Posts com Tag ‘Leona Cavalli’

Um Céu de Estrelas

Publicado: agosto 27, 2011 em Uncategorized
Tags:,

(1996)

Aquele prefácio em preto e branco, com um bairro da Mooca operário, cinza, desesperançoso é apenas perfume perto da panela de pressão que está por vir. De baixíssimo orçamento, e inteiramente passado dentro de uma casa singela, o filme de Tata Amaral tem aquele aspecto sujo, imagem fétida, perfeita tradução de pobreza, de gente humilde. Dalva (Leona Cavalli, à época uma jovem desconhecida) está à espera da mãe em casa, quem chega é o ex-noivo, o pretexto de devolver alguns pertences. Sempre desculpa para reiniciar discussão, a busca por persuadir, a esperança de um retorno. Do amor à loucura num instante, o fim da relação vira um caso policial, a câmera treme tanto quanto o desespero de Dalva, o filme busca tensão o tempo todo, a situação é realmente caótica (e cada dia mais verídica, basta sintonizar os telejornais policiais), ainda assim o filme desfaz-se lentamente dentro de suas próprias características O claustrofóbico é maior pela situação do que pelo que o filme transmite, a cena de sexo talvez seja o mais emocional e desesperador que haja em todo o filme, enquanto isso só aguardamos que o desfecho não seja acachapante.

contratodosContra Todos (2004) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Estreia na direção, do roteirista e professor da USP, Roberto Moreira, seguindo na linha de filmes abrangendo a violência urbana brasileira, tema que tem trazido sucesso ao cinema nacional no exterior. Filmando em vídeo digital, com a câmera na mão, Moreira traz o público para dentro daquela casa, tornando- o mais uma presença dentro daquele maçante ecossistema. A fotografia suja, a câmera trêmula, as tomadas posicionadas onde poderia haver alguém.

Estamos inseridos no cenário, na estética da região do Aricanduva (zona leste de São Paulo). As cores e objetos, o detalhe dos azulejos que não cobrem a cozinha toda, móveis e armários. A câmera viaja com seus personagens, percorre ruas do centro, a Galeria do Rock, acompanha o trajeto de um ônibus por ruas e avenidas.

No filme tudo começa calmo, mas com cheiro de encrenca. Teodoro (Giulio Lopes) é o patriarca, vive com sua segunda esposa (Cláudia – Leona Cavalli) e com a filha adolescente do primeiro casamento (Soninha – Silvia Lourenço, excelente). Moralista e conservador, obriga todos a realizar uma oração antes da refeição ou ler a bíblia antes de dormir. A alegoria de pai responsável esconde sua profissão, matador profissional.

Soninha é a típica adolescente rebelde, age por impulso sempre afrontando o pai, ouve música compulsivamente, usuária de drogas e compenetrada em descobrir sua libido. O casamento anda em crise, assim como o marido que flerta com uma crente devota, Cláudia também é infiel. As aparências apenas negam as diferenças do casal, ela quer mudar para o interior, ele recusa.

Um crime é a gota a transbordar a crise familiar, uma explosão de violência toma conta do filme. Cenas duras, situações sufocantes, o desejo em chocar o público é levado às últimas consequências com situações extremas, por vezes desnecessárias. Enquanto Moreira explora com essa visão parcial do subúrbio, surge Waldomiro (Aílton Graça) como chave da trama, num final que tenta se explicar para preencher arestas e parecer surpreendente, quando na verdade não o é.

amarelomangaAmarelo Manga (2002) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Rústico, quase cru. Amarelo é a realidade de um Brasil metropolitano, que se esconde de sua periferia. Um país doente, sem cor. A realidade desses personagens está em cada esquina de nossas grandes cidades, e mesmo não sendo enxergada pelas elites, acaba apresentando seus resquícios. O filme é ambientado em Recife, mero detalhe, qualquer outra capital seria palco tão perfeito quanto.

“O Brasil é estômago e sexo”, esta é a afirmação que o filme quer move a trama, e é impossível não constatá-la ao termino da projeção. Nosso povo movido por estômago e sexo, como se fossemos ocos, falta conteúdo e sobra instinto. Tudo nesse país resume-se a busca de saciar esses desejos, a falta de educação do povo reflete em pessoas simples e deturpadas.

Peguemos como exemplo o açougueiro Wellington “Canibal” (Chico Diaz). Casado com a devota crente Kika (Dira paes). Ela é daquelas que vivem nos cultos, não fazem mal a ninguém. Seu único medo é o adultério. Perdoaria qualquer coisa, até matar, exceto traição. Nosso Canibal confia mais nela que em si próprio, mas ela é ruim de cama, boa mesmo como mulher, então ele mantém um caso. Vem a pergunta, o que é uma boa mulher, alguém respeitável que cuida da casa e da comida? Para Canibal, e outros milhares de brasileiros, é exatamente isso. Sua vida é um bom prato de comida e uma mulher boa de cama.

Este é apenas um exemplo, em vinte e quatro horas, o filme fará um pequeno retrato de inúmeros personagens, capazes de prova a teoria de que nossa vida beira à mesmice, cada um com sua maluquices e problemas. Dunga (Matheus Nachtergaele) é homossexual, daqueles cheios de frescura e trejeitos. Trabalha num hotel esdrúxulo, e é apaixonado pelo açougueiro Canibal. Sua mente diabólica planeja conquistar, a todo custo, seu amor, como ele mesmo diz: “Bicha quer, bicha faz”. No hotel mora Isaac (Jonas Bloch), um homem estúpido, que troca um pouco de maconha por um defunto, para matar seus estranhos prazeres. Da janela de seu carro acompanhamos uma cidade deteriorada, coberta de lixo pelas ruas, edificações pichadas e caindo aos pedaços.

O padre é dos mais liberais, sua igreja está fechada, mas ele continua pela redondeza batendo papo, pregando para seus “fiéis” e gastando sua sabedoria. Há também os amigos que filosofam na mesa do bar, Dona Aurora e sua eterna falta de ar, e sentimento de perseguição por um possível passado obscuro que ela tenha vivido. No meio destes e outros personagens tão reais e perturbadores vemos uma luz no fim do túnel, um pouco de sanidade. Lígia (Leona Cavalli) é dona de um boteco. Seus dias resumem-se a bêbados que pensam que seu corpo está à disposição deles, só que ela consegue enxergar sua realidade, sabe que aquilo não é vida para ninguém, mas não lhe restam alternativas. Esse país tão viciado não permite que as pessoas tentem recomeçar. Lígia é a lucidez dentro desse amarelão sem fim.

Cláudio Assis estréia na direção com muita pose de cinema experimental, sua construção de personagens é evoluída, e a narrativa de filme-painel é seca, suja. Peculiaridades do povo nordestino são apresentadas com bom humor, como na cena do bar em que o rapaz se refere à turma como “Talebans e Osamas”. O título é competente, a metáfora da cor inteligente. Não quero mais ver meu país pintado em amarelo manga.