A Mulher que Se Foi

Ang Babaeng Humayo / The Woman Who Left (2016 – FIL) 

Chega ao circuito comercial brasileiro o vencedor do último Leão de Ouro de Veneza, outro trabalho típico do cineasta filipino Lav Diaz: filmado em preto e branco, planos bem longos, a narrativa de imersão nos personagens, a passagem do tempo marcada e fundamental, os temas políticos de seu país. Roteiro adaptado do conto Deus Ve a Verdade, Mas espera, de Tolstoi.

Aqui, é via noticiário de tv que descobrimos a onda de sequestros nas Filipinas em 1996 e a interferência da devolução de Hong Kong, dos britânicos à China, na parte chinesa da população. Conhecemos também a situação de Horácia, prisa por trinta anos injustamente, e libertada após outra detenta assumir o crime e informar que ela foi vítima de uma vingança do ex-namorado.

Resta a essa mulher tão caridosa com todos na prisão a busca por reunir sua família, e o desejo de vingança que surge (tão conflitante de seu comportamento mais natural). Enquanto planeja sua vigança, Horácia oferece o bem à sua volta, da família que vive num terreno desua propriedade, ao vendedor ambulante que mora na favela, ou a travesti solitária que perâmbula na madrugada pelas ruas.

Talvez o filme sofra um pouco no ritmo narrativo (diferente do que ocorra em filmes bem mais longos do cineasta), por outro lado, Lav Diaz continua milimétrico em sua capacidade de criar momentos marcantes, e conduzir o público nesse tipo de história límpida e clara, mas de um poder quase perturbador ao analisar as relações humanas, a hipocrisia burguesa, e a comparação de princípios. O desfecho surge surpreendente, mas até ele, já estávamos entregues a sua capacidade de hipnotizar em seu ritmo pacato de contador de histórias.

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Top 25 – 2016

Antes de mais nada, é importante destacar, que a análise e a escolha dos melhores filmes do ano de 2016 ficou comprometida pela ausência de alguns dos principais destaques da temporada. Estes filmes já pintam como favoritos a participar da lista do ano que vem. Não foi possível descobrir filmes como Nocturama, Personal Shopper, Manchester à Beira-Mar, Moonlight, La la Land e Hermia & Helena.

Lembrando que valem filmes lançados em até dois anos atrás, portanto a partir de 2014, e vistos por esse blog no decorrer de 2016.

elle

  1. Elle, de Paul Verhoeven
  2. Sieranevada, de Cristi Puiu
  3. Canção para um Doloroso Mistério, de Lav Diaz
  4. Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
  5. Toni Erdmann, de Maren Ade
  6. Certas Mulheres, de Kelly Reichardt
  7. O. J.: Made in America, de Ezra Edelman
  8. Martírio, de Vincent Carelli
  9. Jovens, Loucos e Mais Rebeldes, de Richard Linklater
  10. Os Pensamentos que Outrora Tivemos, de Thom Andersen
  11. Correspondências, de Rita Gomes de Azevedo
  12. Porto, de Gabe Klinger
  13. Belos Sonhos, de Marco Bellocchio
  14. A Qualquer Custo, de David Mackenzie
  15. Loving, de Jeff Nichols
  16. O Que Está Por Vir, de Mia Hansen-Love
  17. Três, de Johnnie To
  18. Rua Cloverfield, 10, de Dan Trachtenberg
  19. Homo Sapiens, de Nikolaus Geyrhalter
  20. John From, de João Nicolau
  21. Graduation, de Cristian Mungiu
  22. A Grande Aposta, de
  23. Paterson, de Jim Jarmusch
  24. A 13ª Emenda, de Ava Duvernay
  25. O Filho de Joseph, de Eugène Green

Dito isso, a primeira análise possível é destacar a quantidade de grandes filmes que tem mulheres como protagonistas. São personagens fortes e marcantes, e que fogem de um clichê fragilizado. Ao contrário, são personagens extremamente determinadas, e de graus de complexidade, e camadas, que não só traduzem diferentes posições das mulheres na sociedade atual, como finalmente oferecem tratamento igualitário.

