Posts com Tag ‘Krzysztof Kieslowski’

Decálogo

Publicado: outubro 20, 2016 em Cinema, Mostra SP
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decalogoDekalog (1988 – POL) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Os decálogos de Krzysztof Kieslowski. A referência já se tornou um clássico tamanha magnitude ganhou a poderosa mini-serie para a TV polonesa, sub-dividida em 10 capítulos de 55 minutos cada, cada um deles ligada diretamente a um dos 10 Mandamentos. Explorando um grupo de personagens, que só se interrelaciona diretamente por habitarem o mesmo conjunto habitacional, o cineasta extrapola dramas pessoais explodindo reflexões morais ligadas a temas universais.

Do antagonismo ciência versus religião à culpa de torcer, ou não, pela morte do marido, e assim decidir pela gravidez indesejada. Alias, a relação pais e filhos é tratada não só o decálogo em que a filha questiona a maternidade da irmã, como da relação pai e filha posta em cheque quando há dúvidas de que seja ele realmente o pai biológico.

Já as questões amorosas são amplamente desenvolvidas na história da mulher que mente sob o desaparecimento da marido para se aproximar do amante, ou do adolescente apaixonado que tenta se aproximar da mulher que avista pela janela.   Ou até no caso do homem que sofre por impotência, e além de viver o drama da virilidade, teme que a mulher tenha um caso.

No que talvez seja a melhor das histórias, dois irmãos ficam obcecados pela fortuna, em selos, que o pai deixou como herança. Mau sabem o que fazer, e na empolgação entre a riqueza e mantém o legado do pai, só se metem em confusões engenhosas e arriscadas.

Religião, sexo, traição, família, ganância, a estrutura narrativa está mais preocupada em dar vazão aos roteiros e as profundezas dramáticas que cada história estabelecem. No todo, um resultado poderoso, ainda que abuse dos limites em muitos momentos. Questionador e ligado diretamente ao cotidiano contemporâneo humano, em histórias que poderiam ocorrer com qualquer um, em dramas em inseguranças que nos assombram a cada minuto.

A Cicatriz

Publicado: setembro 17, 2012 em Cinema
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Blizna
(1976 – POL)

Visto hoje, o filme pode ganhar proporções visionárias a Krzysztof Kieslowski. Isso, por toda a onda verde que vem angariando, cada vez mais pessoas preocupadas com reciclagem e preservação do meio-ambiente. Quando o realizou, o cineasta tinha em mente apenas os aspectos políticos que o cercavam e a situação governamental em seu país (obviamente a ditadura censurou o filme por lá).

A construção de uma fábrica petroquímica numa pequena cidade, a revolta da população que não almejava o progresso em detrimento á expulsão de suas casas, ao desmatamento da região. No meio disso, Bednarz (Franciszek Peiczka) volta a sua cidade natal para tocar esse projeto, entre o passado desagradável que mantém sua esposa longe do lugar e os conchavos políticos as quais ele é obrigatório a aceitar para que as coisas se desenvolvam. Longe da genialidade Kieslowski filma com a garra de quem segura uma bandeira e saem gritando em passeata. O virtuosismo dá lugar à necessidade de protestar, de maneira seca e direta, um tiro certo.

Amador

Publicado: agosto 16, 2011 em Uncategorized
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Amator / Camera Buff (1979 – POL)

O comprador de uma pequena fábrica na Polônia comunista vive momentos de êxtase com a gravidez da esposa, entusiasmado compra uma câmera 8mm para filmar todos os momentos da filha que está prestes a chegar. Engraçado como a novidade mobiliza todos à sua volta, incentivado peles chefes, amigos, a idéia de guardar os momentos da filha vai além, o cineasta amador passa a filmar de tudo, ganha fama e vai parar em pequenos festivais. Logo ele, que tinha tudo que planejara na vida (mulher, filha e tranquilidade), vê na efervescência do novo nascer o risco de desperdiçar o que lhe era rico.

Krzysztof Kieslowski despontava para o cinema, seu filme é tão cru e humilde que quase nos tornamos amigos do homem obcecado pela nova paixão, a proximidade da câmera quase nos faz palpitar na vida pessoal. Alguém pergunta porque a esposa o deixou, em certo momento do filme, ele rebate que talvez fosse inevitável (enxerga claramente as razões, sua ausência, mas algo mais forte o impelia de dar passos atrás), a pessoa insiste se a mulher teria levado a tv, e ao ouvir dele um não, avisa que ela pode voltar. Pode parecer algo tão absurdo, mas há mais de trinta anos, isso podia significar tudo, poderia ser o sinal da separação temporária, um momento de escolha. E o cineasta amador segue seu rumo, suas escolhas, enquanto assiste ao início das mudanças políticas, o surgimento dos sindicatos, o princípio do fim do comunismo.

