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Antes de mais nada, é importante destacar, que a análise e a escolha dos melhores filmes do ano de 2016 ficou comprometida pela ausência de alguns dos principais destaques da temporada. Estes filmes já pintam como favoritos a participar da lista do ano que vem. Não foi possível descobrir filmes como Nocturama, Personal Shopper, Manchester à Beira-Mar, Moonlight, La la Land e Hermia & Helena.

Lembrando que valem filmes lançados em até dois anos atrás, portanto a partir de 2014, e vistos por esse blog no decorrer de 2016.

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  1. Elle, de Paul Verhoeven
  2. Sieranevada, de Cristi Puiu
  3. Canção para um Doloroso Mistério, de Lav Diaz
  4. Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
  5. Toni Erdmann, de Maren Ade
  6. Certas Mulheres, de Kelly Reichardt
  7. O. J.: Made in America, de Ezra Edelman
  8. Martírio, de Vincent Carelli
  9. Jovens, Loucos e Mais Rebeldes, de Richard Linklater
  10. Os Pensamentos que Outrora Tivemos, de Thom Andersen
  11. Correspondências, de Rita Gomes de Azevedo
  12. Porto, de Gabe Klinger
  13. Belos Sonhos, de Marco Bellocchio
  14. A Qualquer Custo, de David Mackenzie
  15. Loving, de Jeff Nichols
  16. O Que Está Por Vir, de Mia Hansen-Love
  17. Três, de Johnnie To
  18. Rua Cloverfield, 10, de Dan Trachtenberg
  19. Homo Sapiens, de Nikolaus Geyrhalter
  20. John From, de João Nicolau
  21. Graduation, de Cristian Mungiu
  22. A Grande Aposta, de
  23. Paterson, de Jim Jarmusch
  24. A 13ª Emenda, de Ava Duvernay
  25. O Filho de Joseph, de Eugène Green

Dito isso, a primeira análise possível é destacar a quantidade de grandes filmes que tem mulheres como protagonistas. São personagens fortes e marcantes, e que fogem de um clichê fragilizado. Ao contrário, são personagens extremamente determinadas, e de graus de complexidade, e camadas, que não só traduzem diferentes posições das mulheres na sociedade atual, como finalmente oferecem tratamento igualitário.

Peguemos os exemplos de Elle e Aquarius, onde Isabelle Huppert e Sonia Braga lutam por seus anseios pessoais, sejam eles profissionais ou amorosos, se permitem manter a sexualidade ativa e decidida, e compram briga com a juventude sem qualquer medo que qualquer discussão fuga da argumentação. São mulheres vibrantes, independentes, modernas e ainda assim influenciadas pelo passado. Nessa mesma linha há aquele que foi considerado pela critica o filme do ano, em Toni Erdmann temos o embate entre pai e filha, ela uma executiva workaholic, distante da família e fria nas decisões profissionais. A diretora alemã, Maren Ade, mistura as fragilidades e fortalezas dentro desse vulcão em erupção que é sua protagonista, aterrorizada pelo pai debochado e intrometido que quer sua atenção.

Se falamos em mulheres, o novo filme de Kelly Reichardt é o destaque ainda maior, afinal, são três histórias e quatro mulheres protagonizando tipos femininos dessa sociedade moderna americana. E novamente as fragilidades e fortalezas são destrinchadas com exímia sensibilidade.

Contraponto a tudo isso vem o novo filme de Richard Linklater, uma espécie de continuação espiritual do filme antecessor. Jovens, Loucos e Mais Rebeldes acompanha um grupo de calouros da universidade que fazem parte do time de baseball, vivem de festas e de conhecer as garotas. Alguém pode sugerir uma visão machista, mas a sensibilidade de tratar a idade, pela visão masculina, e a aproximação com o sexo oposto, devem afastar esse pensamento inicial. Seu filme é outra ótima representação de uma juventude imatura, despreocupação com qualquer coisa além da diversão.

Dois documentários que dissecam seus temas são grande destaque do ano. Primeiramente O. J: Made in America que não só refaz toda a trajetória do crime que marcou os EUA, com seu grande astro de futebol americano, como contextualiza a questão negra à época e sabiamente relaciona os desfechos do julgamento. No Brasil, Martírio (que será lançado em circuito em 2017) é extremamente atual e estuda a questão do índio. É um retrato completo e constrangedor de um país que privilegia sempre o mercado frente o ser humano. Falando em política, novamente temos Lav Diaz resgatando a história de seu país (Filipinas). Numa viagem de oito horas de um cinema vigoroso, viajamos pela história de ditadores, burguesia fútil e a caça aos lideres da revolução que pregam democracia e liberdade.

Dessa forma temos política, preconceito, violência e injustiça representados no cinema, talvez tenha faltado aqui a questão que aflige a Europa que é a imigração e o terrorismo. E, para encerrar essa pequena amostra, outro documentário de Thom Andersen. Os Pensamentos que Outro Tivemos é um delicioso estudo a partir de livros de Deleuze, a partir de ciclos de destruição e restauração e exemplos caldos no cinema de Godard, Cassavetes, Griffith e Pedro Costa. Representa  um cinema que enxerga para dentro da sétima arte, que analisa, questiona e compara a si próprio, uma autocritica e uma autorreferencia instigante.

Top 25 – 2015

Top 10 – 2014

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O cinema brasileiro deu o que falar em 2016. Começando pelo grande sucesso internacional de 2 filmes, que, não por acaso, encabeçam a lista de favoritos deste blog. Ambos entraram em listas de melhores do ano, como New York Times e Cahiers du Cinema. Kleber Mendonça Filho causou frisson em Cannes, e Boi Neon se destacou em Veneza, no ano anterior. Mas, não foram só os elogios, houve também a questão política, a manifestação, e mais tarde a polêmica na escolha do filme que o Brasil optou para ser o concorrente no Oscar.

Enquanto isso, os filmes brasileiros continuam buscando seu espaço, vivendo das comédias globais ou dos lançamentos minúsculos que rapidamente saem de cartaz. Fora eles, só meia dúzia de filmes alcançam realmente um público maior, e neles alguns nomes se solidificam, como Marco Dutra e Anna Muylaert.

Cinema de gênero (um thriller e musical), documentários intimistas, além dos sucessos de Gabriel Mascaro e KMF, os 5 filmes dessa lista de destaques do ano carregam a urgência de um cinema que precisa ser visto, descoberto pelo público e com mais espaço de midia, salas e alcance.

 

Aquarius

 

  1. Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
  2. Boi Neon, de Gabriel Mascaro
  3. O Silêncio do Céu, de Marco Dutra
  4. A Paixão de JL, de Carlos Nader
  5. Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas

Top 5 – 2015 – Cinema Nacional

Top 5 – 2014 – Cinema Nacional

Top 5 – 2013 – Cinema Nacional

AquariusAquarius (2016 – BRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Lembro bem de criança quando descobri os vinis e fitas K-7 do meu pai, guardadas no armário, e que me foi permitido acesso livre. A vitrola rapidamente quebrou, assim como o K-7 que tinha Toquinho e Vinicius. Mas era um fitinha verde que eu ouvia repetidas vezes, e a frase do meu pai que dizia “sumiram com Taiguara para calá-lo” sugerindo que Taiguara vivia no exílio ou teria morrido. Meu pai não deve saber ainda qual foi o fim de Taiguara, e eu nunca mais ouvi aquelas canções, que me fascinavam, por mais que eu nem deveria entender 10% do que diziam.

A abertura do filme de Kleber Mendonça Filho traz a canção Hoje de Taiguara, que me pareceu familiar desde os trailers, mas confesso que precisei pesquisar para lembrar o nome do cantor. Afinal, na minha infância, Caetano Veloso (“caminhando contra o vento”) era tão importante quanto Taiguara (“eu não queria a juventude assim perdida”). Clara (Sonia Braga) é a própria voz da resistência. Uma voz que luta, que expõe seus argumentos, quase sempre sem sair do tom. Uma voz que não nega o presente, mas mantém viva a chama do passado.

A narrativa de fluidez hipnótica de KMF apresenta Clara em todos os sentidos, sua juventude de luta contra um câncer, sua relação com os filhos, a vida social com suas amigas, ou com a empregada doméstica, além de suas pequenas rotinas. O filme é perfeito em representar isso tudo, em construir a personagem bem diante dos nossos olhos, como quem nos convida para sentar no sofá daquela sala.

E novamente o diretor e crítico de cinema prova captar assuntos fervilhantes da cultura brasileira atual, estamos diante do Impeachment, e KMF traz a história de uma mulher que não quer sair de seu “trono”, por mais que todos os sinais indiquem esse caminho. É a pura voz da resistência. No filme, Clara vive no mesmo apartamento que viveu a vida, que ouviu aqueles discos que ecoarão por diversas vezes no filme (Gil, Bethania). Porém, uma construtora comprou todos os apartamentos do prédio, só resta do dela para que o prédio seja demolido e substituído por um novo empreendimento. Enquanto conhecemos cada vez mais de Clara, surge o conflito entre imobiliária e a solitária proprietária. Táticas de guerra, ameaças, KMF pontua didaticamente quem é o bem ou o mal, quem é a direita e a esquerda em seu filme, e com conceitos tão definidos e caricatos, exagera novamente na necessidade de pregar sua luta/visão política (tem todo o direito, a questão é como).

Tantas polêmicas envolveram o filme, algumas causadas pelo próprio diretor, o fato é que se tornou o filme brasileiro mais controverso antes mesmo de sua estreia. Bom que gerou curiosidade, mas uma pena que muita gente deixar de assistir esse estudo tão humano e essa capacidade de tratar a terceira idade sem clichês, permitindo que se viva a vida, que haja desejo sexual, assim como angústias, medos e o depósito da esperança na juventude. Sonia Braga é luz, uma estrela que faz de seu brilho próprio a grande conexão entre o público e tudo que KMF deseja comunicar.