Peguemos os exemplos de Elle e Aquarius, onde Isabelle Huppert e Sonia Braga lutam por seus anseios pessoais, sejam eles profissionais ou amorosos, se permitem manter a sexualidade ativa e decidida, e compram briga com a juventude sem qualquer medo que qualquer discussão fuga da argumentação. São mulheres vibrantes, independentes, modernas e ainda assim influenciadas pelo passado. Nessa mesma linha há aquele que foi considerado pela critica o filme do ano, em Toni Erdmann temos o embate entre pai e filha, ela uma executiva workaholic, distante da família e fria nas decisões profissionais. A diretora alemã, Maren Ade, mistura as fragilidades e fortalezas dentro desse vulcão em erupção que é sua protagonista, aterrorizada pelo pai debochado e intrometido que quer sua atenção.

Se falamos em mulheres, o novo filme de Kelly Reichardt é o destaque ainda maior, afinal, são três histórias e quatro mulheres protagonizando tipos femininos dessa sociedade moderna americana. E novamente as fragilidades e fortalezas são destrinchadas com exímia sensibilidade.

Contraponto a tudo isso vem o novo filme de Richard Linklater, uma espécie de continuação espiritual do filme antecessor. Jovens, Loucos e Mais Rebeldes acompanha um grupo de calouros da universidade que fazem parte do time de baseball, vivem de festas e de conhecer as garotas. Alguém pode sugerir uma visão machista, mas a sensibilidade de tratar a idade, pela visão masculina, e a aproximação com o sexo oposto, devem afastar esse pensamento inicial. Seu filme é outra ótima representação de uma juventude imatura, despreocupação com qualquer coisa além da diversão.

Dois documentários que dissecam seus temas são grande destaque do ano. Primeiramente O. J: Made in America que não só refaz toda a trajetória do crime que marcou os EUA, com seu grande astro de futebol americano, como contextualiza a questão negra à época e sabiamente relaciona os desfechos do julgamento. No Brasil, Martírio (que será lançado em circuito em 2017) é extremamente atual e estuda a questão do índio. É um retrato completo e constrangedor de um país que privilegia sempre o mercado frente o ser humano. Falando em política, novamente temos Lav Diaz resgatando a história de seu país (Filipinas). Numa viagem de oito horas de um cinema vigoroso, viajamos pela história de ditadores, burguesia fútil e a caça aos lideres da revolução que pregam democracia e liberdade.

Dessa forma temos política, preconceito, violência e injustiça representados no cinema, talvez tenha faltado aqui a questão que aflige a Europa que é a imigração e o terrorismo. E, para encerrar essa pequena amostra, outro documentário de Thom Andersen. Os Pensamentos que Outro Tivemos é um delicioso estudo a partir de livros de Deleuze, a partir de ciclos de destruição e restauração e exemplos caldos no cinema de Godard, Cassavetes, Griffith e Pedro Costa. Representa  um cinema que enxerga para dentro da sétima arte, que analisa, questiona e compara a si próprio, uma autocritica e uma autorreferencia instigante.

Top 25 – 2015

Top 10 – 2014

Canção para um Doloroso Mistério

cancaoparaumdolorosmisterioHele As Hiwagang Hapis / A Lullaby to the Sorrowful Mystery (2016 – FIL) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Prepare-se para mais uma jornada pelos olhares de Lav Diaz à história triste de seu país. Seus filmes são uma arma contra a memória curta de muitos povos, um trabalho de relembrar o passado comparando-o com as mudanças (ou não mudanças) do presente. Dentro de suas típicas obsessões: o branco e preto, os longuíssimos planos abertos com câmera fixa, o extenso desenvolvimento de seus personagens, e, claro, a longa duração de seus filmes, o que o cineasta filipino realiza é, inicialmente, outro poderoso e fundamental documento histórico. Estamos diante dos anos finais do século XIX, a guerra de parte da população contra o domínio colonial espanhol.

A maior parte das oito horas de duração acompanhamos a saga de Gregoria de Jesus (Hazel Orencio) em busca de seu marido, André de Bonifácio y Castro, quer ele esteja vivo ou morto. Logo ele, considerado o maior líder da revolução filipina à época, fundador do movimento Katipunan, teria sido capturado pelos governantes. Vagando pela floresta, o pequeno grupo sobrevive, aos trancos e barrancos, enquanto encontram pistas do paradeiro. E assim, ajudam como fio-condutor da narrativa de Diaz para fatos relevantes que constituem o período histórico em questão.

Esse núcleo é intercalado com outros encontros e diálogos importantes, cujo conjunto resulta nesse retrato da sociedade filipina, sob tão diferentes aspectos. Seja no massacre de revolucionários presos, seja pelas reuniões dos sarcásticos líderes governistas pró-Espanha, sarcásticos, seja pela presença de lideres religiosos ou, até mesmo, pelos pequenos eventos que funcionam como contos morais abordando justiça e humanidade.

É, sobretudo, uma viagem aos rincões e ao coração do povo filipino. Uma jornada de persistência, de assombro, de amor e de arrependimento. O roteiro também se aproveita para adaptar, livremente, alguns livros de José Rizal, e assim enriquecer com aspectos literários essa imersão épica, e fundamental, a um período que se mostra nem tão distante assim da realidade contemporânea.

Lav Diaz continua a afugentar grande parcela da cinefilia, é uma pena, deviam perder esse medo e mergulhar em seu cinema de personagens em movimento, de reflexões políticas, e da riqueza de detalhes que só o tempo das cenas pode oferecer. O cineasta também nunca se deixa afastar do cinema, aqui presta sua homenagem a própria arte cinematográfica na representação, imperdível, do que teria sido a primeira sessão de cinema, nas Filipinas, para burgueses tolinhos. Veja de uma vez só, veja em capítulos, mas mergulhe profundamente no notável cinema desse filipino.

Serafin Geronimo: The Criminal of Barrio Concepcion

serafin-geronimo-the-criminal-of-barrio-concepcionAng Kriminal ng Baryo Concepcion (1988 – FIL) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Faz todo o sentido Lav Diaz ter revisitado Crime e Castigo em Norte, O Fim da História. Esta sua estreia no cinema é também uma variação do livro de Dostoievsky, cujo arrependimento do crime leva a confissão. Diaz começa com a direta crítica social, uma jornalista (Angel Aquino) incisiva frente ao governo devido a grande quantidade de sequestros nas Filipinas. Cai sob seu colo Serafin (Raymond Bagatsing) que carrega todo o peso do mundo sob suas costas.

O filme em si é cru, desajeitado, algumas vezes com trilha dramático exagerada, em outras diálogos artificiais (principalmente quando a jornalista lamenta o horror do que está ouvindo). Ainda assim, são os primeiros passos de Lav Diaz, que compreende bem que a redenção do personagem é mais importante do que uma história bem tramada e um roteiro que possa surpreender.

Top 25 – 2015

Os meus 25 filmes favoritos do ano de 2015. O critério é o mesmo do ano passado, filmes vistos ao longo do ano, e que foram produzidos até 2 anos atrás (portanto, limite é 2013). Eles formatam, na visão deste blog, o melhor do panorama do cinema, com toda a subjetividade que uma lista dessas possa ter. E, novamente, o top 10 comentado tenta captar um pouco da percepção sobre estes filmes e sobre o cinema contemporâneo.

assassina

  1. A Assassina, de Hou Hsiao-Hsien
  2. Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller
  3. Hard to be a God, de Aleksey German
  4. Carol, de Todd Haynes
  5. Noites Brancas no Píer, de Paul Vecchialli
  6. Diálogo de Sombras, de Jean Marie-Straub e Danièle Huillet
  7. Phoenix, de Christian Petzold
  8. As Mil e Uma Noites: Volume 1 – O Inquieto, de Miguel Gomes
  9. Sniper Americano, de Clint Eastwood
  10. Spotlight, de Tom McCarthy
  11. O Tesouro, de Corneliu Porumboiu
  12. O Ano Mais Violento, de J. C. Chandor
  13. Três Lembranças da Minha Juventude, Arnaud Desplechin
  14. O Peso do Silêncio, De Joshua Oppenheimer
  15. Vício Inerente, de Paul Thomas Anderson
  16. Son of Saul, de Laszlo Nemes
  17. A Terra e a Sombra, de César Augusto Acevedo García
  18. Os Campos Voltarão, de Ermanno Olmi
  19. A Vida Invisível, de Vitor Gonçalves
  20. Um Amor a Cada Esquina, de Peter Bogdanovich
  21. É o Amor, de Paul Vecchialli
  22. 45 Anos, de Andrew Haigh
  23. Mountains May Depart, de Jia Zhang-ke
  24. João Bérnard da Costa: Outros Amarão as Coisas que Eu Amei, de Manuel Mozos
  25. Aferim!, de Radu Jude

 

A lista deste ano parece ter no amor, e na inquietude, suas vozes mais presentes. São filmes, que em sua maioria, tentam falar mais intimamente com seu público, causando reflexão ou estabelecendo conexão com o que esses corações possam reverberar. O amor é determinante no grande filme do ano, o aguardado e deslumbrante retorno de Hou Hsiao-Hsien. Tanto ele, quanto o lindo romance feminino de Todd Haynes, ofuscaram o fraco vencedor da Palma de Ouro, com narrativas sofisticadas e visualmente hipnóticas. O amor como uma âncora que afasta os protagonistas dos caminhos trilhados, a eles, pela sociedade. Num tom muito semelhante também esta o drama-romântico, do alemão Christian Petzold. Com o provável melhor desfecho do ano, seu filme vai de Fassbender a Hitchcock, quando trata genuinamente do amor e seus impactos.

Se Paul Vecchiali flerta com o cinema experimental, e adapta Dostoiévski, com seus dois personagens em encontros notívagos sobre vazios existências dos corações, o média-metragem de Jean Marie-Straub e Danièle Huillet versa sobre amor, religião, e até o tédio. Vecchiali tem o mar ao fundo, a dupla francesa o local bucólico. E em tons bem diferentes, ainda que com a semelhança do tom teatral, ambos filmes vagueiam entre o racional e o irracional.

O de Clint Eastwood está entre o amor e a inquietude. O apego à família e à pátria, e a inquietude causada pela guerra são temas latentes nesse drama de soldado. Como um todo, a trilogia de Miguel Gomes decepciona, ainda que tenha sido tão elogiada em Cannes, porém, exibidos em separado nos cinemas, o primeiro volume demonstra a força da inquietude por meio de críticas corrosivos ao cenário político português, em tom de humor debochado.

Aleksei German e George Miller criam (ou retomam) visões futuristas do caos regido pela irracionalidade. Miller e seu espantoso retorno a saga Mad Max beira a unanimidade, com surpreendentes chances reais no próximo Oscar nessa ventura alucinante pelo deserto pós-apocalíptico. Já o veterano russo recria a Europa feudal, lamacenta e exasperante, tendo na inquietude visual a grande desconstrução de seu protagonista semi-Deus.

O patinho feio da lista é o filme independente sensação da corrida ao Oscar. Mais do que um filme-denúncia, sobre acusações de pedofilia de padres católicas, Tom McCarthy realiza um empolgante estudo dos caminhos da imprensa investigativa.

 

E encerrando, os meus 10 filmes favoritos dentro do circuito comercial de 2015, sempre atrasado arrastando filmes que já estiveram no top do ano passado.