Curriculum Vitae

Publicado: junho 27, 2007 em Cinema
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curriculumvitaeCurriculum Vitae (Zyciorys, 1975 – POL)  estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Audiência com a alta cúpula do partido para decidir a expulsão de um membro, que tenta defender-se das acusações. Kieslowski não faz interferência alguma, e o que vemos é um sujeito complicando-se a cada nova explicação dos fatos. Difícil conter as risadas com tamanha capacidade de se envolver em trapalhadas. Por exemplo, na carta de um pai dizendo que até conhecê-lo, a menina era uma garota inocente (e ele um homem casado). Ou no caso dos subalternos que levaram bebidas para a base do partido, e que ele não conseguia controlar a bebedeira (isso com quinze dias de transferência, num histórico de dois anos sem qualquer confusão no local). O documentário é bastate escuro, focado nos rostos e nas tentativas frustradas do membro do partido em defender-se de fatos tão irrefutáveis, no mínimo divertido.

afraternidadeevermelhaTrois Couleurs: Rouge (1994 – FRA/POL/SUI) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O projeto da trilogia surgiu em virtude do bicentenário da Revolução Francesa. A ideia simples, três filmes representando as tr6es cores da bandeira francesa, e o que representam cada uma daquelas cores (liberdade, igualdade e fraternidade). Foram filmados simultaneamente, e lançados em sequencia, nos 3 Grandes Festivais. A trilogia é encerrada com muita sutileza, naquele que muitos consideram o melhor de todos (eu prefiro A Liberdade é Azul)

O vermelho está espalhado por todos os lugares, não há aonde não encontrá-lo. A trama carrega muito do acaso, mas, além disso, de como as pessoas interferem na vida das outras, até mesmo involuntariamente. Conhecer uma pessoa, ou se relacionar mais profundamente com outra, abre um oceano de possibilidades, de mudanças na vida. Como se os destinos fosse sendo traçados a cada escolha.

Uma modelo (Irène Jacob) atropela uma cadela na rua. Sem saber o que fazer descobre, na coleira, o endereço do dono. Lá conhece um ex-juiz (Jean-Louis Trintignant) que vive espionando as conversas telefônicas de seus vizinhos. Aquela situação repugnante, de um homem ultrajante, que perdeu a vontade de viver, ao invés de causar repulsa, estranhamente transforma-se em amizade.

A relação que se estabelece muda profundamente a vida de ambos. O ex-juiz guarda algo de misterioso, e os encontros, pouco a pouco, transformam o comportamento deles, a influência é fatal. No final um encaixe com os dois filmes anteriores, faz da seqüência final um brilhante desfecho para a trilogia, e principalmente uma bela homenagem aos ideais da Revolução Francesa.

aigualdadeebrancaTrois Couleurs: Blanc (1994 – FRA/POL)  estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Não guarda a mesma genialidade de seu antecessor. Aquela efervescência que exalava de cada cena, de cada detalhe, passam levemente distantes dessa vez. Nessa segunda parte da trilogia das cores, representando a cor do meio da bandeira da França, Krzysztof Kiéslowski leva a ferro o conceito de igualdade. Trata de forma crua, rude, a igualdade sob forma de vingança. É um filme mais seco,  e com alguns detalhes que parecem desconexos. Basicamente narra a desolação de um cabeleireiro polonês, morando em Paris, que é pego de surpresa ao ser intimado pelo judiciário para tratar de seu divórcio. A esposa é francesa (Julie Delpy) e alega que o casamento nunca foi consumado, e ele não pode negar que não seja verdade, por mais amor que sinta por ela.

Dominique arquitetou minuciosamente seu plano, para ficar com todos os bens do casal. Karol é totalmente surpreendido, acaba na rua da amargura, tendo que se virar para voltar para a Polônia e recomeçar sua vida. Mesmo tomado de amor, ele deseja vingança, está exposto ao princípio de igualdade que tanto Kiéslowski queria. Numa cena crucial Dominique reclama que mesmo que ela diga que o ama, ele não entende (problemas com o idioma), trata-se de um momento forte, duro, ainda que distante da beleza que a cena final nos guarda, do que se verá atrás dos binóculos.

aliberdadeeazulTrois Couleurs: Bleu (1993 – FRA)  estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Conheço quem viu 4-5 vezes um mesmo filme em cartaz. Dificilmente revejo um filme visto recentemente. Dessa vez o caso foi outro, havia alugado o dvd, acabei de assisti-lo e fui dormir. Incomodado, a impressão não fora das mais intensas (por mais que gostara, de alguma forma ele dominara minha consciência.

Logo pela manhã revi, não dava para desperdiçar aquelas imagens com uma primeira olhada, não é toda hora que você assiste um filme de perder o fôlego. Precisava ser revisto, dar maior importância a algumas nuances, algumas texturas. É um filme completo que na revisão surgiu como uma obra-prima, majestoso, inesquecível.

