Posts com Tag ‘Leonardo Sbaraglia’

Nieve Negra (2017 – ARG) 

Filme após filme, é impressionante a capacidade de Ricardo Darín em mobilizar público, dentro do circuito de cinema nacional, não importa seja um drama, um thriller, uma comédia ou um melodrama. Afinal, esse segundo filme do diretor Martín Hodara nem devesse ser digno de nota, pois não foge do esquema de uma “reviravolta” para mexer com o público, e claramente se estabelece como o grande mote do filme.

O irmão ermitão (Darín), que vive na Patagônia, é procura pelo outro irmão (Leonardo Sbaraglia) a fim de aceitar a venda de um negócio da família. Pouco a pouco, o roteiro tenta construir as razões do distanciamento, a tragédia do passado, e a aspereza com que o sujeito isolado do mundo age com qualquer ser humano. Mesma a coragem em tratar um assunto tabu, no grande momento da virada da trama, apresenta ser um OVNI dentro de uma narrativa tão sedimentada em suas bases de didatismo em tom de tragédia sulamericana.

osilenciodoceuO Silêncio do Céu (2016) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O fato gerador é um hediondo ato de violência, um estupro em sua própria casa. Mas, o filme tem como combustível a incomunicabilidade entre marido e mulher, e essa incomunicabilidade representa muito mais do que as cicatrizes da violência urbana. O diretor Marco Dutra vai filmar no Uruguai, em espanhol, e novamente traz a trama para o seu mundo, o flerte com o terror e com o suspense psicológico.

No centro dessa história estão Diana (Carolina Dieckmann) e Mario (Leonardo Sbaraglia) e um casamento que tenta ser reconstruído. A separação criou distanciamento que, lentamente, entenderemos comportamentos e segredos.

A narrativa em off é muito precisa em trazer sentimentos e sensações de seus personagens, que os silêncios não seria capazes de representar, é uma ferramenta que funciona muito bem a favor de Dutra, além de intensificar a sensação claustrofóbica que se divide nas diversas facetas com que Mario passa entre seu relacionamento e o ódio que o consome. É essa riqueza dramática do personagem central que faz o filme de Dutra ur além do cinema de gênero, sem perder de vista suas origens. Ainda que o clímax chegue quando ainda havia espaço para sufocar o público, tem um timing bem condizente com seus personagens e a contrução do todo.

relatosselvagensRelatos Salvajes (2014 – ARG) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Imensa maioria do público brasileiro quer mesmo saber do novo filme com Ricardo Darín, mas, além dele há muito mais na volta do diretor Damián Szifron. Uma comédia debochada, por oras tola (Tempo de Valentes e El Fondo Del Mar, suas comédias anteriores já pecavam pelo ingênuo), regada a sangue e violência. O tema é vingança, seis pequenas histórias que dialogam pelo tema, além carregado tom humorístico. Szifron busca situações do cotidiano, exemplo disso é a história em que Darín é o protagonista, e enlouquece pela burocracia e os desmandos do serviço de multas de trânsito de Buenos Aires.

Brigas de trânsito, provocações, ressentimentos do passado que explodem como um barril de pólvora. Szifron eleva as situações à máxima potência, extrai do público gargalhadas ao expor nossos comportamentos caricatos. É a nossa selvageria levada à última consequência, apenas com uma roupagem agradável para uma sessão de cinema (em grupo melhor ainda, as risadas contagiam), e nem nos damos conta do quanto de nós está representado naqueles personagens. A hilária festa de casamento que se torna um pesadelo, Szifrón extravasa pelo sádico, pelo humor negro, um diálogo fácil com o público, personagens vivem seus “dias de fúrias”. O diretor argentino joga fácil para a torcida.

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Una Pistola en Cada Mano (2012 – ESP) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Como é ser homem, atualmente, e viver na faixa dos 40 anos? Que tipos de aflições e medos, dramas e dúvidas, qual o conforto financeiro e as relações amorosas que vivem? Aquele clima de filme coletivo, estilo Paris, Te Amo, com histórias curtas, um quê de comédia, e um elenco de chamar a atenção.  Se o filme não sofre da uniformidade resultante da mão de vários diretores, o cineasta Cesc Gay pouco de interessante consegue agregar, seja pelas histórias banais e nada inspiradas, seja pela abordagem primária.

oquefalamoshomens2Dos que voltaram a morar com os pais, aos que tentam uma escapadinha fora do casamento, ficamos mais atentos apenas à aparição de Javier Cámara na agridoce história do homem que se divorciou e tenta reatar com sua esposa. E, principalmente, ao encontro de Ricardo Darín e Luis Tosar, o traído que seguiu a esposa à casa do amante e o amigo que confunde o nome das namoradas e do cachorro. As demais são muito apagadas, e pecam por um grau de veracidade sem brilho, como se fossem histórias que sequer merecessem serem contadas. Os 8 homens não representam a gama masculina dessa faixa etária, e nem conseguem trazer vidas pitorescas ao público.

Utopía (2003 – ESP)

Que salada de roteiro! Uma sociedade denominada Utopía reúne pessoas capazes de enxergar o futuro, de outro lado um grupo sul-americano de uma seita secreta, uma espécie de traficantes e guerrilha que estão sempre ingerindo um estranho líquido. No meio disso tudo Adrián (Leonardo Sbaraglia) que se esforça em manter-se distante desse “dom” premonitório, mas acaba indo de encontro a Ángela (Najwa Nimri) que trocou sua família abastada pela vida na “guerrilha sul-americana” . A proposta da cineasta María Ripoll é clara, um thriller nos moldes de Hollywood, em espanhol, criar espaço para esse cinema (dito mais comercial). Para isso, o filme usa todas as artimanhas atuais, com montagem rápida, pequenos efeitos visuais, disfarces da modernidade. O difícil é relacionar esses dois grupos (Utopía e seita secreta, sem falar na história do cego que está a procura de Adrián), dar sentido a uma procura incessante sem que um objetivo mensurável justifique. É o entreter por entreter, cheio de artimanhas, com pouco resultado prático e nenhum artístico, conte uma história com mortes e procuras e guarde o segredo para o fim e temos um filme.