Posts com Tag ‘Ken Loach’

Rota Irlandesa

Publicado: outubro 11, 2012 em Cinema
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Route Irish (2010 – ING/FRA/ITA/BEL/ESP)

Denunciar empresas de segurança que contraram ex-militares para trabalharem em regiões de conflito (como Iraque e Afeganistão), e desrespeitam acordos, leis e direitos humanos, era o projeto da vez do cinema político de Ken Loach. O protagonista não aceita a versão oficial da morte de seu amigo na Route Irish (considerada a mais perigosa estrada do mundo) e parte numa investigação da verdade.

É pouco Loach, muito pouco. Seu filme carece de personagens substanciais, de um tema que seja realmente urgente, e nao tenha sido tão debatido na imprensa e cinema. Os americanos torturam é uma acusação tão rala e óbvia quanto pegar um bandido em flagrante.

O roteiro cria uma teia de conexões de nomes e personagens que nada tem a dizer ao público, já sabemos que no fundo todos estão envolvidos, ou são culpados, e a ausencia de personagens interessantes, de preenchê-los com algo além da relação com o falecido, da explosão de sentimentos que ecoa no sexo, causa desinteresse, cansaço, monotonia. Loach denuncia o que todos já sabem, e se coloca muito distante de seus momentos mais brilhantes.

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Kes

Publicado: maio 29, 2006 em Uncategorized
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O amigo Edú Aguilar me emprestou o filme, deve estar feliz pelo Loach ter ganho a Palma ontem, não é?

Kes (1969 – ING)

A palavra de ordem é fascinação. O êxtase como forma de abrir horizontes, de garimpar novas estradas, como maneira de trazer equilíbrio e liberar sentimentos que até a pessoa desconhecia possuir. Ken Loach flerta com o neo-realismo italiano, um flerte tímido tão somente a equilibrar a narrativa já que o estilo próprio do cineasta está presente em toda parte, cenas naturalistas, duras e cruas.

A cena crucial acontece na sala de aula, Billy Casper (um David Bradley fascinante) é um garoto todo atrapalhado, desestimulado, restrito a um tipo de timidez invariavelmente divertida, vai mal nos estudos. O professor questiona, tenta encontrar no garoto alguma coisa que o desprenda, que o faça manifestar-se. Quando Billy começa a contar de Kes, de tudo que aprendeu em livros (logo ele que mal sabia ler), dos apetrechos, e tantas outras coisas; com um pequeno estímulo o garoto destrambelha-se a falar, domina a sala que o ouve atentamente, seus olhos empolgados são a prova crucial de sua fascinação. Uma cena exemplar para educadores, o segredo da vocação.

Para quem não sabe Kes é o nome de seu falcão (não vá dizer que é seu animal de estimação). Billy é a forma de Ken Loach demonstrar que uma juventude aparentemente perdida tem solução desde que encontre refúgios fora da vida desgastante e deprimente. O garoto vive numa casa em pé de guerra, maltratado tanto pelo irmão como pelos colegas da escola, acorda cedo para entregar jornal, depois vai a aula, procura outro emprego, já cometeu alguns delitos.

Que perspectiva de vida tem um garoto desses? A descoberta do fascínio por essa ave tão cheia de charme e realeza demonstra que sentir prazer na vida é só questão de encontrar a fórmula certa. Kes é só um despertar, não a solução, pois a vida continua repleta de pessoas como o irmão de Billy ou o professor de educação física (outro momento fora de série do filme). Ken Loach começava a mostrar a que veio, o drama desse garoto é todo enraizado em temas político-sociais, mais que sua marca registrada, sua vontade de expressar-se.

MÚSICA DA SEMANA:

SUNSHINE OF YOUR LOVE
(Eric Clapton, Jack Bruce and Pete Brown)

It’s getting near dawn,
When lights close their tired eyes.
I’ll soon be with you my love,
To give you my dawn surprise.
I’ll be with you darling soon,
I’ll be with you when the stars start falling.
I’ve been waiting so long
To be where I’m going
In the sunshine of your love.
I’m with you my love,
The light’s shining through on you.
Yes, I’m with you my love,
It’s the morning and just we two.
I’ll stay with you darling now,
I’ll stay with you till my seas are dried up.

I’ve been waiting so long
I’ve been waiting so long
I’ve been waiting so long
To be where I’m going
In the sunshine of your love.

terraeliberdadeLand and Freedom (1995 – RU/ESP/ITA/ALE) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Após as eleições vencidas pelos socialistas, militares e burguesia uniram-se, num golpe, para depor o novo governo. O Facismo assume o poder na Espanha, na figura do General Franco. Pouco a pouco a Europa passa a ser dominada pela ultra-direita. Sob o ângulo de um britânico desempregado, Ken Loach traça uma visão crua, idealizadora, e inflamada do que foi a Guerra Civil Espanhola, no início do século passado.

Engana-se quem pensa num documentário com detalhes do momento político, num filme de guerra com cenas espetaculares, ou exércitos comandados por figuras históricas. Não há créditos a líderes ou heróis. O povo que se organizou em pequenos grupos revolucionários, imigrantes comunistas que deixaram suas pátrias para lutarem pela causa em que acreditavam, camponeses que defendem seus vilarejos com seu próprio sangue. São desses personagens que bebe o filme, eram nesses rincões que se encontrava a verdadeira garra revolucionária.

Neste pequeno acampamento revolucionário não há hierarquia. Cada ação é votada democraticamente. Não se usa uniformes, homens e mulheres empunham rifles no front. É uma luta amadora, com dinheiro escasso e armas ultrapassadas. O que existe neles é o espírito igualitário, uma devastadora vontade de aniquilar injustiças, confiam ao comunismo a solução. Vencem e perdem batalhas, amigos se vão, mas nada lhes tira o espírito de revolucionar.

Quem assiste ao filme fica sem eira nem beira como os próprios revolucionários, as notícias nos chegam cortadas, nos pegam de surpresa. Não sabem ao certo porque enfrentam aqueles que deveriam estar do mesmo lado, honram com suas vidas os ideais que acreditam cegamente. David Carr (Ian Hart) é a síntese da figura criada por Ken Loach, se pega a sua carteira do Partido Comunista, mas não sabe ao certo porque está ali, porque atira naqueles que também lutam para derrubar os facistas. É o maldito poder, pouco importa a terra e a liberdade.

Poeira, suor, ideais, a veracidade das cenas é determinante para a atmosfera criada por Loach. A mira imprecisa, o “coletivizar” terras, os diálogos humanistas e controversos, a guerra feita exclusivamente pela vontade do bem mais precioso que o homem possui: sua liberdade. São em filmes assim que aprendemos história, são esses que abordam a política por seu lado mais límpido, um dos momentos mais sangrentos do século XX torna-se algo além do que uma pura reconstituição dos fatos. Mesmo usando um romance descartável, Ken Loach faz filme com conteúdo e demonstra que o povo já foi mais interessado no seu destino.