirma seu favoritimo, ao ser indicado a 7 prêmios do Spirit Awards, Nebraska conseguiu 6 indicações [Spirit Awards]

The Spirit of 45

The-Spirit-Of-45The Spirit of ‘45 (2013 – ING)

Ken Loach se cansou do teor político de seus filmes e decidiu ir direto ao ponto. Sua idelogia socialista fervorosa é o que diminui a força de seu documentário, ele começa no pós-segunda guerra mundial e com muitas imagens de arquivo traça um panorama politico e social da Inglaterra da década de 40. Estatização x privatização, sistema de saude, trabalhistas x conservadores, as dificuldades financeiras de uma nação pós-guerra.

Em meio a depoimentos de quem viveu as dificuldades da época, Loach resgata os pilares que recoloram os ingleses como uma das principais economias do mundo. Só que, de repente, Loach pulo décadas dessa história e transforma seu filme num grande ataque ao governo Tatcher. Sua visão parcial mais parece propaganda política dos trabalhistas, a visão de que o socialismo consertou a Inglaterra e o capitalismo segue depredando parece tão ultrapassada num mundo globalizado que comprou que, no fundo, nenhum dos sistemas consegue resolver as desiguadades sociais. Histórico, e ingenuo.

COTAÇÃO: estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A Parte dos Anjos

The Angel’s Share (2012 – RU/FRA/BEL/ITA)

Ken Loach volta ao espírito feel good de À Procura de Eric com essa comédia sobre um bando de desajustados que cria amizade durante prestação de serviço comunitário, após serem condenados em julgamentos. O grupo de “marginais”, que mais se apresentam como losers completos, é o tempero certo para o diretor britânico destilar seu humor divertido e despretensioso, as vezes violento, mas ainda assim fino como o uisque que seus personagens admiram.

Algo entre a leveza e a abordagem leve de temas políticos (tão presente no cinema de Loach), enquanto o roteiro de Paul Laverty cria situações comicas e um plano mirabolante orquestrado por um grupo de atrapalhados, também parte em busca da condição do cidadão médio, das richas entre familias (e demais brigas, normalmente presente em familias menos favorecidas).

COTAÇÃO:estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza