O Estranho que Nós Amamos

The Beguiled (2017 – EUA) 

Ao descobrir o filme anterior, quase uma alegoria erótica masculina, dirigido por Don Siegel, em 1971, era de se esperar uma versão cujo o lado feminismo criasse outra leitura para a trama. Afinal, a carreira de Sofia Coppola tem essa vitalidade de trazer o ponto de vista feminismo ao cinema, coisa tão rara, infelizmente. A possibilidade dessa oposição é tentadora.

E realmente, Sofia dá seu toque de feminilidade. E o que, muito provavelmente, não é o que se esperava em tempos de “empoderamento”. Suas opções são sutis, porém definitivas. O estranho de seu filme (Colin Farrel) é mais dúbio, enquanto que quase todas as mulheres são colocadas como joguetes atraídas, pouco se conhece individualmente de cada uma delas. O clima de tensão, quase um filme de terror, ainda que exista, é suavizado. É uma visão mais romântica de um intruso que mexe com a libido de todas, e por mais que a versão anterior fosse machista, essa perde a oportunidade de diferenciar suas personagens, as tornando apenas escravas de uma possível escolha.

Talvez, o ideal fosse tentar não comparar os filmes, por mais impossível seja para quem o viu. Ainda assim, olhando para tudo que Sofia construiu até hoje, parece mais um filme preocupado com reconstruir vestidos, adereços e ambientes, do que explorar seus personagens, seja na questão da Guerra Civil que eclode fora daquela casa, seja na tensão sexual competitiva que enlouquece mulheres tão recatadas e imaturas. Quem mais se destaca é Nicole Kidman, que em sua caricatura entre equilíbrio, seu interesse e senso de justiça próprio, conduz o destino de cada um dos personagens, entre delicadeza e algum toque de brutalidade.

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Entre Segredos e Mentiras

All Good Things (2010 – EUA)

Convencional e protocolar, com dois atores bem conhecidos do público (Ryan Gosling e Kirsten Dunst), uma história de drama familiar que levanta a suspeita sobre o desaparecimento de uma mulher. O público alvo está claro, e o cineasta Andrew Jarecki cuida para deixar a história se reveler lentamente. A primeira parte mais “romantic” parece melhor resolvida, quando os personagens mostram suas facetas e o filme se divide entre o suspense e elevação dos dramas familiares é que os exageros e slow-motions tornam tudo ainda mais convencional. O que fico realmente me perguntando é como um filme conta uma história (e se diz baseada em fatos reais) sendo que até hoje não se sabe realmente o que aconteceu. Narrar suposições como verdades/fatos é de um peso absurdo.

Melancolia

Melancholia (2011 – DIN)

Sinceramente, começo a acreditar que Lars Von Trier é um mestre da manipulação, tudo bem que sua figura frente aos jornalistas é de um manipulador barato e irônico que fala o que fala mais para render discussões e perseguições do que defender idéias (e Cannes este ano foi prova disso na polêmica sobre ele entender Hitler). Mas, ali, dentro da sala escura, o cineasta dinamarquês cria histórias discutíveis, fortes, de impacto, mas me pergunto se não são apenas joguetes dentro de seu intuito maior de simplesmente manipular as sensações e percepções de seu público durante duas horas (e um pouco mais depois da sessão).

Dessa vez ele vem com essa história apocalíptica sobre o fim do mundo, um planeta que lentamente se aproxima da Terra e não se sabe se ele se chocará ou não com nosso planeta. Nas mãos de qualquer um teríamos um filme com noticiários, desespero, gente correndo pelas ruas, transito caótica, uma procura incessante por abrigo. Nas mãos de Lars temos um casamento. Sim, um casamento. Aliás, a história desse planeta Melancholia só aparece na segunda metade, porque a primeira é sobre o casamento (e aqui está o grande tema do filme). A noiva, Clare (Kirsten Dunst) chega atrasada na mansão onde está acontecendo a festa de seu casamento, antes ela dá uma olhada nas estrelas e uma avermelhada lhe chama a atenção. Pronto, dali em diante teremos a pior noiva da face da Terra (alias, tenho medo dos casamentos dinarqueses depois do que vi em mais de um filme). Ela é tomada por uma melancolia tão profunda (e Lars conduz essa sensação de forma tão extravagante que os tentáculos de melancolia parecem surgir da tela e afetar o público). Já vi filmes melancolicos, nada parecido com esse.  O fiasco da festa não importa, Lars está brincando de humilhar as relações pessoais, mas a presença marcante é dessa melancolia exacerbada, que chega a um estágio no filme que Clare praticamente não consegue se mover.

Na segunda metade temos o foco em Justine (Charlotte Gainsbourg), a irmã mais velha de Clare, que está aterrorizada com a possibilidade do fim do mundo. E Lars cria uma personagem tão humana, replete dos anseios materno-protecionistas, da confiança nas palavras do marido, na preocupação com coisas pequenas quando algo tão fora do nosso controle pode acontecer. A camera focaliza o planeta, praticamente olhamos pelos olhos de Justine, olhos com medo e confiança, o fim não pode estar próximo, meu filho ainda tem tanto a fazer. Nesse ponto ficam evidentes as diferenças entre as irmãs, é um outro tipo de melancolia, e Lars jamais trai seu filme, pouco interessa o que está acontecendo no mundo, o que estão dizendo, o mundo deles é ali, aquela varanda, os cavalos, e o pequeno convívio familiar.

Cheio de planos fechados, a entrega dos atores é total, as imperfeições dos rostos daquelas belas mulheres tornam a angustia mais clarividente, e talvez seja nesse ponto que Lars se destaque como o manipulador que é, o uso perfeito de fotografia, montagem e trilha sonora a favor dessa sua obsessão de ter as emoções do público sob seu bel-prazer. Chega a ser narcisista, porém funciona, o fim termina num dos finais mais poderosos e crus que se possa imaginar, e o peso do mundo parece estar sob os ombros, as feições de melancolia agora estão estampadas nas pessoas que saem daquela sessão, com créditos em silencio, e uma profunda dor na alma. Questionamentos? Mil. Mas não são exatamente quetionamentos sob a possibilidade do mundo acabar ou não, ou dos exageros picaretas presentes na festa do casamento (reparem não só nas duas protagonistas, como também na sempre excelente Charlotte Rampling como a mãe mais venenosa e sem coração da história do cinema). A questão é como alguém consegue plantar melancolia no coração de tanta gente, só contando uma história de ficção.

Homem-Aranha 3

Spider-Man 3 (2007 – EUA) 

As comparações com os dois filmes anteriores são complicadas a esse terceiro capítulo da trilogia do Homem-Aranha. As edições anteriores primavam por um despojado e afável desenlace de um romance, marcado pela disputa de dois amigos pelo coração de uma encantadora Mary Jane. Fora isso, as seqüencias vibrantes de ação, e toda a mitologia de Peter Parker, completavam o caldo de sucesso. Mas, era a competência no aprofundamento de cada um dos personagens, não só na questão envolvendo Mary Jane e os rapazes, que diferenciava os filmes de Sam Raimi dos demais filmes do gênero. Dessa vez, o enfadonho ocupa espaços, e as lembranças, a cada dia que passam tornam-se ainda piores, porque os personagens perdem-se na altura da fase adulta em situações e vai-e-vens que desperdiçam o encanto conquistado anteriormente. Restam sim, cenas empolgantes do Aranha em ação, especialmente uma caçada entre espaços estreitos entre os prédios. Porém, com o melhor de seu conteúdo renegado a disputinhas de ego, entre aprendizes de fotógrafos, e bobagens insensíveis de Parker no quesito amor, fica difícil esperar por algo que faça uma nova aventura recuperar a magia.

Maria Antonieta

Marie Antoniette (2006 – EUA) 

Definitivamente identificamos no cinema de Sofia Coppola um mundo próprio, de personagens que dialogam por características comuns. A cineasta trata a melancolia, e a solidão, dessa maneira estritamente particular. Uma singularidade inebriante que a cada filme reconfirma sua abordagem e intensifica sua amplitude. Sofia lida com o assunto que domina, essa solidão da alma feminina, e ao repetir sensações e vazios redistribui energia a seus personagens. Pode-se mudar o país, de época, de idade, são os mesmos males a acometer suas mulheres, o mesmo olhar vago e distante. Diferente de Kar-Wai que lida com a solidão dos corpos e sentimentos, Sofia lida com a solidão da alma.

Quando se decidiu por Marie Antoniette (Kirsten Dunst), não era a biografia que lhe interessava, mas a situação de uma menina estrangeira, e mimada, caindo de pára-quedas em plena corte francesa no século XVIII. O estranhamento dos costumes, a sensação de não pertencer àquele local, o vazio constante. Nesse contexto, a cena de choro, ao se desfazer de seu cãozinho, é somente o primeiro sinal da aspereza e indiferença que a aguardava.

Sofia tem outras predileções, que não abre mão, mesmo num filme de época. A música pop marcante, que até causa estranheza, pelos palácios oferece à menina rica os contrastes do frágil e fútil, ela coberta de seus vestidos e penteados, desfilando pela trilha sonora ativa e empolgante. Por mais estranho, funciona bem, porque Sofia contextualizou sua personagem à época, ainda que transmitindo ares dos males da mulher contemporânea, é uma forma de abraçar sua personagem. Ainda assim, há em sua visão uma espécie de distanciamento. Temos seu melhor nas cenas em que Maria Antonieta cai em si, e permite que seu olhar torne-se espelho da alma. Fora disso, há uma preocupação zombeteira em querer ser pop e atrair melhor o público, e em dado momento Sofia decidiu aproveitar e também transformar aquilo tudo numa biografia. O resultado é uma aceleração incomoda nos fatos, nas cenas, nos cortes. Uma pressa que nos deixa sem ter como respirar, e por cenas que quase nada acrescentarão ao espírito que se criara. O filme sofre dessa inconsistência, guarda pequenas (e boas) doses do melhor de sua diretora, e passa tempo demais se preocupando em estabelecer relação que comprove ao público, a verdadeira importância daquele casamento consumado, do nascimento do herdeiro. Entre a biografia e a personagem, quis se os dois e o resultado final resulta desastrado.

Homem-Aranha 2

Spider-Man 2 (2004 – EUA) 

Sam Raimi conseguiu superar o filme anterior e tornar, a saga do Homem-Aranha, num dos mais interessantes blockbusters dos últimos anos. Sua veia de terror, o toque de comédia, e a fuga da mesmice das cenas de ação são pontos chave, enquanto Raimi e Tobey Maguire desenvolvem a história de Peter Parker. Temos a humanização de um herói, entre sua rotina do dia-a-dia, suas frustrações e sonhos. Já começamos com o Aranha em jornada dupla, entregador de pizza e fotógrafo do jornal nova-iorquino, enquanto tenta concluir seus estudos, pagar o aluguel e combater o crime. Do passado, restam as feridas da morte do tio, os resquícios de um romance com sua musa Mary Jane (Kirsten Dunst) e a dor obsessiva de Harry (James Franco) por vingar seu pai.

Dessa vez o atrapalhado Homem-Aranha deve enfrentar o poderoso Dr. Octoplus (Alfred Molina), e seus tentáculos inteligentes, em mais um acidente que transforma um brilhante cientista num terrível monstro. Peter Parker é mais que um herói, é esse jovem de carne e osso, com tantos compromissos e responsabilidades a cumprir, que chega a questionar tudo e todos. A vida o torna mais vulnerável, assim como o próprio Aranha, na fatídica cena em que mostra seu rosto (se está no trailer, não é spoiler), oferecendo assim nova guinada na história. Por tudo isso, o filme é muito mais lento que o antecessor, as cenas de ação aparecem com maior freqüência (apenas na última meia-hora), porque Raimi tem tantos personagens e nuances a desenvolver, nesse misto de ação, comédia e boas pinceladas de romance. E além do que o grande público espera, como as cenas do metrô ou tia May no alto do prédio, há muito cinema aqui, como nos travellings em 360 na ligação apaixonada de Peter, no orelhão. Nasce um dos melhores filmes de Super-heróis até aqui.

Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças

brilhoeternodeumamentesemlembrancasEternal Sunshine of the Spotless Mind (2004 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Definitivamente ele está na moda, foi rápido que Charlie Kaufman se tornou um dos nomes mais bem quistos no momento. Com seus roteiros inventivos, originais e que transformam um filme num complicado jogo de quebra-cabeças para o público, caiu nas graças de uma indústria que pouco espaço dá a quem foge da cartilha. Suas amalucadas histórias, escapando das fórmulas prontas, são a nova vedete do público fã de ser guiado (conduzido) por roteiros cheios de sacadas. Aqui, o roteirista volta a trabalhar com o diretor Michel Gondry em mais uma trama com suas marcas registradas.

A trama vem do romance envolvendo o introvertido Joel (Jim Carey) e a espevitada e impulsiva Clementine (Kate Winslet), que como ela mesmo gosta de dizer, muda de personalidade ao mudar a cor do cabelo. A clínica Lacuna descobriu uma maneira de apagar lembranças indesejáveis das pessoas. Desapontada com o andamento de seu relacionamento, Clementine decide apagar Joel de sua memória. Ao descobrir, um Joel amargurado se propõe a fazer o mesmo, mas no meio do processo arrepende-se. Para que Clementine não seja apagada, Joel tenta encontrar um lugar em sua mente para escondê-la, uma corrida frenética dentro de sua memória.

Entre tantas artimanhas, Kaufman quase tenta esconder que se trata de uma comédia romântica. Nos momentos cruciais, nas cenas em que o puro sentimento (o amor, eterno combustível do gênero) precisa ser evidenciado, a história naufraga. Falta o essencial e sobram dois atores competentes em seus personagens. Na eterna tentativa de fugir dos clichês, o roteiro derrapa em suas invenções e nas esquecíveis histórias de seus coadjuvantes. Grande parte do problema está no própria dupla direção-roteiro, que, se por um lado mostra suas armas antes do tempo e não consegue embalar no apelo amoroso, por outro encontra inusitadas e deliciosas saídas para completar sua história de maneira divertida. É um filme de uma ideia linda, amplamente romântica, e que funciona perfeitamente bem em separado ao todo. Mas, o peso de carregar com humor, de ter uma grande sacada a cada nova sequencia, é sempre um fardo que a abundância criativa quer dar conta e se distancia do harmônico. Será que Kaufman traz um prestígio parecido ao que Woody Allen oferecia no passado? Afinal tantos coadjuvantes de luxo que parece que todos querem trabalhar num filme dele.