Posts com Tag ‘Lee Kang-Sheng’

journeytothewestJourney to the West / Xi You (TAW/FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

No curta de 2012, Walker, Tsai Ming-Liang filmava um monge caminhando lentamente por Hong Kong (passos de tartarugas seriam carros de F1, se comparados). O monge com sua vestimenta vermelha se funde a cidade, é uma forma de elevação do voyeur a um plano sensorial de percepção de cada detalhe que constitui o plano.

Agora, nesse média-metragem, Lee Kang-sheng reedita o monge vagoroso. Dessa vez cruza a cidade de Marselha. A câmera sempre estática, a límpida união de som, sombra, cores. A cidade com seus letreiros em francês, e o monge que segue sua jornada, sabe-se lá porque. Passa despercebido por alguns, chama atenção de outros. Denis Lavant passa a perseguir o monge, no mesmo ritmo, quase um ritual. A pressa da vida contemporânea elevada ao seu oposto, monge desce escadarias do metro, cruza praças movimentadas, a cidade aparece de ponta cabeça, e Tsai pede para que possamos ver o que nos está condicioando, seja uma nuvem, um sonho ou uma miragem.

faceVisage (2009 – FRA/TAW) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Um diretor de cinema taiuanes (Lee Kang-Sheng) vai a Paris filmar, no Louvre, sobre o mito de Salomé. Falar que ele tem problemas de comunicação por não falar inglês/francês, que sua mãe morre durante as filmagens, ou que o ator protagonista é de um temperamento indomável (Jean-Pierre Léaud) é uma forma de tentar resumir a sinopse. Eu sei que acabei de fazer isso, mas é extremamente desnecessário.

Isso porque Tsai Ming-Liang segue com seu estilo narrativo (posionamento de câmeras em ângulo, a água que inunda um apartamento, inserções musicais, o sexo como forma de desejo primitivo), mas, dessa vez, num nível ainda mais elevado do abstrato. Um conjunto de cenas que seguem uma ordem lógica, mesmo que pareçam não se esforçar no contar uma história. Trata-se de seu maior trabalho de percepção, um encontro com o mundo das artes, um flerte com a cultura europeia (um quê de Truffaut aqui e ali).

rebeldesdodeusneonQing shao nian nuo zha/ Rebels on Neon God (1992 – TAW) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Alguns cineastas tem controle tão impressionante e preciso de suas capacidades e obsessões. A coerência da obra de Tsai Ming-Liang é algo assim… assombroso. Seus filmes bebem da mesma fonte, ao mesmo tempo, tão parecidos, e tão únicos. O primeiro plano deste, que marca sua estreia, focaliza uma cabine telefônica, lá fora uma chuva torrencial. A água, a posição da câmera, são mais que suas marcas, são formas de linguagem entre Tsai e seu público, uma linguagem cinematográfica espontânea sob um olhar passivo, sem deixar de ser contundente.

A presença constante e ameaçadora da água, a melancia, a câmera que se distancia e consegue focalizar dois ambientes (como se estivesse posicionada numa vértice), Lee Kang-sheng interpretando o silencioso Hsiao-Kang, são pontos que se repetem em seus filmes em pontos de intersecção que ganham significados ainda maiores pelo conjunto da obra.

rebeldesdodeusneon2Há a irreverência marginal na estreia de Tsai, os tais rebeldes do título são jovens fissurados por fliperamas. Dois deles vivem de pequenos golpes, de roubar máquinas. Hsiao-Kang é mais jovem e passa a perseguir um deles após um incidente entre este (de moto) e o táxi do seu pai. A explosão da juventude exposta de suas formas, dentro do núcleo familiar imposta pelo confronto com os pais. E nos irmãos que moram sozinho, num apartamento nojento cuja a água invade constantemente eclipsando essa sensação de caos.

Talvez seja o mais claro dos filmes de Tsai, isso não quer dizer didático, muito pelo contrário. Mas, as relações humanas estão clarividentes (irmãos, namorada, pais x filhos, o garoto que admira e repudia aquela mini-gangue), os conflitos juvenis tratados sem complexidade e nem um lado pueril, e sim de forma direta (vida marginal, falsos-malandros). A rebeldia de uma geração sob o brilho das luzes de neon.

apassarelasefoiTianqiao bu Jian le / The Skywalk is Gone (2002 – TAW) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Curta-metragem onde Tsai Ming-Liang retoma os personagens do filme Que Horas São Ai? A passarela onde o vendedor de relógios (Lee Kang-sheng) conhece a garota (Chen Shaing-chyi) foi derrubada. Ela voltou de Paris e agora o procura, no lugar da passarela ela atravessa avenida, e toma bronca do guarda. Enquanto isso, nosso vendedor de relógio faz exames/testes para a profissão que a qual ele aparecia em O Sabor da Melância (espécie de trilogia dos dois personagens). Com uma visão da caótica urbanização das metrópoles, Ming-liang promove um encontro frustrado dos dois, numa belo plano numa escadaria escura. Um trabalho curioso, principalmente a quem acompanha sua filmografia, e pode respirar um último suspiro daquele romance melancólico pela distancia.

The Hole (1998 – Taiwan)

A presença metafórica da água no cinema de Tsai Ming-Liang ganha aqui a condição praticamente de um personagem, ou, ao menos, de fato gerador. A virada do século está chegando a Taiwan, o que se vê é o caos, a chuva torrencial que jamais cessa, uma epidemia toma a cidade causando nas pessoas comportamentos de baratas que se rastejam e fogem da luz, os noticiários só falam desse caos. As paredes não escondem toda a presença dessa umidade, ambientes fétidos, o governo pede a evacuação, nem todos atendem. Um encanador abre um buraco na sala do apartamento do protagonista (Lee Kang-Sheng) e a obra fica inacabada. É aberto o contato com a vizinha debaixo (Yang Kuei-mei) que estoca centenas de rolos de papel higiênico pela sala de sua casa. Dois solitários, angustiados pelo silencio, pela solidão, vivendo de sonhos (representados pelas inserções musicais românticas e otimistas) e da incomunicabilidade.

É nesse absurdo, num caos total, que Ming-Liang se propõe discutir o mundo contemporâneo, do incomodo  inimaginável (pense em dias com um buraco onde o vizinho de cima pode te espionar, e vice-versa) surge uma convivência (não necessariamente harmônica) permeada pela curiosidade e pelo incomodo, enquanto o país segue assolado pelo pandemônio instalado. Toda a miscelânea proposta por Ming-Liang em sua visão totalmente pessimista do mundo (porém otimista para os personagens) conflita entre esse mundo onde o que se sugere não é exatamente o que está estampado nesses dois personagens que tentam representar todos nós dentro de nossa egocêntrica existência.