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A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1965) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O melhor do filme está no que você não vê. A batalha que acontece entre consciência, fé e coração de Augusto Matraga (Leonardo Villar). A complexidade da personalidade do rico fazendeiro surge quando ele é traído pela esposa, sofre uma emboscada e praticamente é dado como morto. O homem rico e violento, viril no trato social, sobrevive por pouco, e encontra redenção em sua fé.

Roberto Santos adapta Sagarana de Guimarães Rosa, vivemos o cinema novo, o cinema do cangaço está na moda (quase o western brasileiro). São filmes genuínos de uma brasilidade, mesmo empunhando armas e carregando a violência masculina, há essa relação com religiosidade quase como o leme das vidas. Ao abdicar de tentar retornar sua vida, Augusto Matraga se entrega a fé, ele quer viver, mesmo que essa nova vida seja distante de tudo que ele tinha (esposa, filho, fazenda, posses). Essa opção é posta em suspenso com a chegada do grupo de Joãozinho Bem Bem (Jofre Soares). Alguém que ousa cruzar a ponte e tentar trazer Augusto Matraga ao mundo, e toda sua crueldade. Nisso tudo, a sequencia final é categórico, o novo Augusto diante de suas novas convicções, de seus velhos comportamentos e da religião que lhe serviu como prumo.

Brasileiro tem dessas coisas, quando não ganha reconhecimento internacional é porque não sabe fazer, ou é injustiçado. Quando ganha, foi um equívoco, deu sorte, não era tudo isso. O filme de Anselmo Duarte é até hoje o único brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes, e desde então ficamos na esperança de ganhar novamente, ou de levar um Oscar, e este filme (que pode não ser o melhor de todos os tempos) cai esquecido, as vezes desprezado ou até marginalizado. Muitos dizem que havia melhores na competição, e quem não sabe que festival é assim, quem ganha é o que apresenta consenso, nem sempre o preferido de parte do júri. O que almejo dizer com tudo isso é: pare-se de malhar e dê-se ao filme de Anselmo Duarte o valor que ele merece. E que Anselmo se reestabeleça dos problemas cardíacos que o acometeram na última semana.

o-pagador-de-promessasO Pagador de Promessas (1962) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

A ingenuidade é dúbia, primeiro na formação de Zé do Burro (Leonardo Villar) como personagem. Depois, da idealização do roteiro, por apresentar-se abusando dessa ingenuidade. Mas este julgamento de ingenuidade se faz hoje, mais de quarenta anos após a realização do filme, porque de ingênuo o filme não têm nada. Na época existiam muitos Zé do Burro por aí, e muitos vilarejos com uma pequena igreja como a do padre Olavo (Dionísio Azevedo).

O poder metafórico que o filme ecoa é o da analise e julgamento dos fatos, e também a distorção dos mesmos por imprensa, opinião pública, governo e demais esferas. Tudo isso tratado numa escadaria de igreja, onde enfrentam-se credos, crenças e santos, e o pitaco de todos que puderam se envolver no caso de alguma maneira. Anselmo Duarte transforma a porta da igreja num tablado de teatro, onde o camponês simplório, e teimoso de suas convicções, é subterfúgio para resumir o pequeno microcosmos da sociedade brasileira na década de sessenta, com a simplória Rosa (Glória Menezes), a prostituta (Norma Bengell), e o espertalhão (Geraldo Del Rey) até personagens secundários como comerciantes, e pequenas vozes do povo que se fazem presentes. De um conto pitoresco, Anselmo Duarte perfaz uma sociedade, e de uma incompreensão traduz a ignorância.