Posts com Tag ‘Leos Carax’

Holy Motors (2012 – FRA)

É clara a proposta de Leos Carax em transformar seu filme numa joguete do virtuosismo a seu dispor e das infinitas possibilidades que esse vistuosismo poderia oferecer ao ator Denis Lavante a plataforma perfeita para que ele prove sua versatilidade, seu talento inegável.

Para isso ele cria mecanismos (o filme dentro do filme), desfila por Paris com uma limusine branca enquanto o protagonista interpreta inúmeros personagens. Esse pequeno conjunto de histórias resulta num filme sem sentido, focado no brilho de Lavante e na arrogância de Carax, enquanto alguns absurdos se misturam com histórias tão corriqueira que não fazem menor sentido de existir. Criar a fantasia para desculpar sua incapacidade de realizar algo bem amarrado e elaborado, muito fácil assim Carax.

Les Amants du Pont Neuf (1991 – FRA)

Pode parecer delírio meu, mas a representação da Ponte Neuf me parece aqui quase apocalíptica, como em filmes da estirpe de Blindness. Tudo porque ela estava em reforma no início dos anos 90, e aqui povoada por dois mendigos. Um deles é um artista circense frustrado (Denis Lavante) que se apaixona por uma linda mulher enquanto a mesma se banha numa praça (Juliette Binoche). Ela é uma artista que largou sua vida, foi morar na rua, tudo por um coração partido, e pela doença que a está deixando praticamente cega.

Nasce um amor, mas é uma relação suja, quase violenta, extremamente dependente. Ele, viciado em álcool e só dorme com soníferos. Ela se recompondo emocionalmente enquanto perde sua visão dia a dia. De repente se apaixonam e desfilam um amor truculento por entre ruas, vivem a despreocupação, pequenos golpes para sobreviver.

Leos Carax filma as comemorações do bicentenário da Revolução Francesa, seus amantes gritam pela ponte enquanto os fogos de artifício iluminam o céu de Paris, a visão surge como um quadro, seu estilo neobarroco de um mundo utópico, futurista e erótico, sua visão poética pessimista invade as cenas. O amor egoísta, a dependência lasciva, a ponte testemunha a doçura por trás de aparências tão virulentas e “desprezíveis”.

King Lear (1987 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Um descendente de Shakespeare decide reescrever as obras do dramaturgo, no mundo pós acidente de Chernobyl, eis a releitura proposta por Jean-Luc Godard a Rei Lear. Nessa caótica criação, Godard propõe a discussão sobre o intuito da arte, o que é exatamente a arte e se ela faz sentido num mundo cheio de destruição e riscos nucleares?

Entre gangsteres, autores de teatro arrogantes, e esse aprendiz de dramaturgo, que tudo observa, numa viagem de navio, nascem: questionamentos, pequenos ensaios críticos que ao invés de respostas trarão mais perguntas. Esse é o mundo de Godard, querendo polemizar, pedindo revisões constantes porque nossa cabeça muda com o tempo e assim percepções e objetivos, buscando no caótico uma nova forma de raciocinar, e depois deixando esse material bruto nas mãos de um tal Mr. Alien (Woody Allen) para editar essa tentativa de recuperar a arte perdida com Chernobyl.

Tokyo!

Publicado: junho 24, 2009 em Cinema
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Tokyo! (2008 – FRA/JAP/ALE/COR) 

Por mais antagônica que possa ser a união entre as histórias (Merde, um ser asqueroso em nada se equivale à delicadeza do rapaz se apaixonando pela entregadora de pizza, por exemplo) há sim muita unidade nos estilos de direção que se complementam, na fotografia de tons vivos e vibrantes. E, por mais que o dedo de cada diretor esteja presente em seu trabalho, há esse flerte com o fantástico, com o bizarro, e nesse quadro geral Tokyo é sim um filme uniforme.

Três visões da metrópole nipônica, três inserções dentro da loucura de uma megalópole que engole seus habitantes. Em Interior Design, Michel Gondry recorre ao HQ para contar a vida de um casal em busca de novas perspectivas em Tóquio. Passando alguns dias de favor no cubículo de uma amiga, e a jovem sem conseguir emprego sente-se a cada dia mais inútil até chegar ao ponto de transformar-se numa cadeira. A visão de Gondry é delicada e divertida, tanto pelo aspirante a cineasta, quanto pela anfitriã enfrentando a falta de liberdade, culminando na esposa degradando sua alma numa sucessão de insucessos (desemprego, carro guinchado, dificuldades em reaver os equipamentos do marido).

Desde o primeiro instante é escatológica a história de Leos Carax, o Sr. Merde sai do esgoto da cidade com sua barba ruiva, sua roupa verde e os olhos esbugalhados e leitosos. Comendo dinheiro, fumando, atacando as pessoas, o “monstro do esgoto” aterroriza a população enquanto caminha livremente pelas calçadas até esconder-se num bueiro. Carax acompanha em planos sequências todas a selvageria cometida por Merde, até que o mesmo é preso. Surge então outra figura esquizofrênica, um advogado francês (que mais parece pai de Merde) e apresenta-se como sendo o único a traduzir as palavras do monstro. Seria Merde um francês no Japão livre para agir da forma como gostariam os franceses? Sem papas nas línguas, ele solta o verbo, diz odiar os japoneses e a bizarrice não para nem após a condenação.

Num ritmo oposto surge Shaking Tokyo, abordando os hikikomori’s, espécie de japoneses na faixa dos trinta anos que vivem enclausurados em casa, sustentados pelos pais, comunicando-se com o mundo via telefone ou internet (e viva o delivery). Em seu mais brilhante trabalho, Bong Joon-ho trata dessa Tóquio introvertida, nesse romance sutil (que facilmente tornar-se-ia um longa), entre este homem enclausurado, que de repente apaixona-se por uma linda entregadora de pizza. Motivado pela paixão, o enclausurado cria coragem para sair de casa, após dez anos longe das ruas (a cena em que ele tenta tirar a bicicleta do meio das plantas é sacal).