Posts com Tag ‘Kim Ki-Duk’

Moebius

Publicado: setembro 27, 2013 em Cinema
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moebiusMoebius (2013 – COR) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Kim Ki-Duk está sempre inventando das suas, com filmes chocantes e provocativos, na maioria das vezes bem odiados pela maioria. Com forte presença de sexo, e críticas a sociedade coreana moderna. Fora o estilo narrativo, por exemplo, este novo filme é totalmente sem diálogos, mas com presença de som ambiente. Um retorno ao cinema mudo, uma prova de que é possível dar ritmo a um filme no cinema moderno, sem que diálogos e narrações em off expliquem tudo.

Ele retorna a temas parecidos com os de Pietà, dessa vez o foco são as relações familiares como um todo. A mãe descobre a infidelidade do pai, enfurecida desconta no filho. São várias cenas chocantes: castrações, bullying, transplantes, estupros, só de imaginar você já arrepia intensamente. Quando se menos espera surge a presença de Buda, levantando questionamentos dúbios sobre o quanto pode haver relação com aquela família completamente picotada, pagando na carne pela fúria.

Ki-Duk vai aos extremos, prefere a violência seca a discussões intermináveis ou escândalos. Seu tema central é a obsessão por sexo da sociedade, e a história abusa dos extremos dessa obsessão. São exageros chocantes, onde a irracionalidade é dominada pela libido. Mas, é uma proposta clara, direta, que funciona em sua visão crítica. Basta a quem assiste julgar se é deturpada ou capaz de causar algum tipo de reflexão.

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Arirang

Publicado: julho 9, 2013 em Cinema
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arirangArirang (2011 – COR) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Kim Ki-Duk entrou em crise após um acidente ocorrido durante as filmagens de Sonhos, e passou três anos recluso. Até ai tudo bem, o problema é querer voltar à cena (e inexplicavelmente ele conseguiu, viva os deuses dos festivais) com um misto de pedido de piedade e reverência ao seu próprio trabalho.

Esse falso documentário, que o próprio diretor prefere chamar drama, e eu de “artificio de arrogância e necessidade de autoafirmação” se divide no dia-a-dia de Ki-Duk numa cabana, cozinhando e lavando os pratos, enquanto filma a si, levanta questões filosóficas e brinca d questionar a si mesmo sobre sua carreira, se fazendo de coitadinho.

Resumindo, ele usa o artificio para metralhar contra gente do cinema coreano, para reviver seus filmes e seus feitos, e tentar reposicionar sua carreira (que de promissora chegou ao insuportável). Deveríamos ser o fundo do poço, mas não, virou um recomeço, ele voltou a filmar e alcançou o apogeu com a premiação de Pietà em Veneza.

Canta, chora, grita, discute com si próprio. De loucura não há nada ali, é tudo arquitetado minuciosamente, em busca da compaixão do público e de seus colegas de profissão. A edição é ágil, pegada, quase frenética nas situações corriqueiras, enquanto a verborragia passa longe da ingenuidade.

Pietà

Publicado: março 13, 2013 em Cinema
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pietaPietà (2012 – COR) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A referência a escultura de Michelangelo é óbvia, desde o título e o pôster, até nos temas como a relação mãe-filho e a sexualidade. Kim Ki-Duk parece ressurgir na cena mundial ao levar o Leão de Ouro, o difícil é entender as razões para tal premiação. Ele até pega emprestado algo de sua obra-prima (Casa Vazia) ao colocar seu protagonista visitando diferentes ambientes, dessa forma entramos na peculiaridade da vida de cada um dos que pegaram dinheiro emprestado, não pagaram, e agora terão que se tornar aleijado para receber o dinheiro do seguro, e, assim pagar seus empréstimos.

O vilão maléfico e solitário sexualmente executa a função de cobrar, até encontrar uma mulher que diz ser sua mãe, e se torna um bocó revivendo a infância que não teve. Os “aleijados” revisitam o personagem, há cheiro de vingança no ar, a questão da sexualidade segue sendo explorada numa relação estranha de Édipo.

Mas, a questão é que Ki-Duk realmente perdeu a mão, seu filme se apresenta como uma fábula da moral e bons costumes, recheada de violência, humanizando demônios e se estagnando numa proposta de relacionar o oriente ao Renascentismo, seu cinema de impacto visual e simbolismo perdeu completamente a força.

Que confusão foi a festa de premiação dessa edição do Festival de Veneza. Tudo começou no palco, os prêmios até que não surpreenderam tanto (talvez Seidl tomando o lugar de Bellocchio, dentro das especulações dos jornalistas). O burburinho o dia todo era forte no twitter de que o Leão de Ouro seria para Kim Ki-Duk. Durante a premiação, a maior confusão da história. Philip Seymour Hoffman subiu ao palco para representar Paul Thomas Anderson e receber o prêmio de direção, logo a seguir Seidl Ulrich recebeu seu prêmio. Então alguém se deu conta que estavam trocados, chamam Hoffman no palco, eles trocam os prêmios, Hoffman deixa cair nas escadas, uma confusão.

Depois Kim Ki-Duk decide cantar, à capela, a música Arirang, que ele pegou emprestado o título para um documentário autobiográfico que ele filmou ano passado sobre sua crise “existencial”, e que ganhou melhor filme na Mostra Un Certain Regard de Cannes. Porém, agora a polêmica é outra, dizem (Hollywood Reporter principalmente) que os jurados queria dar 3 prêmios a The Master, inclusive o Leão de Ouro, e o festival só permitiu 2. O dificil é entender, e acreditar, já que resolveram tirar logo o principal prêmio, dessas especulações malucas que nunca saberemos a verdade.

No fundo, Veneza termina com uma quantidade interessante de filmes a serem vistos nos próximos meses, ara é esperar a oportunidade por eles. Segue a lista dos principais prêmios:

Leão de Ouro: ‘Pieta’, de Kim Ki-duk

Leão de Prata – Melhor Diretor: ‘The Master’, de Paul Thomas Anderson

Especial do Juri: ‘Paradise: Faith’, de Ulrich Seidl

Melhor Ator: Philip Seymour Hoffman and Joaquin Phoenix, por ‘The Master’

Melhor Atriz: Hadas Yaron, por ‘Fill the Void’

Melhor Roteiro: ‘Something in the Air’, de Olivier Assayas

Contribuição Técnica: ‘It Was the Son’, de Daniele Cipri

Melhor Jovem Ator/Atriz: Fabrizio Falco, de ‘It Was the Son’ e ‘Dormant Beauty’

Luigi De Laurentiis Leão do Futuro: ‘Mold’, de Ali Aydin

Orizzonti – Melhor Filme: ‘Three Sisters’, de Wang Bing

Orizzonti – Especial do Juri: ‘Tango Libre’, de Frederic Fonteyne

‘Pietà’ de Kim Ki-duk está sendo aclamado em Veneza, o coreano parece que veio com tudo, hoje foi seu o dia. O filme traz uma crítica feroz ao capitalismo, um agiota que agride e torna deficientes os devedores que não quitam seus débitos. Tudo muda com o aparecemento repentino de uma mulher, que pode ser sua mãe que o abandou há tantos anos.

Críticas: The PlaylistEl PaísScreen DailyÚltimo Segundo

Termômetro: quero ver

‘Linhas de Wellington’ é dirigido por Valeria Sarmiento, projeto do recém-falecido marido Raúl Ruiz. O filme conta o período histórico em que Portugal foi invadido pela França de Napoleão Bonaparte, culminando com a chegada da família real ao Brasil. De John Malkovich a Mathieu Amalric, tem mais cara de interesse histórico que cinematográfico.

Críticas: Hollywood ReporterThe GuardianÚltimo SegundoScreen Daily

Termômetro: morno

Na Mostra Orrizonti, tem ganho cada vez mais elogios o dinamarquês ‘Kapringen’, do diretor Tobias Lindholm. Filme em alto-mar, contando um tenso sequestro promovido por piratas somalis, negociações de resgaste, promessas de assassinar a tripulação. E, mantendo distância dos filmes de ação/melodramáticos de Hollywood.

Críticas: CineuropaHollywood ReporterCine-Vue

Termômetro: quero ver

Grandes encontros, histórias divertidas, maratonas intermináveis, corridas malucas, novos amigos, dias inesquecíveis.  Acredito que os relatos dos posts resumiram bem o que foi essa Mostra. Por isso, sem mais delongas, vou fechar o balanço com os meus grandes destaques do festival entre os 15 filmes vistos.

O Filme

casavazia

Casa Vazia, de Kim Ki-Duk

Uma das metáforas mais lindas para o amor e uma forma de aceitar as consequencias para vivê-lo em sua plenitude. Porque amar pode ser até mais importante do que existir.

 

Os Melhores:

Oldboy, de Park Chan-wook

A Ferida, de Nicolas Klotz

Ouro Carmin, de Jafar Panahi

Contra a Parede, de Fatih Akin

Sede, de Tawfik Abu Wael

Esperava o manobrista buscar meu carro, quando, ao meu lado, aparece um rosto conhecido com uma leve barba branca por fazer. Olho mais atentamente e percebo tratar-se de Hector Babenco, que também esperava seu carro. Trajando jaqueta jeans e tenis branco (bem comum) com um buraco em cima do dedão de cada pé, fazia o ar “quero ser reconhecido sem ser incomodado.”

casavaziaCasa Vazia (Bin Jip, 2004 – COR)  estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Abusando da ousadia, tanto na estética, quanto na estrutura do roteiro, Kim Ki-Duk conta uma fábula romântica. Ele brinca com a realidade, cria uma metáfora poderosa, realiza uma obra linda. Um jovem (Hee Jae) vaga com sua moto, invade casas “vazias” (temporariamente ou não), e realiza  melhorias/consertos (lavar roupa, consertar uma balança, por exemplo) no tempo em que abusa da “hospitalidade”. Um hobby excêntrico ou um estranho estilo de vida.

Numa das casas não percebe uma mulher (Lee Seung-Yeon) fragilizada, ela o observa e acaba o acompanhando, à revelia do marido agressivo. Nasce um amor intenso, que sabemos não ser possível de ser vivido na vida real, mas que fica lindo na telona do cinema.

Mistura de sonho e realidade, ele não pronunciará uma palavra, mas suas manias se transformam em simbolismos que se transforma em sentimentos. É a força da imagem, dos gestos, um amor impossibilitado até se encontrar uma maneira de torná-lo possível.