  1. Norte, o Fim da História, de Lav Diaz
  2. Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller
  3. Noites Brancas no Píer, de Paul Vecchialli
  4. O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takathata
  5. Phoenix, de Christian Petzold
  6. As Mil e E Uma Noites: Volume 1, O Inquieto, de Miguel Gomes
  7. Dois Dias, Uma Noite, de Jean e Luc Dardenne
  8. A Pele de Vênus, de Roman Polanski
  9. Acima das Nuvens, de Olivier Assayas
  10. Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan

Top 10 – 2014

Nos últimos dias estava quebrando a cabeça, vasculhando nos filmes que entraram no circuito comercial, aqueles dez que seriam os meus preferidos do ano – doença de cinéfilo. E, simplesmente, não consigo fechar uma lista com dez merecedores-de-um-top-10. Talvez 5 ou 6, vá lá, mas o restante são apenas bons filmes, em que há outros 4 ou 5 que estão ali, no mesmo nível. Desse critério tão subjetivo (e maluco) que é classificar filmes. Conversando com meu amigo Superoito, realmente não parece haver sentido nessa lista, afinal, o circuito brasileiro vive atrasado. Se a oferta em quantidade tem crescido, ainda assim a quantidade de salas “alternativas” são tão restritas, que os filme permanecem nas prateleiras das distribuições, esperando melhor momento de estrear, muitas vezes perdendo seu “momento”.

Os cinéfilos que realmente acompanham a cena internacional de cinema, o que está sendo filmado, as novas tendências, novos limites que os cineastas quebram. Estes cinéfilos buscam os filmes por outras plataformas, de outras maneiras que não exclusivamente o circuito. Nesse ponto, os festivais tem ajudado muito, não só o Indie, Festival do Rio, e Mostra SP, como outros festivais menores, tem trazido grande parte da produção atualizada, cobrindo parte expressiva dessa produção. O resto chega através de outros formatos, viagens, Netflix, internet e etc. Estamos quase em 2015, hora de mudança.

Portanto, trabalhar numa lista de melhores, tendo o circuito comercial como critério, me parece abster-se do cinema que o próprio cinéfilo acompanha, discute, vive. Não, não vou esconder meus 10 preferidos, vou apenas deixá-los no final, apenas como referência, afinal eles serão meus votos para o Alfred da Liga dos Blogues Cinematográficos.

A lista mais importante é a que vem logo a seguir (comentada), são filmes que foram vistos em 2014, com produção de até 2 anos (que finalmente foram vistos, ou ficaram acessíveis). Eles formatam melhor o panorama do ano do cinema, os principais festivais, o que a imprensa especializada ou os grupos de cinéfilos discutiram, veneraram, xingaram, amaram. Há ausências, como toda lista, afinal, ela é subjetiva. Alguns filmes não foram vistos (a Godard a mais sentida, mais a versão em 3D precisa ser vista em tela grande), outros não agradaram tanto, mas ela indica caminhos, preferências, e, acima de tudo, é coerente com esse cinema atual.

O Top 10

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  1. Do que Vem Antes, de Lav Diaz
  2. A Imagem que Falta, de Rithy Panh
  3. A Princesa da França, de Matias Piñeiro
  4. Redemption, de Miguel Gomes
  5. Era Uma Vez em Nova York, de James Gray
  6. E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto
  7. O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takahata
  8. A Pele de Vênus, de Roman Polanski
  9. Acima das Nuvens, de Olivier Assayas
  10. Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan / Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Olhando para essa pequena amostragem percebo que é uma lista heterogênea, grande parte dela da seleção dos dois últimos festivais de Cannes. Quase todos diretores consagrados, que apontam para dois caminhos: filmes grandiosos em temas e pretensões; ou pequeninos na pretensão, porém grandes na arte de filmar. São dois lados de uma mesma moeda, cineastas que enxergam suas próprias carreiras e tentam escapar dos caminhos fáceis do piloto automático.

Alguns destes filmes tem o aspecto moral como excelência, o perturbado conto de Ceylan ganhou a Palma de Ouro. O dos Irmãos Dardenne traz um melodrama nunca antes visto na carreira dos belgas. São filmes antagônicos na forma, ligados por essa questão da vida em sociedade, dos princípios. James Gray continua com poucos e fiéis fãs. Ele até flerta com o melodrama, mas seu estilo sofisticado deixa tudo tão chamuscado e charmoso que esse melodrama fica chique entre tão belos planos.