E para encerrar a seção de melhores de 2013, o cinema brasileiro tem uma produção diversificada que merece uma atenção especial.

osomaoredor

 

  1. O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho
  2. Faroeste Caboclo, de René Sampaio
  3. Cine Holliúdy, de Halder Gomes
  4. Uma História de Amor e Fúria, de Luiz Bolognesi
  5. A Floresta de Jonathas, de Sérgio Andrade

 

globodeouroindicacoes• Globo de Ouro, sai essa semana a lista de indicados. 12 anos de Escravidão e Trapaça foram os destaques [Screen Daily]

• E no SAG, 12 Anos de Escravidão, de novo, na frente [Screen Daily]

• Seguindo com as premiações e listas de melhores do ano, AFI – American Film Insitute divulgou seus 10 melhores de cinema e tv [AFI]

• Já o LAFCA – Los Angeles Film Critics Association quis ser diferente, elegeu Gravidade e Her como os melhores do ano [LAFCA]

• Ari Folman irá dirigir adaptação do livro Os Diários de Anne Frank [Cineuropa]

• Os 25 Melhores Filmes do ano de acordo com [Slant Magazine]

• Favoritos ao Oscar: Trapaça (American Hustle), de David O. Hussel [Metacritic] [Slant Magazine] [NY Times]

• Festival de Rotterdan 2014: Riocorrente, de Paulo Sacramento, é um dos 5 filmes já selecionados para a competição principal [Screen Daily]

• A campanha para a indicação de O Som ao Redor, na entrevista com Kleber Mendonça Filho [UOL Cinema]

• Os Coen e George Clooney, juntos em novo filme [Omelete]

• Entrevista com Uberto Pasolini, diretor de Uma Vida Comum / Still Life [Cineuropa]

36mostraSP2012_bannerJá abri um post apenas sobre o festival, seus problemas que parecem nunca se solucionar, as decepções que diminuem a vontade da maratona, e o ineditismo que diminui sensivelmente a quantidade de filmes que prometem ser os principais do ano. A verdade é que meu pacote de 40 sobrou este ano, para o ano que vem um pacote de 20 talvez esteja de bom tamanho.

Por isso, o post se concentra especificamente nos filmes, mas antes a constatação da diminuição do público que frequento essa edição. As filas intermináveis não foram tão intermináveis, poucos filmes se esgotaram. E com o ineditismo, restou ao festival grandes filmes que estão comprados e por isso poderiam ser deixados de lado para que os que nunca chegarão aqui fossem privilegiados, mas a lista desses filmes era pouco animadora.

Encerro a Mostra com 37 filmes vistos entre os que estavam selecionados, um se destaca dos demais, há 3 outros que mereceriam estar na lista dos “melhores”.

Depois disso uma lista enorme de filmes ok, e uma imensa maioria de filmes muito ruins. A qualidade foi desanimadora, os filmes que chamaram atenção nos festivais de 2012 decepcionaram, é uma pena, o ano não parece ter sido tão bom quanto parecia. Pensei seriamente em afrouxar o rigor e trazer uma lista um pouco maior, mas não, temos que privilegiar os bons filmes e deixar os divertidos e razoáveis em seu verdadeiro espaço.

Cada vez mais, a impossível obrigatoriedade de acompanhar o Indie, Festival do Rio e a Mostra SP para se ter uma apanha geral se faz necessário.

O Filme

  • Tabu, de Miguel Gomes

Os Melhores

  • A Copa Esquecida, de Lorenzo Garzella e Filippo Macelloni
  • O Som Ao Redor, de Kleber Mendonça Filho
  • A Caça, de Thomas Vinterberg

O Som ao Redor (2012) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Um filme onde o som é o personagem principal. A captação perfeita, límpida, a capacidade do cineasta Kleber Mendonça Filho em costurar situações capazes de motivar a presença sonora marcante. O clima de leve suspense que aumenta, ainda mais, a tensão sonora. O conjunto de histórias que se unificam por ocorreram numa rua de classe média em Recife, servem essencialmente como argumento para que o diretor nos leve ao latido irritante do cão do vizinho, ao banho de cachoeira, ao caminhar do grupo de vigilância que se apodera da rua nas madrugadas.

As histórias se desenrolam, poucas terão desfecho, não importa, KMF não está preocupado em traçar um perfil da sociedade brasileira (ou recifense), por mais que nessa despreocupação ele consiga criar situações interessantes. Seu interesse é que o público dê prioridade aos ouvidos e todas as sensações que eles sejam capazes de nos oferecer. A dona de casaem crise com a irmã, o jovem que se divide entre a nova namorada e o trabalho na imobiliária da família, e todos os personagens que orbitam aquela rua e à volta desses dois (que são quse privilegiados no filme) estão a mercê da capacidade técnica de KMF emergir o público nos sons, oferecendo uma nova experiência cinematográfica.