Por onde começar? Poderia ser pelo olhar de Juliette Binoche, adoro quando um ator não precisa pronunciar uma sílaba, em seus olhos estão explícitos sentimentos, desejos, angústias, ternura e dor. Juliette Binoche é uma surpresa a cada instante, um espetáculo a cada plano. Só que Krzysztof Kieslowski apronta das suas, sua câmera consegue ir além do olhar, chega a usar os olhos de Binoche como um espelho. Há cenas inimagináveis, como o princípio de um choro que é focado apenas nos lábios de Binoche, Kiéslowski espetacular a cada momento, impressionante.

Em alguns cenas de momentos mais emblemáticos a imagem é escurecida por três, quatros, cinco segundos, uma música clássica surge, a imagem volta ao ponto de onde o filme havia parado. É como se o diretor nos permitisse um momento de reflexão entre um instante e outro. Um respiro.

Julie (Binoche) renuncia a liberdade, depois de perder seu marido e filha num acidente de carro. Tenta o suicídio, fica apenas com a renuncia, a saudade, as lágrimas, a emoção, a liberdade. Tenta se livrar de tudo que a apegue à vida. Foge das lembranças, dos amigos, muda-se.

Não leva nenhuma recordação, a não ser um lustre azul. Aliás, o azul está presente no filme todo, começando pela divina fotografia. Mas há o amor, há a amizade, e por mais que renunciemos a esse tipo de relação humana, é impossível controlar. E, também, há a música, que embala nossos corações em momentos tocangtes da vida. Julie luta, mas será possível não se render a essas forças que nos movem? A cena final é a melhor resposta. Obra-prima!

Tudo indicava que nada demais iria acontecer, que ficaria sem assunto sobre os bastidores da Mostra, nessa terça-feira, no Cinesesc. Um povinho batendo papo na fila, sala cheia (só alguns lugares disponíveis, na primeira fileira), quando um senhor bonachão foi apresentado ao microfone. Ninguém mais, ninguém menos que o ator principal do filme que estávamos prestes a assistir.

Jerzy Stuhr, ator-fetiche de Kieslowski, veio à  Mostra para apresentar seu filme como diretor (O Tempo de Amanhã) e este, de seu grande parceiro, ainda inédito por aqui. Falando em italiano, contou um pouco sobre sua amizade com Kieslowski, colocando-o num pedestal sagrado.

Quando o filme acabou, o pessoal começou a sair, mas alguém na sala de projeção errou alguma coisa e o filme voltou a aparecer na tela (uma parte qualquer lá pelo meio), o povo voltou todo ouriçado: “Ainda não acabou, ainda não acabou”. Um corre-corre momentâneo, alguns já se ajeitavam nas poltronas e aquela cena repetindo-se na tela, até que alguém lá em cima se tocou e desligou a projeção.

A Paz (Spokój / The Calm, 1980 – POL) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Na década de setenta a Polônia vivia sob o autoritário regime comunista. O sindicalismo ganhava vultos pelo país. Este telefilme baseado no romance de Lech Borski e dirigido por Krzysztof Kieslowski foi mais um dos censurados pelo regime. Num primeiro olhar a história é tão simples, filmada em tom propositadamente ingênuo, de cortes curtos, narrativa crua e cenas diretas. A projeção se encerra e, uma espécie de parábola martelando sua cabeça não nos deixa em paz. Onde as metáforas ganham contorno político e algumas das bases do comunismo são duramente criticadas.

Após três anos de prisão, Antek Gralak (Jerzy Stuhr) quer uma única coisa na vida: paz. Seus objetivos máximos não passam de um emprego, uma casa sua e uma família. E com certa facilidade, Gralak, consegue realizar seus desejos arrumando colocação na construção civil e se enturmar com seus colegas de trabalho, esposa e família são questão de tempo. O gerente (Jerzy Trela) também demonstra grande apreço por Gralak, passa a utilizar sua boa-vontade em favor próprio, até que um sinistro roubo de material promove a discórdia entre os empregados e o gerente.

Gralak termina no meio do tiroteio, a tão sonhada paz lhe enveredara ao meio de um conflito de classes, e sua boa-vontade torna-se arma nas mãos dos opostos. Kieslowski constrói com paciência a figura simplória de seu personagem central, Jerzy Stuhr guarda na simplicidade a característica mais marcante, e traduz com sorrisos tolos a candura essencial de alguém altamente manipulável.

O comunismo prega a igualdade social, direitos e privilégios iguais a todos. Gralak deseja exatamente isso, ambições simples como uma esposa, bons amigos. Seu personagem como a própria representação do que o regime oferece à população. Só que ninguém se satisfaz facilmente, há nos seres humanos um instinto de desejar mais do que se tem, e assim o povo e a burguesia expõem suas armas para encontrar no regime mecanismos que lhe assegurem uma melhor posição social.

Está lançado o conflito, e a tal igualdade (paz), pregada, torna-se existente apenas nos discursos de seus líderes. Olhar de maneira simplista para o drama de Gralak é uma forma muito pobre de tratar a obra de Krzysztof Kieslowski.