Há o lado teatral forte, é o segundo trabalho seguido de Polanski que remete ao teatro filmado, dois de seus melhores filmes em anos. O argentino Matias Piñeiro surge como uma descoberta, tardia deste blog, com uma construção irrepreensível, uma espécie de poesia teatral filmada. Assayas mergulha em seus filmes anteriores, e em Bergman, trilha novo caminho via metalinguagem.

De Portugal duas pérolas, o documentário autobiográfico de Joaquim Pinto e as biografias escondidas por Miguel Gomes num curta sobre doces fluxos de memórias. O cinema português segue produzindo pouco, mas muito bem. O japonês Isao Takahata promete ter entregue seu último trabalho, e o resultado é um primor ao refletir as tradições culturais orientais com leveza e sofisticação.

No topo da lista Pahn e Diaz, os dois revivendo cicatrizes dolorosas de seus países. Seja pelos bonecos do Cambodja, ou pelas florestas filipinas, os horrores das ditaduras sem que a violência precise ser exposta. Seus filmes são registros hipnóticos de um cinema rigoroso, que usa da simplicidade para aproximar-se de seus próprios personagens, e do virtuosismo de seus diretores para cativar os que enxergam novos rumos para o cinema. A conjunção exata entre fazer arte e contar histórias.

No Letterboxd deixo a lista mais completa com meus 25 filmes favoritos do ano.

O Top 10 do Circuito Comercial

  1. A Imagem de Falta, de Rithy Pahn
  2. Era uma Vez em Nova York, de James Gray
  3. Cães Errantes, de Tsai Ming-Liang
  4. Bem-Vindo a Nova York, de Abel Ferrara
  5. Mais um Ano, de Mike Leigh
  6. Amar, Beber e Cantar, de Alain Resnais
  7. Boyhood – Da Infância à Juventude, de Richard Linklater
  8. Vic + Flo Viram um Urso, de Denis Côté
  9. O Abutre, de Dan Gilroy
  10. O Ciúme, de Phillipe Garrel

Balanço – 38ª Mostra SP

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Menor quantidade de problemas com atrasos, cancelamento de filmes e etc (ainda houveram, é bem verdade). Um belo leque de clássicos recheando uma programação que destacou boa parte dos principais filmes que estiveram presentes nos grandes festivais de 2014. A Mostra SP volta a recuperar seu prestígio, filas, sessões lotadas. Foi a melhor edição após a opção pelo ineditismo. Ainda falta muitas coisas, o pecado mais grave continua sendo a Central da Mostra, ter que se deslocar fisicamente, quanto os que tem pacote deveriam escolher seus filmes via internet, sem dores de cabeça.

Foi a Mostra da eleição Dilma x Aécio, da propaganda da Folha vaiada em inúmeras sessões, foi a Mostra da retrospectiva de Pedro Almodóvar (que não veio ao evento), da falta de água em São Paulo. Dos filmes russos de ácida crítica à política, de confirmação da boa edição de Cannes 2014. Uma edição de menos holofotes e mais exibições. A volta das sessões da meia-noite que tem seu charme.

O mais importante são eles, os filmes, e quantidade de grandes, ou bons filmes, foi bem mais interessante. Como todo ano, abaixo destaque para os que mais me agradaram nessa edição da Mostra SP:

O Filme

doquevemantes

  • Do que Vem Antes, de Lav Diaz

Segundo ano consecutivo que o filipino emplaca meu filme preferido na Mostra SP.

 

Os Melhores:

  • Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
  • Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan
  • Acima das Nuvens, de Olivier Assayas
  • Leviatã, de Andrey Zvyaginstev
  • Relatos Selvagens, de Damian Szifron
  • A Professora do Jardim de Infância, de Nadav Lapid