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A Trama

Publicado: novembro 16, 2017 em Cinema, Mostra SP
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L’atelier / The Workshop (2017 – FRA) 

Quem conhece a carreira de Laurent Cantet, sabe da importância da edução em sua filmografia. O cineasta francês ganhou a Palma de Ouro com Entre os Muros da Escola, mas o tema não para por ai. Novamente temos uma espécie de sala de aula, uma oficina de escrita em que um grupo de jovens aprende a escrever um thriller com uma autora consagrada.

No primeiro ato, tudo se apresenta com o esperado. Os alunos discutem ideias, surgem conflitos e a escritora (professora) dá as direções. Das discussões surgem questões atuais, afinal, o grupo é bem heterogêneo entre filhos de imigrantes africanos e árabes, e outros franceses. O ataque ao Bataclan, o passado de luta pelo não fechamento do mais importante pólo industrial da cidade, racismo, são temas que se cruzam ao processo criativo.

No segundo ato, o filme se rebela quase como um thriller psicológico, quando descobrimos mais de Antoine, o mais rebeldio e provocador dos alunos. Como se a vida colocasse em prática as técnicas propostas durante a oficina. É quando A Trama deixa de lado esses temas atuais maiores, para dar foco as aflições da juventude em sua individualidade. Com planos e contra-planos insinuantes e claustrofóbicos, Cantet extrai dos não-atores a pungência de uma juventude que dialoga com os tempos turbulentos da incompreensão e violência gratuita.


Festival: Cannes

Mostra: Un Certain Regard

Prêmios: 


Laurent Cantet na Toca: Em direção ao Sul (2005), Entre os Muros da Escola (2008)

Entre les Murs (2008 – FRA) 

Nesses tempos desgastados de tantos reality shows que inundam nossa televisão, Laurent Cantet revitaliza, e com seu toque pessoal aproxima ao máximo este formato do cinema. Baseado no livro escrito pelo professor François Bégaudeau (interpretando a si mesmo), o filme não se faz indiferente, primeiramente pela conjunção harmonica de ficção e documentário. Essa característica é intensificada pela utilização de não-atores, meros alunos interpretando a si mesmos durante um ano letivo de uma escola da periferia parisiense. Em segundo luar pela presença da câmera praticamente posta de lado, as aulas de francês transcorrem tão normalmente e parecem tão intensas que o microcosmos na sala de aula extrapola para uma certeira metáfora da própria França.

Ali estão imigrantes, filhos de imigrantes, jovens que não se sentem franceses e enquanto lutam a todo momento em busca da auto-afirmação de suas origens, vivem a explosiva e rebeldia imatura da idade. A nostalgia coloca-se como um dos sentimentos eclipsados, vivenciar o clima escolar nos traz lembranças do nosso tempo de estudantes ginasiais (este termo nem existe mais), nossos conflitos e os amigos que há tempos ficaram para trás.

Cantet intensifica a verborragia em confrontos tensos que nada devem aos verdadeiros embates entre professores e alunos que tumultuam a educação mundo afora. François apregora-se como um professor visceral, sensitivo, que enlouquece e permite que as emoções lhe tomem a razão, enquanto esforça-se para que os alunos façam mais do que o básico, raciocinem. Quando o filme vira-se para o cotidiano do professor, conselhos e reuniões, perde parte do seu fundamento, de seu vigor, é nesse momento que Cantet foge do formato reality show em busca de um completo dia-a-dia escolar. Ficaria melhor com a tensão, e principalmente com a magia que os professores possuem ao extrair dos alunos seu melhor, de buscar entre tantas características difusas e tantas inseguranças, aquele estalo que os faça acordar do transe regular da desestimulante rotina de estudar. François na figura de pátria mãe, parece incansável e paradoxalmente incompreendido por aqueles que vivem (ou carregam a bagagem) de tantas injustiças.

Vers Le Sud (2005 – FRA/CAN) 

A estrutura de onde parte a trama é bem interessante, querendo colocar o Haiti como um paraíso para mulheres de meia-idade e mal resolvidas sexualmente. Um local onde  encontrariam prazer, com os garotões negros que realizariam todos seus desejos e fantasias. É a prostituição às avessas, onde os homens se vendem para o poderio financeiro feminino.

A ação se desenvolve a partir de três turistas vindas de partes diferentes do mundo, mais precisamente entre a dominadora e ácida Ellen (Charlotte Rampling) e a doce e apaixonada Brenda (Karen Young). As duas disputam as atenções do mesmo garoto, Legba (Ménothy Cesar). E a seu modo, cada uma demonstra seus sentimentos ao garoto que só busca sua sobrevivência. Ganhar seus carinhos (claro que em troca de presentes e outras mordomias financeiras) torna-se mais importante do que qualquer paisagem que o Haiti possa oferecer.

Até esse ponto o filme caminha bem, mas o roteiro demonstra-se mal resolvido quando pretende mergulhar dentro da realidade de Legba e seu país. Pouco elucidativo, o filme passa a ficar carente de fatos, explicações, ou de alguma bagagem que dê crédito ao que vem a seguir. Nem para demonstrar a miséria com que o povo haitiano convive o filme é ccompetente. Ficando apenas no clichê de um país pobre.

Pouco a pouco, nos resta a sempre competente Charlotte Rampling, brindando cada cena com elegância e sofisticação. O diretor Laurent Cantet tinha chance de muito mais, talvez tenha faltado ser ousado, talvez o problema vá muito além. É um filme que começa interessante e chega ao fim quase que arrastado num triângulo amoroso e um pano de fundo que pretende deflagrar a opressão porque passa o povo hatiano, mas o pano de fundo não resiste e Karen Young parece tão chata e frágil quanto sua própria personagem.