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doquevemantesMula sa kung ano ang noon / From What is Before (2014 – FIL) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Tão simples quanto fantástico. Quase no final da maratona, de quase 6 horas, a narração em off determina: “a memória de um cataclisma”. Câmera estática, longos planos fixos e abertos, o preto e branco que quase dá sensação do esverdeado da vegetação. Estamos numa zona rural das Filipinas, início da década de 70. Primeiramente o cineasta Lav Diaz, com sua narrativa hipnótica, insere o público no ritmo do vilarejo.

O sujeito que fabrica vinho artesanal – Tony (Roeder Camanag), o homem que cuida das vacas do fazendeiro – Sito (Perry Dizon), o garoto que deseja reencontrar os pais que desapareceram – Hakob (Reynan Abcede), as duas irmãs, Itang (Hazel Orencio) que abdicou de sua vida para tratar de Joselina (Haniel Karenina), que sofre de problemas mentais e o povo da região acredita que tenham poderes de cura. O padre católico Guido (Joel Saracho), a mascate intrometida Heding (Mailes Kanapi), há outros, o importante é afirmar a precisão com que Diaz desenvolve cada um deles, com a parcimônia que a longe dura lhe permite, mas com a riqueza de detalhes que os constroem como pessoas, não meros personagens.

O ar de “mau maior” cobre cada um dos planos, eles não, mas o público está sempre esperando pelo pior. O filme percorre dois anos, pacientemente entendemos o papel de cada um naquela sociedade, seus problemas, seu ganha-pão. Até que chega a lei marcial, o ditador Ferdinando Marcos impõe o decreto nº 1081, ato “democrático” que coloca os militares nas ruas, a caça aos comunistas. Diaz inicia o processo de desconstrução do vilarejo, a violência onde havia algo acima da paz, o terror. Estranhos fatos ocorrem: vacas morrem, cabanas incendiadas, os moradores começam a partir daquele lugar. O filme é direto, contundente, sem que deixe de ser pacato.

O caos chega de mansinho, os personagens se adaptam, aceitam, ou simplesmente fogem. Seus dramas beiram o limite a ponto das verdades chegarem à tona (Tony, Hakob, Joselina, Heding), os militares ditam regras, o toque de recolher num local inóspito. Lav Diaz capta o horror por lentes pacientes de registrar as transformações causadas no micro, onde as leis nem sequer chegam, onde as grandes decisões dos governos não ajudam em nada, mas quando trata-se dos interesses políticos, estes são lembrados e sacrificados como se tivessem qualquer consideração política.

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Ano chegando ao fim, hora de eleger os preferidos. A primeira lista é composta com filmes (vistos em 2013) que não estreiaram no circuito nacional, e nem estão programados (segundo o FilmeB). Só valem filmes produzidos entre 2011-2013.

Felizmente, o circuito brasileiro anda cada vez melhor, a oferta de bons filmes melhorando com novas distribuidoras. Mas, ainda assim, esses filmes fizeram falta nos nossos cinemas em 2013. Documentários surpreendentes, diretores bem conhecidos em filmes pequenos, e até outros com grandes astros que acabaram preteridos pelas distribuidoras.

top 10 2013 off Circuito

37_mostra_cinema_sp_divulgaçãoA primeira sensação é de alívio ao término de mais uma edição da Mostra SP. Continuam os problemas técnicos, entre cancelamentos de sessões com antecedência até o ridículo de haver problemas na hora da sessão e acabarem trocando filmes e atrapalhando e a vida de todo mundo (isso precisa acabar, já). Mas, alívio porque a programação segue diversificada, mas dessa vez com qualidade, conseguindo trazer uma boa safra dos destaques do ano entre os festivais de cinema.

Fora as acertadíssimas retrospectivas, que deram show. Foi impossível passar longe de filmes de Stanley Kubrick, Lav Diaz e Eduardo Coutinho. Cinéfilos se dividindo entre as retrospectivas e os filmes novos. As filas maiores voltaram, sessões esgotadas, as mesmas incomoda quando voce fica sem o ingresso para o seu filme, mas é bom ver os cinemas cheios e o burburinho pela procura pelos ingressos.

É uma pena que grande parte do público só se mobilize pelo status do “vi na Mostra”, por esse fenômeno bizarro que uma sessão de um clássico como O Sol por Testemunha tem ingressos esgotados, num sábado à tarde. Tente colocar esse filme em algum cinema ou cineclube ao longo do ano, terá meia dúzia de ingressos vendidos, e olha lá. O importante são os cinéfilos verdadeiros, os que o ano inteiro acompanham os festivais e partem em busca dos filmes.

Como todo ano, abaixo destaque para os que mais me agradaram nessa edição da Mostra SP:

O Filme

norteofimdahistoria

 

  • Norte, o Fim da História, de Lav Diaz

Os Melhores:

  • Um Toque de Pecado, de Jia Zhang-ke
  • Cães Errantes, de Tsai Ming-Liang
  • Peixe e Gato, de Sharam Mokri
  • Instinto Materno, de Calin Peter Netzer

 

norteofimdahistoriaNorte, Hangganan ng Kasaysayan (2013 – FIL) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Da força da naturalidade que o cineasta filipino Lav Diaz floresce com um poder soberano de mesclar personagens, classes sociais, violência, história, política, e outras dezenas de temas. Tornando assim, 250 minutos de um filme, num tempo necessário e enxuto, além de uma experiência única e capaz de inserir o público nuam visão plural de seu país natal.

A burguesia e sus discussões políticas numa mesa de bar, os universitários de direito falando do período de ditadura de Ferdinando Marcos, e outros nomes da história filipina. De outro lado, a pobreza, uma família se desfazendo de tudo que há em casa para alimentar os filhos. Entre essas duas realidades uma agiota que lida com ambas classes sociais, seja o interesse de manter as aparências, seja pela necessidade extrema de uma situação limite.

norteofimdahistoria2Diaz faz de sua história um pouco de Crime e Castigo, o Dostoievsky filipino vai da bondade humana à violência extrema de um sociopata, da vida na cadeia ao peso da culpa. O preso injustiçado nunca se revolta, o verdadeiro culpado não consegue confessar, por mais que a culpa pese toneladas sob seus ombros. O papel da religião e como cada um lida, ou se apóia, nesse lado espiritual. O discurso em prol dos dos pais da revolução filipina (Bonifácio e Aguinaldo), fúria contra a ditadura opressiva, a pressão do mundo por seguir a cartilha social, formam um vulcão que explode em violência (ainda mais poderosa por estar sempre fora de cena).

Enquanto isso a pobreza assola, Lav Diaz pega pesado com as tragédias, não poupa nenhum de seus personagens, como se a tragédia estivesse no DNA filipino. É uma visão complexa do ser humano, e do meio, mas, sobretudo, uma maneira pessimista, nos cinco minutos finais até exagerada. Mas o que são cinco minutos, depois de 245 de ótimo cinema?